Ensaio

Memória, justiça e verdade vividas em Buenos Aires

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Memória, justiça e verdade vividas em Buenos Aires Foto: Fernando Seffner

Em artigo anterior, intitulado “Um feriado para lembrar, ou melhor, para não esquecer”, tratei dos antecedentes históricos do 24 de março argentino, denominado Dia Nacional da Memória pela Verdade e a Justiça. Relato agora parte do que vi e vivi na semana que o antecedeu, ou seja, aquela entre 18 e 23 de março de 2024, aqui em Buenos Aires. Foi uma semana recheada de eventos preparatórios para o domingo 24, bem como de debates pela imprensa e outros episódios em torno do tema da memória. Em um próximo artigo, finalizo com o relato da marcha e das manifestações ocorridas no domingo, dia 24 de março de 2024, em Buenos Aires. As conexões memória, verdade e justiça são cruciais para entender a Argentina de hoje, e servem para entender boa parte da situação dos países da América Latina, inclusive o Brasil, em meio a tantos ciclos de ditaduras militares.

Na segunda-feira, dia 18 de março 9h da manhã, eu estava na frente de uma escola pública, em bairro distante do centro da cidade, algo como em Porto Alegre seria o Jardim Itati ou o Jardim Itu Sabará. Bairro antigo, com predomínio de casas, ruas arborizadas, edifícios de pouca altura, situado entre algumas grandes avenidas. A escola é de ensino fundamental completo e de turno integral – as crianças entram pela manhã e saem no meio da tarde. Duas turmas de sexto ano – 38 crianças entre 11 e 12 anos, com igual distribuição de gênero – estavam de saída para um percurso histórico envolvendo o tema da memória pelo próprio bairro. Cinco docentes as acompanhavam.  

Para minha enorme surpresa, e sem que isso tenha sido feito por conta da minha presença, a primeira parada foi em um mural muito colorido, de grande destaque em uma esquina, com a imagem de Marielle Franco, e no fundo o desenho de uma favela. O mural cobria a parede externa de uma casa térrea simples. Com o burburinho das crianças, em seguida a porta se abriu, e a proprietária da casa, uma senhora, se apresentou. Ela narrou a história tanto da execução do mural – quem tinha dado a ideia, quem tinha pintado, como foi sua inauguração logo após o fim da pandemia – quanto falou da vida de Marielle e de seu assassinato, com grande conhecimento de causa. Afirmou que o mural tinha como propósito homenagear esta ativista brasileira pelos direitos humanos e pela luta contra o autoritarismo. Finalizou se desculpando porque, alguns dias antes, alguém havia pintado de preto um dos dentes do amplo sorriso de Marielle, dando a aparência de um dente cariado. Seu filho, que é pintor, iria arrumar aquilo, mas estava viajando. Ela falou isso em parte porque as crianças, desde o primeiro minuto frente ao painel, não paravam de apontar o dente supostamente cariado, e estavam se acusando entre si sobre quem teria feito aquilo, uma vez que todas moravam no bairro e poderiam ter conhecido o autor ou autora da contravenção.  

Fotos: Fernando Seffner

Se eu fiquei surpreso com o painel, a proprietária da casa ficou ainda mais surpresa quando um dos professores disse que ali estava um colega brasileiro, e ele gostaria que eu falasse algo. Isso tudo foi de improviso. A senhora imediatamente me cumprimentou, e pediu desculpas se ela havia se equivocado em algo. Eu fiquei entre emocionado e atrapalhado. Agradeci muito, em nome dos brasileiros e brasileiras que lutam pela democracia, a esta homenagem que ali faziam os moradores do bairro a uma figura tão emblemática do nosso ativismo político. Dei detalhes do processo, e das suspeitas em torno de apontar para quem foram os mandantes. Usei a palavra emboscada para descrever o assassinato. Descobri que esta palavra existe em castelhano, e a palavra provocou visível atenção da classe de alunos e alunas, que reagiram exclamando “foi uma emboscada”.

Dali fomos a outra casa de esquina, onde viveu uma das fundadoras do movimento Madres de Mayo, Esther Ballestrino de Careaga, assassinada pela ditadura. Quem nos recebeu foi uma parenta sua, que contou a história e as tentativas da família em localizar seus restos mortais, o que só aconteceu alguns anos atrás, quando então foi possível realizar o sepultamento. A imagem desta mãe estava estampada, na forma de mosaico, na parede externa da casa. Há um projeto chamado Mosaicos Nacionais, que se dedica a marcar, sempre na forma de mosaicos, os desaparecidos e desaparecidas. Esta senhora e a proprietária da primeira casa seguiram as crianças em seu percurso.

Fomos então até outra praça do bairro. Ali os moradores, alguns anos atrás, plantaram um conjunto de árvores, uma para cada um dos vizinhos e vizinhas desaparecidos, colocando ao pé de cada árvore uma placa com seus dados. Alguns vizinhos estavam aguardando as crianças, e haviam pendurado nas árvores folhetos com informações sobre a vida de cada desaparecido, e indicando aonde haviam morado no bairro. As crianças se dispersaram entre as árvores, e ficaram lendo os cartões. Os vizinhos e vizinhas que haviam preparado tudo falaram com as crianças. Uma moça bastante jovem, também moradora do bairro, falou, já em um tom diferente, não como alguém que havia vivido a ditadura, mas como alguém que não desejava viver em um tempo de ditadura, e por isso havia se juntado ao movimento do bairro pela memória. Sua fala foi muito impactante para as crianças, isso foi visível. Ato contínuo, as crianças se reuniram em torno de um buraco já cavado na praça, e ali plantaram uma árvore, para registrar sua homenagem a esta causa da memória. Depois da árvore posta no lugar, cada criança colocou um pouco de terra e fez um pedido, algumas em voz alta, outras em silêncio.

Seguimos na caminhada, já agora acompanhados por outros vizinhos, alguns velhos que passeavam cachorros, e algumas mães que passeavam filhos bem pequenos, e fomos para o último ponto, situado em uma ampla junção de três ruas, com uma rotatória central. Era um mosaico em homenagem a Diego Maradona, algo que se vê em muitos lugares aqui na cidade. Enquanto um dos professores perguntava acerca da vida de Maradona e de suas opiniões políticas, a minha presença perturbou um pouco a atividade. Fui cercado por vários garotos e algumas garotas, com perguntas de todo tipo sobre futebol, que jogadores eu considerava os melhores do mundo, qual era o meu time do coração, onde eu morava no Brasil, se eu havia conhecido Maradona, se eu já havia estado no Maracanã, se eu havia conhecido Pelé, e tudo mais. Falei da Marta, jogadora brasileira, e as meninas a conheciam. Dali, as crianças voltaram para a escola, e eu me fui para o ponto de metrô.

Acompanhando o noticiário dos jornais nesta semana anterior ao 24 de março, o debate central se deu em torno de uma polarização. Por um lado, os grupos que já citei no artigo anterior, o principal dos quais as Madres de Plaza de Mayo, que reforçam sua luta em torno dos 30 mil desaparecidos, e da condenação dos envolvidos nestes atos de terrorismo de estado. Por outro, teve destaque na mídia a foto de um encontro do Ministro da Defesa com um grupo de esposas de militares que cumprem prisão perpétua por torturas e assassinatos, e que demandam sua libertação. Ao longo da semana Milei encaminhou proposição de lei para permitir que os militares atuem em ações de segurança interna no país, pedido que ganhou intensidade por conta de violências e mortes ligadas ao narcotráfico na cidade de Rosário. Tais ações lembram o que no Brasil conhecemos como operações de Garantia da Lei e da Ordem – GLO, e que aqui estão proibidas de serem feitas pelas forças armadas. A imprensa noticiou que os militares só aceitariam a participação em operações deste tipo se isso viesse acompanhado de uma reparação do passado. Várias lideranças de direita afirmam que os militares foram demonizados, e não reconhecem o terrorismo de estado praticado, menos ainda o golpe e o regime de ditadura, preferindo falar que foi uma situação de guerra, e que eles estavam defendendo a pátria. A questão da atuação ou não das forças armadas no combate ao narcotráfico no país dominou o noticiário da semana, com opiniões tanto de militares – contra e a favor – quanto de representantes de outros setores da sociedade.

A semana foi também marcada pela ação de grupos de direita que dão corpo aos discursos de ódio, e atacam pessoas. Uma das integrantes do grupo H.I.J.O.S. que busca explicações sobre os desaparecidos teve sua residência invadida e foi agredida. Levaram de sua casa documentação acerca da busca dos desaparecidos, não roubaram nada mais, e deixaram como mensagem a afirmação “não viemos te roubar, viemos para te matar, fomos pagos para isso”, bem como pintaram na parede a sigla VLLC, que indica o partido do presidente, A Liberdade Avança. O assunto repercutiu de muitos modos na mídia. O governo, em conferência de imprensa, declarou sobre o caso que espera que a justiça avance, um trocadilho em torno do nome do próprio partido do presidente.

Tanto o presidente, Javier Milei, quanto sua vice, Victoria Villarruel, deram declarações sobre o dia da memória, verdade e justiça, em mais de uma oportunidade durante a semana. As declarações coincidiram em negar os crimes de terrorismo de estado cometidos pela ditadura. E insistiram em uma teoria que aqui se conhece como dos dois demônios, a insistir que foi uma guerra entre duas forças, a do exército e a dos grupos armados por eles denominados como terroristas. E colocaram em dúvida a cifra de 30 mil desaparecidos. Especulações de todo tipo povoaram a imprensa, envolvendo tanto a possibilidade de a presidência da república conceder um indulto para beneficiar militares condenados, quanto a possibilidade de conceder prisão domiciliar àqueles que já alcançaram 70 anos de idade. Na contramão, Estela Barnes de Carlotto, a presidenta das avós da Praça de Mayo, declarou que teve seu telefone fixo grampeado, e convocou a população para a já tradicional marcha e manifestação do 24 de março.

No sábado dia 23 retornei ao bairro onde havia estado na segunda pela manhã, desta vez para acompanhar uma manifestação do coletivo de moradores, em torno do tema da memória. Reunidos na praça já citada, onde estão as árvores e as placas com indicação dos vizinhos desaparecidos, participei de uma manifestação com cerca de sessenta pessoas. O horário de início de noite e a enorme lua cheia foram o pano de fundo para um momento muito comovedor, onde vizinhos e vizinhas tomaram a palavra, e narraram, de modo breve, suas lembranças do tempo da ditadura. Havia crianças, velhos e jovens, formando um grande círculo. Depois fizemos um percurso pela praça. Ao final, com velas nas mãos, já escurecido completamente, houve um momento de dança circular, e foram citados os nomes dos vizinhos e vizinhas desaparecidos, cujas fotos e nomes estavam pendurados nas árvores da praça, com a afirmação PRESENTE dita coletivamente após cada nome.

Foto: Fernando Seffner

O convite para esta atividade, que circulou nas redes, de modo um tanto similar ao que foi feito em outros pontos da cidade, chamava para uma assembleia aberta, intitulada MEMÓRIA SIM. A convocatória falava em um momento de encontro, para repartir lembranças, em exercício coletivo da memória. Assim como em bairros, praças, escolas e associações, se usou nos convites a expressão “vestir” o local com fotos, textos, narrativas e “pañuelos”, o símbolo do movimento. Também se falou da importância de recordar como era a vida sob a ditadura, para evitar que se venha a viver sob nova ditadura. Novamente percebi, e senti na pele, a enorme importância de citar os nomes dos desaparecidos, e em seguida afirmar PRESENTE. Há uma força evocativa neste processo, que me tocou com muita emoção. Ao final da dança circular, e da manifestação na praça, todo mundo foi convidado a estar, no dia seguinte, domingo, na grande concentração na Plaza de Mayo. O relato da marcha e da manifestação compõe o terceiro e último artigo desta série, a ser publicado logo adiante.


Fernando Seffner é professor da Faculdade de Educação da UFRGS.

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