Ensaio

Nelson da gênese ao início

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Nelson da gênese ao início Nelson Coelho de Castro em 1985 (Foto: Luiz Antonio Catafesto)

Foi lá por 1983 que a gente começou a ter um exacerbado orgulho de viver no mesmo tempo e espaço do Nelson. “Todo mundo” pensava isso. Todo mundo que eu conhecia, claro.

Nelson Carlos Coelho de Castro tinha então 29 anos. Nascera em Porto Alegre, dia 17 de abril de 1954, e estreara oficialmente aos 21, em 1975. 

Um músico porto-alegrense que estreou em 1975 não é difícil deduzir onde. Claro: nas Rodas de Som de Carlinhos Hartlieb no Teatro de Arena. Só que, antes disso, ele já tinha ido até no programa da Hebe Camargo. Tudo bem, como integrante do coral infantil Canarinhos do Colégio São João, mas tinha. 

O coro gravara dois discos e fizera apresentações em Buenos Aires, Rio e São Paulo, tudo ainda na década de 60, antes dele se mudar pra Curitiba e só retornaria a sua cidade natal em 1971.

O próprio Nelson conta, no livro Continental, a Rádio Rebelde de Roberto Marinho, de Lucio Haeser:

Em 1971, aos 17 anos, eu era cabaço em Porto Alegre. Retornava depois de três anos em Curitiba. (…) Um porto-alegrense da gema voltava para seu pátio e não reconhecia mais alguns campinhos e atalhos e becos. Foi um tempo de reconquista e era estranho ver meus amigos de infância com barba e bigode e costeleta.

Já tocava um pouco de violão e compunha algumas coisas quando foi parar no conservatório Palestrina. Ali, estudaria violão com o mestre Ivaldo Roque, um craque do samba e da MPB, parceiro de Jerônimo Jardim no precursor grupo Pentagrama. E ali forjaria sua persona musical.

No tempo das Rodas de Som estudava jornalismo na PUC-RS. E ali, com o grupo Olho da Rua (superamador, segundo o próprio) participou dos festivais Musipuc de 1976 e 77, território então dominado pelo Fernando Ribeiro, que ganhava sempre. E seria outra figura importante na formação do rapaz.

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Pra completar o circuito desses meados de anos 70 em Porto Alegre, além das Rodas de Som e dos Musipuc, também fez bonito em uma das duas noites do último concerto Vivendo a Vida de Lee, em dezembro de 1976.

Da sua participação no fundamental festival organizado pelo radialista Julio Fürst, e que teve muitas edições sempre com sucesso, há um testemunho de época. Está no jornal manuscrito de exemplar único (!!!) O Portão, feito pelo então adolescente Breno Serafini:

Nelson entrou da forma habitual, abraçando o violão (com os braços cruzados sobre ele segurando contra o corpo – a primeira vez que se apresentou em público, no Musipuc, cantando Versos de Proa e Maneca e Rosa, deixou bem saliente para todos seu modo de entrar no palco). Sua apresentação foi muito satírica quando cantaram Maneca e Rosa e Magricela, mas também teve seu lado profundo quando contaram Versos de Proa.

Em 1977 conclui o curso de jornalismo e vai trabalhar como produtor da apresentadora Tânia Carvalho na TV Difusora. No mesmo ano, o Musipuc resolve criar uma categoria especial só pra poder premiá-lo: a de Canção Mais Original. Afinal, ninguém sabia o que fazer com aquele esquisitíssimo samba chamado Futebol – que o próprio Nelson só lançaria em disco 25 anos depois:

Uma vez fui convidado pra jogar um futebol. 

Mas eu diblava muito (eu diblava), eu diblava muito. 

Nunca mais fui convidado pra jogar um futebol

Uma vez fui convidado pra jogar uma bolinha de gude, uma bolinha nas calçadas da rua Portugal. 

Mas os caras me diziam que eu dava muito facão – e eu dava mesmo muito facão: Olha o facão!!!

Tinha 23 anos e um estilo já inconfundível. 

Rodas de Som, Musipuc, Vivendo a Vida de Lee, só faltava…

…tocar na Continental do mesmo Julio Fürst.

Pois logo depois de ser premiado com Futebol, ele é chamado pra gravar no estúdio da rádio essa canção e outra chamada Magricela. Ambas entram imediatamente na programação da emissora, junto com todos os músicos bacanas da cidade, que rodavam na rádio que todo mundo ouvia.

Claro que todo mundo não incluía a vó nem o tio de ninguém.

E aí o show de estreia, nesse mesmo 1977. 

O espetáculo se chamava …E o Crocodilo Chorou, e teve a mão de duas figuras essenciais na carreira de seu herói Fernando Ribeiro. A produtora Dedé Ribeiro, mulher e eventual letrista de Fernando. E o diretor teatral Luciano Alabarse. Na verdade, os dois praticamente convenceram Nelson a fazer o show. Na marra.

Minha história na cena musical na época era nenhuma. Rodava na Rádio Continental e daí – por um convite do Luciano via Dedé montamos o show. (…) Uma jornada louca de sete semanas em cartaz no Teatro de Arena. (…) Era uma espiral infinita de música, um roteiro imenso. Fizemos um filme em super-8 de vinte minutos, e tudo durava umas três horas. Tomávamos muita cachaça e tal… Aí que a cobra começou a fumar.

No ano seguinte, novo show, com o título auto-explicativo de… Milagrezinho. E Bebeto Alves no posto de guitar hero da banda.

Nelson e Bebeto seriam dois dos destaques do fundador LP Paralelo 30, lançado naquele 1978 pela iniciante gravadora local ISAEC. São dele duas das canções mais originais do disco. As épicas Rasa Calamidade e Águias: 

Tenho neste peito águias de coleira, 

Gang de porrada 

Quando abre um talho 

No coração… 

Rasa Calamidade falava da Vila Cruzeiro do Sul, que fica atrás do Morro de Santa Teresa, onde estão as emissoras de TV de Porto Alegre: eu morava no Cristal e daí, para trabalhar na Difusora, eu pegava o ônibus T-3, que faz o seu itinerário passando por dentro da Cruzeiro).

Num ritmo indefinido e indefinível, de compassos imensuráveis, a canção soa cercada de ruídos de latas que parecem tiros, e gravações de guitarras tocadas de trás pra frente. Em cima disso, Nelson rosna versos quase punks, que deixavam muito longe a idealização carioca da vida do morro e prenunciavam a crua visão da realidade que seria aceita só a partir dos anos de 1990, no rap. A poética tão peculiar de Nelson apontava para as vidas que eram vividas longe do olhar classe média dos compositores da sua Porto Alegre: 

A minha rasa calamidade fica lá detrás da ronda que banca. 

E fica lá patrás da ponta do teu olhar. 

Garanto que ninguém vai lá.

Garanto que ninguém vai lá me ver… lá atrás do Morro de Santa Teresa.

E quando chove muito, chove barro.

.

E eu nado nada não, eu não faço nada não – eu faço muito por viver, eu faço muito por te ver: 

Tonta Maria, da tonta Maria.

.

Ó jubilosa calamidade!

.

E quando arde a veia, o peito, é bonito ter o jeito de ser o raso da calamidade.

Garanto que ninguém vai lá. 

Garanto que ninguém vai lá me ver… lá trás do Morro de Santa Teresa (tonta Maria, da tonta Teresa)….

.

…E leva o nome bonito de uma constelação: Vila Cruzeiro do Sul. Lá ninguém mete a mão!

.

Eu não nado nada não…

Eu não faço nada não…

A gente poderia falar longas páginas sobre o Paralelo 30, mas fica pra outra hora.

No ano seguinte, 1979, ele finalmente estreia solo em disco. Tarefa nada fácil naqueles anos, o primeiro lançamento é um compacto simples, com duas músicas. Lançado pela mesma ISAEC do Paralelo 30, o disquinho tinha no Lado B a latino-americana Hei de Ver – parceria com mais um membro da turma de Fernando, o letrista Arnaldo Sisson.  

Mas o que impactou foi seu Lado A. Nele está Faz a Cabeça, o primeiro sucesso de Nelson, não por acaso um samba. 

Curiosidade total um rapaz de Porto Alegre, de 25 anos, poder ser chamado de… sambista. Desde Túlio Piva e Lupicínio Rodrigues isso não acontecia.

Os Almôndegas Kledir Ramil (então com 28 anos) e Pery Souza (26), Fernando Ribeiro (30), Raul Ellwanger (32), ou a dupla Jerônimo Jardim (35) e Ivaldo Roque (40) fizeram sambas antes dele. Só que dentro de uma sonoridade bem inspirada na MPB da década daquele momento. Nelson era diferente. 

O samba naquele disquinho era muito mais de raiz, de botequim (explicitado na gravação pelo coro de ´pastoras´ e a percussão feita em copos, garrafas, bandejas e caixinhas de fósforo). Mais pra Paulinho da Viola do que pra Chico Buarque. E isso era muito novo, justamente porque ignorava o samba sofisticado dos compositores de classe média da década de 1970 para se conectar com o samba de morro e botequins de 20 anos antes. O único paralelo possível então seria a dupla João Bosco e Aldir Blanc.

E como no caso deles, o choque entre o tradicional e o novo vinha na letra. Faz a Cabeça era uma ode à volta de Leonel Brizola, então retornando do exílio, no início do processo de Abertura Democrática. E aí a gente pode pegar, sobre o mesmo tema, a mais célebre canção sobre a volta dos exilados: a barroca (e maravilhosa) O Bêbado e a Equilibrista, de… João Bosco e Aldir Blanc. 

Nada mais distante de Faz a Cabeça

Enquanto uma é toda lirismo, Nelson é cru, e com uma linguagem nada “sambística”. Pra complicar, o conteúdo do que ele canta não tem um pingo de romantismo com relação aos exilados que voltam.

O resultado é de um estranhamento ímpar, onde já se começa com os dois pés atrás com a euforia do momento (e a música, eufórica, joga com isso). 

Momento em que tudo o que se precisava era saber era que se tinha razão, e que a partir dali o Brasil ia melhorar. Não era o que Nelson achava:

Faz, faz a cabeça, faz com cachaça, faz a razão. 

Mas toma cuidado com a folia da situação.

Faz, faz a cabeça com qualquer coisa – o coração…  

Mas toma cuidado com a folia da situação.

E aí, quando a gente pensa que ele vai cair no consenso, jogando pra torcida, toma um tapão:

Se foi por causa de nós que este bandido fugiu, 

nóis sai dando atrás dele, faz ele voltar pro Brasil.

E aí a canção novamente se reverte, subvertendo a subversão dos que se foram – enquanto outros morriam por aqui, pelas mesmas causas. Pior: parece que a vinda dos anistiados, diz a canção, não vai mudar é nada. 

Nem para o bom, nem para o mal.

Afinal, quem nunca foi pelego não precisa de um mestre iluminado:

Estória que ele vai vim, vai tremer com os boneco daqui… 

Nós não somo pelego e nem cheremo a jasmim! 

(Vê só o fedor se diz que faz…)

De qualquer forma, se for para o bem de todos…

Não, não custa mentir, dizer que vai tudo feliz. 

Nós tem vergonha na cara, nós beija na cicatriz!

E aí, ai do Brizola se sua volta tiver significado uma dobrada de espinha:

Não, não vai ter lero se o cara vim pro come e dorme! 

Se vim prometer ração nóis vai dar ferrão, vai fazer cumprir!

Bã.

Naquele momento em que se acreditava que uma dor assim pungente não haveria de ser inutilmente, Faz a Cabeça é, em bom gauchês, um pataço (pataço mais forte ainda quando se percebe que, apesar de termos feito tudo o que fizemos, taí o resultado…)

Só pra aliviar, o time que se reúne à volta da fictícia mesa de boteco na gravação dá bem a ideia da turma daquela virada de década. Entre outros, os já citados Jerônimo Jardim, Fernando Ribeiro e Bebeto Alves, mais a cantora Loma, o baixista Tenison Ramos, o percussionista De Santana, o baterista Bebeto Mohr (tocando garrafa) e o violonista Toneco. Na maioria, figurinhas carimbadas dos shows de Fernando ou do já finado Grupo Pentagrama.

Dando-se conta ou não do conteúdo subreptício do samba de Nelson, muita gente o cantou. E ficou curioso com aquele sujeito.

Foi então que o carinha resolveu reunir a turma e peitar uma aventura inédita no Estado – e que começava a engatinhar no País.

O disco independente.

Mas aí já é outra história.


Arthur de Faria nasceu no ano que não terminou, é compositor de profissão (15 discos, meia centena de trilhas) e doutorando em literatura brasileira na UFRGS por puro amor desinteressado. Publicou Elis, uma biografia musical (Arquipélago, 2015).

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