Ensaio

“Os alemães estão chegando…”, de novo? Pequena história transnacional sobre a gestão das megaenchentes

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“Os alemães estão chegando…”, de novo? Pequena história transnacional sobre a gestão das megaenchentes Garoto enfrenta cheias em São Leopoldo, década de 1960. Acervo: Arquivo Nacional do Brasil.

Por volta da terceira semana após as megaenchentes que atingiram o Rio Grande do Sul, anúncios de que o governo federal contrataria “um estudo alemão para evitar novas enxurradas” passaram a circular na mídia. A ideia com ares coloniais de que quaisquer modelos e soluções estrangeiras podem solucionar problemas estruturais da terra adorada, como se sabe, é bastante recorrente em momentos de crise e jaz tanto em conceitos tecnopolíticos como o de “subdesenvolvimento” quanto em jargões populares como “a melhor saída para o Brasil é o aeroporto”, com um pitstop no famoso complexo de vira-lata.

O depoimento que ouvi na véspera do Natal de 2015 de uma das principais figuras no campo do urbanismo e do planejamento metropolitano gaucho, Danilo Landó, não deixou escapar essas regularidades. Disse ele:

(…) nós somos muito criativos, país subdesenvolvido é assim, acabamos inventando coisas. Eu era tido pelo arquiteto criador e eles muito ‘quadradinho, certinho, computador’. A ideia que eles tinham era de vir para cá ensinar os brasileiros. Ajuda técnica para os botocudos, interior do Brasil!1

Quem seriam eles, referidos na fala polêmica do arquiteto-urbanista? Ora, os alemães não estão chegando, eles estão voltando, como contei nesse Podcast. É que na sinopse do Plano de Desenvolvimento Metropolitano, lançado em 1973, Landó já tinha escrito que o Plano era fruto de uma desafiadora e vitoriosa experiência de cooperação internacional. Sua declaração estava em harmonia com a capa da publicação, que estampava: “elaborado com ajuda técnica e financeira do Governo da República Federal da Alemanha”, mais conhecida em tempos de Guerra Fria como Alemanha Ocidental. 

Jornal Folha da Tarde, 22 de abril de 1971. 
Plano de Desenvolvimento Metropolitano, 1973. Acervo: Biblioteca da Faculdade de Arquitetura, UFRGS.

A história não pára por aí: o ano de 2024 marca o bicentenário da imigração alemã para o Brasil. Mas convidadas não esperadas estão a comprometer as comemorações: além do Brasil, a Alemanha passou a estampar reportagens devido às enxurradas que suas cidades e Dorfër vem enfrentando. As enchentes acontecem em um paralelo temporal e espacial ímpar, já que o Sul do país tem sido também a área mais afetada. Tudo isso no mesmo trágico mês de maio que marcará para sempre a história de Porto Alegre e sua região metropolitana, incluindo São Leopoldo, berço originário que recebeu aqueles que decidiram migrar rumo aos subtrópicos em idos do século XIX de terras que, mais tarde, passaram a integrar a Alemanha.

Coincidências não faltam, já que as próprias bases institucionais da Região Metropolitana foram lançadas para resolver a gestão das águas, com enfoque original no Vale do Rio dos Sinos.  O Vale contava com uma estrutura de planejamento urbano local focada em instituições como a Associação dos Municípios do Vale do Rio dos Sinos e o Centro de Documentação e Pesquisa da UNISINOS, importantes núcleos agregadores de dados sobre população, renda, trabalho e cooperativismo naquele polo regional. Um estudo dos arquitetos Paiva, Fayet, Veronese e Moojen Marques, datado de 1958, por exemplo, já reconhecia o Vale como uma zona de importante influência, destacando o continuum urbano direcionado pelas vias de acesso ferroviária e rodoviária, notável até a atualidade para quem percorre de carro a BR-116 ou faz uso do Trensurb. 

Às bases institucionais locais e regionais, foram acrescentadas expertises, modelos e recursos financeiros e humanos por parte da Alemanha. Diretamente do velho continente passou a atuar no Vale a empresa Agrar und Hydrotechnik, fundada  como  um  grupo  de  consultoria  voltado  à  elaboração  de  serviços  de engenharia.  O resultado foram quatro documentos lançados em edições bilíngues, entre 1969 e 1970. São eles: 1) Plano Diretor Hidrológico; 2) Plano de Proteção Contra as Cheias; 3) Estudo Socioeconômico: 4) Plano de Viabilidade Econômica. Além da  AHT,  existiu a Deutsche  Projekt  Union  GmbH, empresa  à  qual  é creditada a elaboração de uma série de obras no Vale do Rio dos Sinos, como as das casas de bomba e dos pôlderes. Da Alemanha também foi importado um plano de contenção das cheias baseado no Rio Neckar, um dos afluentes do Reno, que banha um dos principais cartões-postais  da Alemanha, Heidelberg. 

2. Plano de proteção contra cheias, Rio dos Sinos, 1969. Acervo: Biblioteca da AHT, Essen, Alemanha.

Tais planos não precisam só de uma atualização e manutenção, uma das alternativas que têm sido propagadas. Tais planos espelham, também, problemas de origem e de concepção, já que foram feitos no cerne da modernização autoritária brasileira e de uma geopolítica global peculiar, que visava a fortalecer o bloco capitalista em um mundo dividido. Em  carta  endereçada  ao  cônsul-geral  daquele país,  datada  de  1º  de  julho  de  1970,  o  então  governador  do  Rio  Grande  do  Sul,  Walter  Peracchi  Barcellos,  solicitava  apoio  financeiro  para  a construção dos diques, com base no projeto elaborado pelos alemães. A história, nesse caso, não se repete como farsa, mas certamente como tragédia, quando se lê, no documento de 1967, que as agendas do governo do Rio Grande do Sul, também naquela época, eram outras. 

[…]  o  grupo  de  peritos  alemães  da  Agrar  e  da  Hydro  GmbH  elaborou  que  o  projeto  para  o  desenvolvimento  global  da  Rio-dos-Vale dos Sinos o e chegou à conclusão de que um dique de proteção para evitar inundações de Canoas deve ser construído para Novo Hamburgo, em complemento do dique existente de Porto  Alegre  até  Canoas.  É  uma  construção  de  fundamental  importância econômica para as mais ricas áreas da indústria de nosso estado […]2 

Nada de novo sob o sol, diriam então alguns. O passado tinha um futuro, podem comentar outros. Será? Nem as guerras, nem as tecnologias, tampouco as enchentes são as mesmas das décadas passadas. Estamos a enfrentar variáveis novas e inéditas, embora discursos e os envolvidos em 2024 se assemelhem aos de décadas atrás. As mudanças climáticas, somadas à peculiar formação e distribuição socioespacial da RMPA ao longo desses mais de 50 anos de existência, adicionaram ao desafiador complexo hídrico do Jacuí (causa supostamente natural das cheias, de acordo com quem passa longe de periódicos científicos), condicionantes de peso para a ocorrência muticausal de desastres socioambientais extremos.

Um novo acordo internacional para a gestão das cheias, caso efetivado, ainda que envolvendo os mesmos atores e região de atuação, precisa espelhar a realidade, já não pautada oficialmente por desequilíbrios assumidos por termos como Terceiro-Mundo, embora, com mais frequência do que desejássemos, os fantasmas do passado voltem a nos assolar. Que as megaenchentes nos dêem uma chance de escapar das garras tanto do capitalismo de desastre quanto do sharp e do soft-power do Norte Global, cedendo lugar para espaços de discussão democráticos e com agendas que priorizem também as populações, tanto nos termos das cooperações técnicas quanto no que diz respeito à nova geografia social que será (re)contruída onde as águas ousaram, mais uma vez, chegar. 


Notas:
1 –  Entrevista com Danilo Landó. Duração 3h22 min. Local: Porto Alegre. Data: 23/12/2015.
2 – Nota-verbal. Ref. WI III B4 -87.50/38/71, de 1 de julho de 1971. Acervo do Arquivo Histórico do Itamaraty, Brasília.


Danielle Heberle Viegas é historiadora, professora e pesquisadora em história urbana e ambiental. Autora do livro Entre o(s) passado(s) e o(s) futuro(s) da cidade. Um ensaio de história urbana no brasil meridional (Canoas/RS, 1929-1959) (Paco et Litera, 2021) e co-editora da obra Região Metropolitana de Porto Alegre (1973-2023) – RMPA 50 Anos: História, Território e Gestão (Oikos, 2023). Pós-Doutora pelo Centro de História Global da Universidade de Munique (2022), Doutora (2016) e Mestra (2011) em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Ex-professora da Universidade Lasalle. Atualmente, pesquisadora do Max-Planck Institute of Geoanthropology (Jena, Alemanha) e coordenadora do projeto Resilient forest cities: utopia and development in the Brazilian Amazon.

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