Ensaio

Paulo Hecker Filho: um berro ousado e despertante

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Paulo Hecker Filho: um berro ousado e despertante Paulo Hecker Filho aos 27 anos. Do fascículo Autores Gaúchos (IEL), 1998.

Internato

Desde muito jovem, busquei respostas para a homossexualidade nos livros. Desde tão cedo, o nome do gaúcho Paulo Hecker Filho (1926-2005) surgiu, várias vezes, nessas investidas. Desde aquele tempo, me perguntava se era um escritor homossexual – fatalmente uma questão que é feita pelos gays, mais por esperança do que por desconfiança. 

Edilberto Coutinho (1938-1995) teve a mesma surpresa que a minha ao descobrir que o autor da “novela gay” Internato (1951), aparentemente, não era da turma. “Você é casado”, escreveu para Hecker, em 1956, depois de o saber por um conhecido em comum. Paraibano, Coutinho era jornalista, escritor, professor universitário e homossexual. Então residente em Recife, ligou o radar gay diante do ousado texto do gaúcho. Mesmo depois de descobrir que a máquina podia estar em mau funcionamento, insistiu no tema. 

Estava interessado em saber por que o escritor não tinha abordado a “situação em que se encontram os homossexuais no Brasil, de condenação do passivo e quase exaltação […] do ativo.” Coutinho afirmava saber, por amigos, que, na Europa, essa diferenciação não existia. No texto de Hecker, ele percebeu que Eli, o sujeito ativo durante o envolvimento sexual entre dois garotos de internato, tivera uma relação com Jorge, o passivo, mas não por falta de companhia feminina. Mas somente o passivo fora execrado por colegas, pelo educandário e pelo mundo, enquanto o machão fora quase ovacionado. Conforme a correspondência, Coutinho entendeu que tanto Eli quanto Jorge foram levados ao sexo pela mesma razão: afeto. E pediu a Hecker que lhe explicasse melhor sobre aquilo que, apostava, não pudera ser feito na novela.

Capa da primeira edição.

Internato realmente causou frisson. Mas Érico Veríssimo (1905-1975) desancou o livreto. E ele era o tal. Hecker, ainda em 1951, lhe respondeu por carta: […] não posso aceitar sua opinião sobre ‘Internato’, em que vejo uma pura racionalização do choque que o assunto lhe causou. Porque é impossível que diga tratar-se ‘duma redação escolar a que daria nota 6’… ou estarei tão cego assim?” Foi uma contraofensiva a Veríssimo, que identificara os tais “incríveis defeitos” no texto heckeriano. Ficou claro que o autor se sentiu machucado pelo desdém: “Se imaginasse como é duro para mim sabê-lo!” 

Formado em Direito pela UFRGS, professor e crítico literário, Wilson Alves Chagas (1921-2001), nascido em Jaguarão, também fez terra rasa de Internato, logo depois que veio a lume, por correspondência: “Para te falar a verdade, não gostei nada dela: dum tema tão rico quanto escabroso como a perversão sexual, creio que não tiraste nada de verdadeiramente significativo.” Disse mais, ter sentido quase “repugnância”, especialmente porque a novela não lhe parecia ter “força literária”. 

Não tenho cacife para julgar a técnica da narrativa. Vera Margot Mogilka (1931-2012), escritora pelotense, a única mulher que participou da Crucial (1951-1954), revista capitaneada por Hecker, autora de um dos primeiros contos abertamente lesbianos da literatura do RS (já escrevi uma série sobre ela para a Parêntese), me disse, por telefone, que o colega queria “causar”. Certamente causou. De toda a forma, não há como descartar totalmente a defesa dele. Estendendo o que replicou a Veríssimo para os demais “detratores”, é devido indagar: o tema pode ter incomodado a ponto de nublar as exegeses? Wilson Chagas, que também foi integrante da equipe da Crucial, por exemplo, havia comentado: “Não consigo me explicar que sorte de necessidade te levou a escrever sobre tal tema, ao que eu saiba, não és homossexual, não tens, portanto, experiência pessoal e direta no assunto. Com essa novela, escandalizarás o meio – intimamente, a meu ver, e isto é o mais grave; e dificilmente deixarão de ver nela a confissão de um caso pessoal […].” Além disso, ainda fazia a acusação de que Hecker publicava em demasia, recomendando-lhe paciência e humildade. 

Vida afora, Hecker seria conhecido como um crítico ácido, corrosivo, portanto odiado profundamente por muitos. Seus melhores textos são as críticas, a meu ver, embora tenha momentos intrigantes pelas temáticas de Internato e O digno do homem, que valem ouro pelo contexto e pela história – aqui me salvo, pois nada é desinteressante para a História. Há quem goste de sua verve poética – não posso opinar. Talvez a dureza das avaliações sobre seus primeiros trabalhos tenham se transferido para a crueza com a qual tratou alguns futuramente – mas isso é tema da psicologia. Nos dias atuais, sobre essa questão, é possível acompanhar debates em que surgem saudosistas de um dito período da “grande crítica”, quando não havia boicotes, cancelamentos ou acusações de quem exercia esse papel por, simplesmente, executarem seu ofício (vide, nesse sentido, o conflito entre Itamar Vieira Junior e quem fez análises de seu livro Salvar o fogo, publicação da Todavia).

Alguns pareceres saíram do ambiente privado e missivista. Foram para os jornais. Sérgio Milliet (1898-1966), em 10 de junho de 1951, no suplemento cultural de A Manhã, sentenciou tratar-se de um conto. Indagou-se se estava diante de algo naturalista, moralista ou existencialista. Acrescido, fosse o que fosse, de uma “indisfarçável vontade de chocar o leitor pela crueza dos pormenores”. Milliet asseverou que muitos problemas na narrativa deveriam ser atribuídos à juventude do criador. E que a mesma história, se fosse contada por Jean Genet (1910-1986), poderia levar os “segredos de uma psicologia e de uma fisiologia” a ter um melhor desfecho. Sem papas na língua, reprovou o fato de não ter encontrado, para além da objetividade, a condenação moral dos “desregramentos dos internatos”. Acusou Hecker desse silêncio, que poderia favorecer leitores mal intencionados, o que representaria um “perigo de certos temas tratados naturalisticamente”. Milliet, cabe recordar, foi a quem Mário de Andrade (1893-1945), em 1923, falou sobre sua reputação de pederasta – má escolha.

Menos pendente para um lado, o crítico João Gaspar Simões (1903-1987), também para o encarte de A Manhã, aventurou-se a relacionar o autor com a teoria existencialista de Sartre (1905-1980). Estava impactado: “[…] poucas vezes a literatura terá ido tão longe no caminho do realismo sexual.” Perguntava-se se haveria “um compromisso entre a sordidez sexual e o existencialismo”. Na pegada de Simões, parece-me existir uma ambiguidade no Hecker-existencialista e na interpretação que assumiu, não sei se até o fim da vida, de algo da natureza, portanto essencialista, na homossexualidade, que ele associava ao patológico. Não sou exatamente fã dos trabalhos acadêmicos que vêm apresentando ressalvas à interpretação de Hecker sobre sexualidade dissidente enquanto patologia, porque, em certo sentido, deixam de olhar para a complexidade analítica do autor, que leu muitos escritores homossexuais para se balizar. Mas deixarei de aportar mais sobre Internato, até sobre as defesas de si que compartilhou no livro A Alguma verdade (1952). Porque estão acessíveis pelo Google, nos artigos e em dissertações. Atenho-me às missivas, ainda inéditas enquanto fontes.

O digno do homem

Não é em Internato, sobre o qual há interessante texto na revista Parêntese LGBTQIAPN+, de março de 2023, que quero me centrar. Mas em outra novela de Hecker, muito pouco comentada, talvez por ter tido, na época, apenas 200 impressões: O digno do homem (1957). Essa, sim, deve ter deixado Milliet de cabelos em pé. O escritor Alexandre Eulálio, pseudônimo de Alexandre Magitot Pimenta da Cunha (1932-1988), nascido no Rio de Janeiro, associou-a com os textos de Pitigrilli, pseudônimo do italiano Dino Serge (1893-1975), que abusava do erotismo, autor que é considerado um falso rebelde, porque, no final das contas, seus livros, apesar da aparência, não teriam sido contra os valores burgueses. Nesse sentido, talvez caiba em Hecker, porque era um crítico dos costumes, mas não pode ser considerado alguém que, à esquerda, lutava por mudanças em relação à classe social. Eulálio disse que a leitura tinha lhe “causado gerais delícias”, o que não é tão incomum com esse tipo textual. Ele parece ter tido o prazer de ler o material antes de impresso, porque Hecker comentou sobre apontamentos que recebeu dele e sobre estar “um pouco amedrontado” em publicar o trabalho, isso em missiva de 1957, quando Eulálio era editor da Revista do Livro (Instituto Nacional do Livro). 

Esse receio deve ter sido amplamente compartilhado, porque mais interlocutores aconselharam Hecker para ir para cá ou para lá. Ferreira, que só se apresentou com sobrenome, afirmou, em 1957, que ele não deveria esperar “a mesma reação que eles tiveram por ocasião da saída de ‘Internato’.” Argumentou que o realismo de O digno do homem era “temperado por um humorismo saudável, uma graça leve e saltitante”. Uma carta recebida do Paraguai, assinada por Dionísio (será Dionísio Toledo, nascido, em 1930, em Porto Alegre, professor exilado do país em 1969?) também trouxe incentivos. O autor inferiu que o “impressionou fundamente a engenhosidade do diálogo” no novo livro do amigo.  

Nascido em Cachoeira do Sul, o advogado, escritor e jornalista Antônio Carlos Resende (1929-2015) apreciou o texto, acreditando-o apropriado aos “convencionais”: “[…] esses precisam lê-lo para saberem que ainda existe um azorrague irreverente na terra, pronto a acordá-los da modorra comprometedora.” Disse que haveria quem o chamaria de pornográfico e licencioso, mas que não passavam de pessoas “involuindo”. Discordou, de cara, do número pífio de impressões, insistindo que mais gente deveria ter acesso a algo que via como um “berro ousado e despertante”.

A carta de Resende, no entanto, foi-se indo para a dubiedade. Em meio aos elogios, contou que um conhecido havia acessado as primeiras páginas e que reagira gritando que ele “andava com livros de putaria”. Complicou-se mais ao dizer que, na hora de debater com o acusador, careceu de argumentação. Como assim? Não tinha assegurado ter compreendido o livro? Nessa toada, prosseguiu avisando que talvez fosse melhor que o amigo, apesar da “louvabilíssima posição de afronta”, escrevesse algo que os “técnicos” e o público desejassem. 

Mais fofoqueiro, amigo de vida, o poeta Francisco Bittencourt (1933-1997), homossexual assumido, nascido em Itaqui, integrante da equipe que publicou o jornal Lampião da Esquina, entre 1978 e 1981, relatou ter ouvido muitos burburinhos entre os críticos no Rio de Janeiro. Manoel Sarmento Barata estaria pronto para desancar o novo trabalho de Hecker no Estado de São Paulo. Esdras do Nascimento (1934-2015) também estaria com as garras afiadas para destroçar o livro. Em casa de Aníbal Machado (1894-1964), um grupo de intelectuais teria, ainda, falado mal do antecessor, Internato. Com dez unidades em mãos, Bittencourt anunciou que, se fosse por ele, não deixaria a nova obra chegar nas mãos desses sujeitos: “A Barata ficará doida de não conseguir roê-lo […]”.

Por outro lado, certo Nelson Coelho (será o escritor Nelson Ernesto Coelho?), escreveu, de Nova Iorque, em 1958, dizendo a Hecker que, “pela primeira vez suas libações deixaram de ser apenas isso para atingirem em cheio e de maneira surpreendente a literatura”. Coelho, assim como Coutinho e outros, no entanto, não se empolgou com o final, que lhe parecera decepcionante. Em 1959, o escritor potiguar José Sanderson Deodato Fernandes de Negreiros (1939-2017) voltou aos meandros da coisa, debatendo a questão do uso do sexo em trabalhos literários, definindo o escrito como “uma experiência aceitável (embora o nosso comodismo intelectual e mesmo espiritual se esforce para condená-lo)”.

Assim como aconteceu com Internato, alguns banzés, alfinetadas ou elogios chegaram à imprensa – na maioria das vezes despidos do sabor das intrigas entre missivistas. O ensaísta Pizarro Drummond (1925-2007), na revista Leitura, em 1958, elogiou a “notável força” de um texto no qual via “maturidade técnica”. No Jornal do Brasil, no mesmo ano, A.B. fez uma comparação com a obra do escandinavo Par Lagerkvist (1891-1974), vencedor do prêmio Nobel de Literatura, em 1951, especialmente com um conto em que uma empresa contratara um indivíduo para se jogar do campanário de uma igreja em troca de uma soma alta de dinheiro. O sujeito comum ficou famoso do dia para a noite, atraindo repórteres e multidões – tangenciando o sensacionalismo de nosso tempo, a ambição por um nome. Essa correlação, se possível, eleva Hecker ao centro do debate identitário-individualista e de (auto)sensacionalismo que grassa em tempos de redes sociais. A. B. foi um dos que fizeram coro no desgosto com o desfecho, alegando que o autor perdera a mão, do bem encaminhado fabuloso, para uma explicação esmorecida.

No meio disso tudo, a (eterna) dúvida. Edilberto Coutinho, em 1956, jogou para Hecker: “Não sei se você é homossexual. Tenho lido em várias passagens suas que a história de ‘Internato’ se passou com outros, e sei agora que você é casado – de resto isto tudo, isto nada prova.” Bittencourt também, no começo da amizade, chutava nesse sentido. Uma resposta de Hecker pode se encontrada em uma conversa com Antônio Carlos Villaça (1928-2005), escritor que ele via se assumindo homossexual no livro O anel (1972). Um título intrigante para uma suposta revelação, registre-se. Em 1973, o gaúcho lhe escreveu: “Não, nunca fui homossexual. Quando saiu o ‘Internato’, o ‘gay people’ pareceu fazer ponto de honra em seduzir o autor, era cantada a toda hora. Contornava com jeito a coisa, pois me fizera com o livro um advogado deles, ou assim pensavam me levando a pensar um pouco.” De qualquer maneira, não dá para culpar a galera. Como comprovam fotografias da época, era um pitéu. 

Paulo Hecker Filho. Do fascículo Autores Gaúchos (IEL), 1998.

Estávamos em O digno do homem? Novamente aparecem cenas homossexuais – mas tem muita heterossexualidade também. O livro começa com a insaciável Mônica, que quer sempre um pau maior – nesses termos. O que era diferente e arriscado, naquele tempo, agora, na era do “macetando”, parece banal. Justino, sujeito acima da “mediocridade” com seu pau gigantesco, foi a solução de Mônica – e de outros muitos.  Os gaúchos não curtiram a macetada. Parte dos duzentos exemplares deve ter encalhado. Lançado em 1957, nos anos de publicação do jornal Lampião da Esquina (1978-1980), constava na seção de livros à venda. 

Capa da primeira edição (1957). Edição do autor.

Hecker, diga-se, foi correspondente, do RS, para o impresso mais gay do país. Provavelmente pelo contato com Bittencourt, que, antes não foi mencionado, era parente de Caio Fernando Abreu (1948-1996). Hecker chegou a lhe ceder um apartamento, na capital gaúcha, quando estava na penúria financeira, mais para o final da vida. Isso interessa? Obviamente. Acompanhar as relações de Paulo Hecker Filho com os gays, na vida real, pode mudar os rumos de interpretações, quiçá apressadas, em pesquisas acadêmicas, especialmente quando restritas à produção textual.

Indagações que me surgem constantemente são: será que, atualmente, ele seria acusado de pinkwashing? De usurpar o lugar de fala? Em meados do século passado, os LGBTQIAPN+ procuravam, como agulha no palheiro, algo no que se vissem representados. Eram carentes de se verem – não importava muito sob qual perspectiva. Por isso, eu, desde muito cedo, ‘me encontrava” com Hecker nas bibliotecas. Em 2024, quase duas décadas após o óbito, pesquisadores voltam a fazer as perguntas sobre o tema e as escolhas do escritor. Um indiciário da longevidade da obra.

Para saber mais sobre o “diferentaço” O digno do homem, não precisa ter a sorte de topar com algum dos 199 volumes em algum sebo – um é meu. A coletânea Juventude (1998), pela editora Sulina, reuniu esse texto, Internato e outros. Com muitas modificações – mas tá valendo e é fácil de achar.


Fontes: Os jornais e os livros foram citadas ao longo do texto. As correspondências foram acessadas no Espaço de Documentação e Memória Cultural Delfos, na Pontifícia Universidade Católica (PUCRS).


Jandiro Adriano Koch, ou Jan, nasceu e vive em Estrela, RS. Graduou-se em História pela UNIVATES e fez especialização em Gênero e Sexualidade. Com cinco livros lançados, dedica-se a estudar e mostrar vivências LGBTQI+, especialmente em sua região, o Vale do Taquari. O gaúcho era gay? Mas bah! é seu último título, lançado em 2023.

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