Ensaio

“Pedro ama João” e uma provocação: Os gays e a Ditadura no RS – IV

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“Pedro ama João” e uma provocação: Os gays e a Ditadura no RS – IV Luísa Felpuda, em 1980

Nas três semanas passadas, apresentei, depois da varredura nos arquivos do Sistema do Arquivo Nacional (SIAN), de consideradas as memórias e as informações jornalísticas, um panorama sobre como era encarada, pelo Regime Militar, no RS, a homossexualidade no mundo das artes, a explosão do fenômeno travesti, os comunistas quando supostamente homossexuais, entre outros casos. Diante do arrolado, é necessário perguntar: A Ditadura, no RS, estava interessada, de forma sistemática, em perseguir os LGBTQIAPN+? As violências para com as travestis, o caso emblemático do expurgo do professor Gerd Bornheim, as reiteradas menções negativas à “pederastia” e ao “homossexualismo” mostram que, de fato, não havia aprovação, aceitação ou respeito à questão. Mas é preciso analisar mais profundamente. Vejamos:

Durante os anos do Regime Militar, a Coligay, a torcida gay do Grêmio, liderada por Volmar Santos, esquentou as arquibancadas entre 1977 e 1983. A boate Coliseu, onde a torcida se formou, era frequentadíssima. As casas noturnas de Dirnei Messias, mencionadas anteriormente, sempre lotadas. 

No dito “submundo”, lugares como o Picolino, defronte ao Pronto-Socorro, ofereciam garotos de programa aos engravatados. O rolê ocorria no segundo andar. Algo que merece um olhar mais detalhado é o famoso bordel de Luís Luzardo Correa (1923-1980), conhecido como Luísa Felpuda, na rua Barros Cassal. Era um dos estabelecimentos que aceitava encontros entre homens (gays). Existindo o lugar, havia demanda – e quanta!

Felpuda mantinha uma caderneta em que anotava o nome dos clientes e o dos garotos de programa, muitos menores de idade, a quem agenciava. Isso lhe deu um poder de cafetinagem, agiotagem e chantagem. Muitos dizem que vários imóveis que estavam em seu nome foram adquiridos por essas vias tortuosas e, ainda, há quem aposte que o assassinato – Felpuda foi assassinada e a casa-bordel incendiada em 30/04/1980 – não foi simplesmente cometido por Jairo, um dos garotos de programa da casa, porque, como disse a imprensa na época, o michê não teria sido remunerado pelo dono do estabelecimento por serviço prestado. Comenta-se que algum artista, jogador de futebol ou outro figurão que estava com o nome naquela caderneta, que nunca foi encontrada – provavelmente por isso o fogo – teria sido o mandante.

Folha da Tarde. 01/05/1980, capa. Luísa Felpuda à esquerda.

A casa de programas da Rubina também tinha renome e era mais frequentada por travestis. Ficava na Osvaldo Aranha, muito à vista dos carros e ônibus que por ali passavam, o que não era um bom ponto para muitos que queriam preservar suas identidades. 

No mundo político, um governador do RS, no período do Regime Militar, é conhecido por sua relação com os rapazes, famoso por paquerar os guardas do Palácio. Obviamente a espionagem do período era ciente. No mundo das artes, de 10/1980 a 03/1983, Tatata Pimentel (1938-2012), jornalista, professor de jornalismo da Pontifícia Universidade Católica (PUCRS) entre 1989 e 2000, homossexual público e notório, foi diretor do Museu de Artes do Rio Grande do Sul. Antes dele, outro homossexual, tão conhecido quanto, ocupou o mesmo cargo. 

O colunismo social estava repleto de brilho. Dyrson Cattani (1929-2006) era uma celebridade no mundo da moda. Conforme a pesquisa entre os estudantes acima citada, quase metade da população porto-alegrense não via problemas na sexualidade dita “desviante”. Os points eram muitos como apontado a partir de relação estampada no Jornal do Gay.

O apanhado é bom indiciário de que, apesar de uma visão negativa interna sobre esse público, poder constituído algum conseguia se livrar da purpurina – talvez o que responda a isso, em partes, é que não era uma intenção. Sem contar que muitos homens de vida alegre, alguns michês, eram policiais, soldados, até delegados. É oportuno voltar com Dirnei Messias, quando ele menciona que os gays, pensando num grande grupo LGBTQIAPN+, com exceção das travestis, não eram importunados: “Eles [representantes da Ditadura] eram muito preocupados com os comunistas, com os que eram contra o Regime.”. 

“Pedro ama João” e uma provocação 

Há muito mais a ser ouvido, a ser lido, a ser tirado dos acervos. Mas diante do reunido até agora, parece-me frágil sustentar uma perseguição sistemática e estatal. Pode-se dizer que, quando era do interesse do poder repressor, a homossexualidade e a travestilidade entravam como agravantes – especialmente para abalar o caráter de pessoas da esquerda. Mas esse é um modus operandi das antigas em disputas políticas. É cabível aventar que havia discricionaridade dos indivíduos ocupando lugares de poder para agir com violência, o que levou, certamente, a muitos abusos em relação às travestis. Diga-se que elas, conforme o atestam relatos, eram levadas para pernoites nas delegacias para a satisfação sexual dos policiais – que não viam a posição de sujeito “ativo”, durante o ato sexual, como algo comprometedor. Mas as travestis já eram presas muito antes desse período.

Minha aposta, portanto e por enquanto, é a de que a homossexualidade permaneceu, nesses anos, ao menos no RS, sem novas interpretações. Todas já estavam sacramentadas e eram usadas há muito – vide o livro O gaúcho era gay? Mas bah! (1737-1939). Misturadas e sobrepostas, vicejaram as noções de pecado, de ato contra a natureza, de doença, de desvio psicológico. As agressões de longa data se mantiveram. Não há uma peculiaridade ou idiossincrasia no Regime Militar – senão a possibilidade de abusar do poder sem medo de punição endógena, o que é comum ao autoritarismo. Entendo que se deve dar a César o que é de César: o foco dos militares era o comunista real ou imaginado.

Novidades foram os estabelecimentos de entretenimento específicos (mundo privado), a torcida gay (mundo público), os bordéis (mundo privado), entre outras coisas que transformaram Porto Alegre em um espaço de desbunde. Logo adiante, em 1982, a esquerda, que também era homo/transfóbica em muitos momentos, vinculando os gays à burguesia, pela atuação de figuras como o porto-alegrense José Carlos Dias de Oliveira (1959-1991), o Zezinho ou, como chamado pelos militares, Zé-Guerrilha, começou a levar a pauta gay para o universo político. Zezinho era bissexual e, em campanha para vereador, lançou um panfleto com os dizeres “Pedro ama João! Por que não?”

Zezinho. Panfleto de campanha. 1982. 

Assim desperta um necessário caminhar no sentido da desconstituição de imaginários negativos generalizados e históricos (e internos) sobre a população LGBTQIAPN+. As iniciativas são vanguardismo dos gays e, considerando o espectro político, das esquerdas brasileiras – embora tivessem fortes resistências internamente. Essa nova relação ganhará reforço à frente com grupos aguerridos como o Nuances, uma ONG das mais expressivas na demanda por direitos aos grupos ditos “minoritários”.

A nascente militância abraçada à esquerda vai incomodar um grupo de pessoas que estavam confortáveis. Ou por serem gays que não eram dessa vertente partidária ou por disfarçarem satisfatoriamente suas crenças político-filosóficas e/ou orientação sexual. Inclusive porque alguns desses indivíduos estavam em lugares de poder, relativamente bem dentro da possibilidade de incorporarem mais de uma personalidade – a pública ou a privada – dependendo de local e hora. Muitos se contentavam com os espaços escondidos para socialização e para o sexo – vendo na visibilidade, defendida pela nova militância, como algo exagerado, que traria muito ônus. Essa rixa fomentou, creio, uma maior separação entre os “discretos” e os (visíveis) afeminados/travestis e trans. 

O avanço, para os LGBTQIA+, a partir da junção com as esquerdas, trouxe ótimos resultados. Mas a explanação mais apropriada do passado recente, vista a nebulosidade das disputas, ainda está em aberto. A vida gay durante a Ditadura, no RS, e as tensões do momento de saída de um regime autoritário para a democracia ainda não foram suficientemente exploradas. Encerro aqui a série sobre o tema. A provocação fica e segue o baile. Contribuições são bem-vindas. E gracias pela leitura.


Fontes: Luísa Felpuda: TRAVESTI pode ser o assassino dos dois irmãos da casa gay. Folha da Tarde, Porto Alegre, 01/05/1980; Entrevista com Dirnei Messias em 11/12/2023; Zezinho: SCHMIDT, Benito Bisso. Zezinho, indisciplina em Porto Alegre. Disponível em: https://storymaps.arcgis.com/stories/3f8ed1dacc9a4fbc9ff0b84ed4f433a3 , Informe 22-151/83 SCI/SSP/RS.


Jandiro Adriano Koch, ou Jan, nasceu e vive em Estrela, RS. Graduou-se em História pela UNIVATES e fez especialização em Gênero e Sexualidade. Com cinco livros lançados, dedica-se a estudar e mostrar vivências LGBTQI+, especialmente em sua região, o Vale do Taquari. O gaúcho era gay? Mas bah! é seu último título, lançado em 2023.

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