Ensaio

Uma relíquia negro-gay – Djalma do Alegrete

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Uma relíquia negro-gay – Djalma do Alegrete Djalma do Alegrete. Foto: Acervo Dirney Alves Ribeiro

Não é de desconhecimento de muitos que há anos venho arrolando dados sobre a vida do artista plástico Djalma do Alegrete (1931-1994), o que me fez reunir um peculiar acervo, considerando materiais impressos, desenhos, obras de arte, entrevistas com parentes e conhecidos. 

Enquanto uma abordagem maior não sai, vou deixando algumas impressões quando há a oportunidade. Para o Jornal do Nuances, edição de junho de 2015, produzi um compilado de duas páginas com o que sabia, até então, concentrando-me na homossexualidade – ele foi um dos mais aguerridos defensores da possibilidade da felicidade entre pessoas do mesmo sexo, bem antes dos movimentos sociais aparecerem no Rio Grande do Sul, verdadeiramente ousado nesse âmbito. 

Esse texto foi para a internet, no blog da Rita Colaço, sendo recorde de acessos conforme a dona da página. Nada se encontrava, no mundo digital, sobre essa figura emblemática para a história das artes, do movimento negro, da homossexualidade e do carnaval – só para citar alguns campos por onde esse gaúcho atípico transitou e sobre os quais imprimiu seus passos. Logo meu apanhado serviu de ampla inspiração para o escritor Roberto Rossi Jung, com as devidas referências, para o livro Djalma do Alegrete (Errejota Livros, 2017).

Ainda em 2015, publiquei um pequeno ensaio no jornal A Hora, em Lajeado, intitulado Chimarreando com Djalma dos Santos. Na revista Parêntese LGBTQIAPN+, impressa em maio de 2023, mais um título: Salve, salve esse negro

Com exceção de Roberto Rossi Jung, tenho reparado que outros interessados acessaram essas redações, embora não as mencionem entre as fontes. Até erro meu já incorporaram em seus trabalhos. Insólito. Quais as razões? Relacionar o acervo de consulta faz perder o ineditismo tão perseguido no campo da pesquisa? Sem originalidade, sem recompensa? Ou apenas esqueceram? Chamada feita, este espaço será aproveitado para desenvolver uma perspectiva não explorada – com profundidade – nas matérias até então (por mim) elaboradas: as andanças e os bailados do artista/figurinista pelos carnavais. Não ficarão de fora as altercações. Heroicizar personagens históricos desumaniza. Djalma suava ambiguidades, andava por estradas tortuosas – e é isso que o torna tão humano e apetecível para uma biografia.

Me descasca toda!

Denunciando constantemente o racismo, os percalços em função da orientação sexual, o que lhe rendeu várias encrencas com a própria família, Djalma (também) era uma figura boêmia e exótica na Porto Alegre de meados do século XX. Muitas vezes, a excentricidade serviu como meio para atingir propósitos. Mas não era algo forçado, era um de seus modos de ser. 

Para o Correio do Povo, em dezembro de 1974, afirmou que, por volta de 1960, vivera dois anos bebendo e acordando pelas ruas. Durante as festividades de Momo, no entanto, levantava altivo. Em oposição a sua autorrepresentada melancolia, algo evidente em muitos dos autorretratos feitos ao longo da vida, era visto esfuziante, dançando e distribuindo sorrisos. 

Conforme a Folha da Tarde, em matéria de fevereiro de 1966, a habilidade com os desenhos carnavalescos era notória. É necessário recordar que, a essa altura, Djalma já havia sido consagrado por criar o traje típico para a apresentação da gaúcha Ieda Maria Vargas, no Miss Universo, em 1963. Ao voltar coroada, o nome do artífice, que inovara mesclando elementos da indumentária gaúcha, tanto masculinos quanto femininos, também foi catapultado nacionalmente. Entrei em contado com Ieda, que vive em Gramado, para ver se ainda guarda a vestimenta – infelizmente parece ter se perdido.

Depois desse destaque, somaram-se outros na capital gaúcha: o prêmio pelo trabalho na escola Trevo de Ouro, em 1966, com o enredo O Trevo de Ouro conta Zumbi; ter se sagrado campeão pelo bloco Coringas do Amor, da Sociedade Gondoleiros, pelo tema As máscaras. Foi laureado pelos desenhos para o Garotos da Orgia, com o mote As mil e uma noites infantis, para uma ala mirim. Foi com o traje A rainha dos corsários, criação para Joice Massina, que ela obteve o título de Rainha das Sociedades de Porto Alegre. Ele foi responsável pelas vestes das princesas do bairro Santana, que surgiram como Pierrete 66, conquistando o título de Princesas dos Bairros de Porto Alegre. Além de desenhar para blocos, para concursos e para as escolas, também decorava salões de festas, como fez para a Sociedade Gondoleiros, em 1966, usando como motivo a Pirataria.

Desenho para a ala mirim do bloco Os Coringas do Amor. Acervo de Dirney Alves Ribeiro

Cabe um aparte para Pedro dos Santos Cunha (1934-2014), um dos herdeiros da Trevo de Ouro, grupo que surgiu, em Porto Alegre, em 1946, no terreiro de sua mãe Paulina dos Santos. Figura das noites porto-alegrenses, tocava pandeiro e cantava Lupicínio Rodrigues (1914-1974). Apesar da semelhança com o nome de batismo do figurinista – Djalma Cunha dos Santos –, não eram parentes, ao contrário do que já vi publicizado.  Janice Cunha, filha de Pedro, argumenta que o sobrenome Cunha, de sua família, é originário do período da escravidão, quando seus ancestrais viviam como escravizados “dos Cunha” – isso pela região de Camaquã. 

Encontrei-a na Praça da Alfândega, em 2023, quando aproveitou para me contar um “causo”. Puxou das lembranças um momento em que, na finalização dos preparativos para o carnaval, sua mãe fazia os últimos ajustes nos cabelos. Djalma estava auxiliando no arranjo da cabeleira, quando apareceu um negro alto, muito bonito. Ele teria passado os olhos pelo corpo do recém-chegado e, imediatamente, demandado que tirasse as roupas. O homem teria ficado em cuecas. Djalma pintou seu corpo e, com adereços sumários, o negro monumental teria partido com os demais, dentro de um caminhão caçamba, para o espetáculo de rua. 

Djalma do Alegrete. Escola Trevo de Ouro. Revista do Globo, nº 918, março de 1966. 

Dias depois, por Whatsapp, ela me repassou que o belo em questão era Adão Alves de Oliveira (1925-2013), o Lelé, o primeiro rei momo negro de Porto Alegre. Não consegui confirmar, porque todas as tentativas de contato foram frustradas, mas há relatos de que Roberto da Silva, o Fiapo, mestre-sala famoso da capital sul rio-grandense, também contou com o dedo de Djalma no início da carreira. 

Naquele período, vários artistas homossexuais eram requisitados para traçar as linhas que norteavam as costureiras responsáveis por confeccionar as fantasias para blocos, escolas e tribos. Costumo estranhar ao não ver muitos desses nomes incorporados ao rol daqueles que têm suas obras guardadas em museus e correlatos, visto a destreza técnica, a beleza e o estudo de contexto necessário para a elaboração dos croquis. Os desenhos de Djalma estão espalhados em mãos de particulares. Nos acervos, além do traço firme, é possível ver as conformações mais afeminadas que conferia para muitos bonecos. Em alguns momentos, Djalma até chegou a ser acusado por levar muitos travestis para os desfiles – entre as amigas transformistas/travestis, cabe mencionar a famosa Maythê e Nega Lu (1950-2005) – com esta chegou a ter algumas rixas. 

Entre os gays gaúchos expoentes na elaboração de croquis, Dyrson Cattani (1929-2006), Juarez de Lima (1944-1997) e Pompílio de Freitas (1952-2003) foram contemporâneos do alegretense. Djalma e Juarez eram negros e populares. Cattani e Pompílio eram brancos, mais elitistas ou, pelo menos, mais entrosados com as elites gaúchas. 

Ala dos recepcionistas da embaixada. 1972/1973. Acervo de Dirney Alves Ribeiro

Mara Martins, Rainha do Carnaval das Sociedades de Porto Alegre, em 1970, e Rainha do Carnaval pelo bairro Santana, a quem visitei no IAPI, revirou as memórias, destacando uma travessura dos anos 1960/1970. Dado a aprontar depois de alguns copos, com certa inclinação para performances, essa mescla entre artista-experimental, que usava seu corpo sem pudor, com o álcool causava temor inclusive entre os conhecidos. O que ele poderia “aprontar”? Assim deve ter se sentido Vicente Lomando Rao (1908-1973), um rei momo lendário da capital gaúcha, também homossexual, quando o advertiu de que poderia participar do desfile carnavalesco – o ano é incerto – contanto que não viesse embriagado. 

Quem conheceu o figurinista sabe que ele não levava desaforo para casa. Quando andava pela rua da Praia, um dos espaços em que era mais assíduo – especialmente a galeria de arte Edelweiss, o café Rian e a Praça da Alfândega –, se alguém o provocava por suas roupas – costumava usar uma longa túnica, lembrando um griô – ou por suas apresentações, não deixava barato. O pedido de Rao, certamente, o desafiou. Conforme Mara, ele arquitetou um plano. Criativo, montou uma veste somente com cascas de amendoim e, no dia marcado, apareceu nu, coberto apenas com a fantasia, desfilando e provocando Rao ao mesmo tempo: “Me descasca toda!”

Folias cariocas

Por mais de uma vez, como artista e como pessoa, se viu impelido a deixar o solo sul-rio-grandense. Entre as alegações, a intolerância racial e os problemas, especialmente familiares, em relação à sexualidade. Eventualmente mencionou situações específicas como as tentativas, de pares do mundo artístico, de desencorajá-lo de fazer pinturas com representações negras – porque não haveria mercado para esse tipo de arte no estado em que nasceu. Saiu sempre em direção ao Rio de Janeiro, onde trabalhou, por anos, como professor de desenho no Serviço Nacional do Comércio (SENAC). 

Por lá, já morava o irmão Paulo Acioly Cunha dos Santos (1927-2000), na casa de quem viveu um bom tempo. Paulo tentou administrar a vida do irmão, mas Djalma era perdulário – a encarnação do carpe diem. Embora tenha recebido relativamente bem pela venda de óleos sobre tela, rapidamente o dinheiro esvaía. Além de exímio retratista, de pintor de quadros, de auxiliar nas comunidades carentes como Vila Kennedy, de se vincular ao movimento negro, ele continuou em plena atividade junto aos foliões. 

O Bloco Carnavalesco de Vila Kennedy, em 1970, prestou-lhe homenagens por suas contribuições. Essa agremiação, do quarto escalão, tinha dimensão pequena, contando com 300 integrantes. Foi sagrada campeã, em sua categoria, com as roupas assinadas por Djalma. Em 1971, ele ainda consta como figurinista desse bloco, que se formava na vila homônima, extremante pobre, onde residia há algum tempo. Em consonância com menções feitas por ele, partira para essa localidade após uma desilusão amorosa. Em outros informes, a nova residência parece relacionada ao rumoroso assassinato do poeta gaúcho Décio Escobar (1923-1969), quando Djalma, que frequentava seu apartamento, foi preso e identificado como possível parceiro sexual e suspeito pelo crime. Apesar de ter sido libertado e desassociado do fato em poucos dias, de terem encontrado os assassinos de Escobar, em função da espetacularização midiática, seu rosto e seus dados foram compartilhados nos jornais, a vida nos lugares em que costumava estar no Rio de Janeiro não era mais possível. 

Nem sempre a função carnavalesca foi bem sucedida. Em 1971, prometeu entregar os figurinos para o clube Vassourinhas. Algo deu errado e o grupo acabou desqualificado. O presidente José Ferreira da Silva atribuiu a culpa ao desenhista, que não conseguira cumprir o prazo estipulado. Há versões que comentam que o artista precisou se refugiar no Rio Grande do Sul em razão da fúria dos integrantes do coletivo. 

Figurino de Djalma com carimbo do órgão da Censura. Acervo de Dirney Alves Ribeiro

Sua ligação com Momo continuaria. Em carta para o amigo Dirney Alves Ribeiro, em 1985, anunciou a participação no desfile da Mangueira, no ano seguinte, porque elegeram como homenageado Dorival Caymmi (1914-2008), a quem muito admirava. Em 1987, conforme nota no Correio do Povo de abril de 1994, ele teria sido premiado por figurinos para a Portela, que teve como enredo Adelaide, a pomba da paz. Esse samba foi inspirado em um poema homônimo do poeta e crítico de arte gaúcho Walmir Ayala (1933-1991), que viveu a maior parte de sua vida entre o Rio de Janeiro e Saquarema, homossexual e amigo de Djalma, cuja carreira buscava impulsionar. 

No Rio Grande do Sul, ainda há registros de sua presença em escolas de samba de Santana do Livramento, para onde foi levado pelo amigo Dirney, na tribo Os Xavantes, na escola Embaixadores do Ritmo e no Bambas da Orgia. Em uma de suas últimas incursões, esteve na Unidos de Vila Izabel, em Viamão, que levou para o desfile, em 1989, um tributo ao escritor Machado de Assis (1839-1908). O tema era extenso: Balanço patrimonial do Brasil miscigenado no sesquicentenário do grande escritor mestiço Machado de Assis

Muito – e incomodamente – visível

Abordagens mais elaboradas são necessárias para compreender as relações entre o artista, a pessoa e a festividade. Cabe arriscar em terreno não tão firme. Em correspondência a Dirney, em 1981, criticou especificamente os negros de Porto Alegre. “Em relação à raça [negra], continuam a pensar em carnaval… Só carnaval… nada mais. E o interessante de tudo isso é que não se aprofundam em pesquisar temas históricos… não leem… não evoluem […]. Isso me entristece… pois eu adoro ver as coisas evoluírem, visto que o carnaval é uma lição de história da Arte… um espetáculo de cultura.” 

Ao mesmo tempo em que reconhecia o potencial do evento, destacava o descontentamento com a falta de robustez nas pesquisas, que deveriam servir como embasamento para as representações. A missiva revela certa acidez diante de colegas com o mesmo ofício. Um dos únicos a quem elogiava era Guaraci Feijó. Djalma, diga-se oportunamente, era um leitor tanto de obras literárias quanto de livros técnicos. Para o jornalista João Carlos Rodrigues, em 1989, afirmou estar estudando antropologia e teologia negra. Foi o primeiro negro a se formar no Instituto de Belas Artes da UFRGS e tinha orgulho do conhecimento adquirido – destacando a relevância da anatomia. 

Acervo de Dirney Alves Ribeiro

No final dos anos 1980, ele chegou a manifestar um posicionamento ainda mais severo. Em entrevistas, se mostrava descontente com a estratégia de parte do movimento negro do Sudeste, que reiterava o carnaval como a melhor alternativa para seus pares saírem da miséria. Em oposição, afirmava não passar de uma ilusão a ideia de que era uma oportunidade para pretos e pobres. 

O embate interno e as divergências com as lideranças negras podem revelar algo da experiência pessoal. Afinal de contas, foram anos dedicados para diversas agremiações, muitas delas premiadas, sem um resultado financeiro adequado. Naqueles tempos, o reconhecimento pecuniário estava longe de ser satisfatório. Muito diferente do que existe hoje, quando há aporte financeiro e verba certa destinada aos profissionais. Djalma estava ficando velho, adoentado, e sua situação econômica era complicada. Como sugestão para mitigar a pobreza, especialmente para dar esperança às novas gerações de pretos e pretas, estimulava a concentração de esforços na criação de centros para a capacitação técnica, que pudessem contribuir para formar advogados, médicos, para que eles alcançassem profissões até então “reservadas” para brancos – salvo exceções. Parece que Djalma tentava encontrar um eixo entre apostar na arte e, ao mesmo tempo, saber que ela não salva – ao menos não a boa parte dos artistas. 

Entre os caminhos percorridos, sendo o de figurinista carnavalesco apenas um, chegou a muitos lugares – alguns iluminados, outros sombrios. Controverso, intrépido, autoafirmado cético, narcisista e niilista, ao final, sua trajetória já tinha ares de lenda. Dizer, como muitos o fazem, que Djalma foi invisibilizado é negar-lhe a força e o protagonismo. Djalma era – incomodamente – muito visível. Suas manifestações contra os preconceitos estão à frente das de alguns escritores negros da leva da segunda metade do século XX e da maioria dos escritores homossexuais a quem se costuma dar mais relevo nos estudos históricos sobre esses dois quesitos. Ele não foi um defensor da arte pela arte – como outros foram e continuam sendo -, mas da arte como um meio para a educação. Ele foi dos únicos que ocupou espaços, em “grandes” jornais, dizendo o que queria dizer. 

Por sua dimensão artística, por seu trabalho social, recebeu títulos de cidadão emérito na cidade do Rio de Janeiro e em Porto Alegre. Pode ter falecido pobre, mas quando isso aconteceu, em 1994, o Jornal do Cecune compartilhou as palavras da amiga e escritora negra Maria Helena Vargas da Silveira (1940-2009), que o definiu como “um mito, um conto, exótica estampa pra se interpretar, relíquia negra […].”

PS: Caso utilizem informações desse ensaio, lembrem-se de o citar entre as fontes – no corpo textual, ou ao final. 


Jandiro Adriano Koch, ou Jan, nasceu e vive em Estrela, RS. Graduou-se em História pela UNIVATES e fez especialização em Gênero e Sexualidade. Com cinco livros lançados, dedica-se a estudar e mostrar vivências LGBTQI+, especialmente em sua região, o Vale do Taquari. O gaúcho era gay? Mas bah! é seu último título, lançado em 2023.

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