Ensaio

Verdade, testemunho e um pé de rapadura

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Verdade, testemunho e um pé de rapadura

Acreditava piámente na árvore de rapaduras, carregada rapadureira do vizinho velho. Era a altura do muro e não o ardil literário de meu pai, hoje sei, o fundamental para a crença. E foi época longa, essa, de muros protegendo o gosto doce-melado do inabalo das certezas não provadas. Talvez ainda perdure, talvez tenha de ser que eu me torne mais herético quanto menos ereto – que a definitiva clareza sobre a procedência das rapaduras só me toque quando eu já não possa delas ocupar-me; moles, postiços ou faltos os dentes e a fé.

Martín Fierro diz, na Vuelta: “no duden de cuanto digo, pues debe creerse al testigo si no pagan por mentir.”

Não sei se entendo bem essa frase. Deve estar entre os ditados hispânicos que entraram ao lado de coisas genuinamente crioulas ou gauchescas no deslumbrante compêndio de frases que constitui, entre tantas outras coisas, aquele clássico.

Penso nisso enquanto recebo mais uma “notícia” milagrosa sobre uma droga barata que cura a Covid e é boicotada pelos grandes interesses internacionais. Crer na testemunha. Será que payadores do século XIX espalhavam fake news?

Não sei que nome teriam seus equívocos ou invenções… ou mentiras, assim, diretamente. Não me parece que esses antigos trovadores, responsáveis por embriões de literatura e jornalismo, devam — ou devessem, em seu tempo — representar a fonte indubitável, infalível, por mais agradável que seja a impressão de encontrar alguma.

Sempre pensei, aliás, o mesmo sobre os fantasmas. Tia fulana sonhou que o falecido lhe dizia para procurar algo no bolso de seu casaco. Era exumar e… bingo!!!

Quem não ouviu essa história? E eu pensava: fantasma não se engana; não sacaneia? Não pode estar, sei lá, pressionado, como um delator premiado de além-túmulo?

O fato é que tendemos mais, é lógico, a sentir ou produzir esse conforto da crença pouco refletida quando a afirmação vem na visita de um representante de um universo de conhecimento no qual não transitamos (e no caso daquele tio, prefiro que permaneça assim). 

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Por onde teria sentido comparar payadores a fantasmas? Há algo de informante antropológico ou de intermediário cultural, nisso de trazer notícias de outros mundos. Sobre a morte, o povo dirá “ninguém nunca voltou para dizer como é”. Bueno, então, se alguém chega a voltar, é meio caminho andado para acreditar na história! A credencial do payador, por sua parte, é a de correr mundos e conectá-los, narrando. Errante, como uma alma com um recado. A pergunta, então, é se os errantes erram. 

Para quem compra ovo em supermercado e anda longe do mato, dá pra levar de barato que “nos ovos de galinha, o décimo é o maior” ou “nos pássaros cantores, só o macho é o que canta”, como dizem Fierro e o Moreno no magnífico contraponto. Podem ser duas descabeladas bobagens, mas não parece haver, em aceitá-las, um risco que comprometa o ganho: a paz das coisas estabelecidas. 

Talvez esse acordo se dê em grande parte da nossa relação — de urbanos contemporâneos — com a música ou a literatura que refere o rural, o tradicional, o passado. 

Meus cabelos ainda não baixaram de todo desde que li, há anos, notas de pé de página produzidas por um intelectual sobre determinada obra regional gaúcha. Era uma coleção de erros horríveis, que me fizeram pensar no sentimento ou raciocínio que os produzia. Algo como “não conheço essas coisas de campo, mas posso explicá-las a partir do ‘contexto’”. Mas homem do céu; o que não conheces é justamente o contexto! 

Não se trata, esclareço, de perder suco e graça de um texto por rigorismos de verbete. Lembro de um amigo músico que apresentou “Viola Quebrada”, dizendo que teria sido recopilada ou composta por Mário de Andrade. Ao final da execução, eu, um tanto arrogante, lhe disse “composta”. Além da forma de algumas passagens, que tem um tipo de sofisticação que não parece o folclórico (a sofisticação do folclore é abundante, mas é outra), há um momento da letra que dá a entender que se araria ou capinaria com uma foice. Quem capina ou ara não diria isso. Mais tarde eu mesmo pensaria que talvez no interior de São Paulo, sim, se pudesse dizer assim, em alguma época. Mas sigo com minha impressão sobre a autoria daquela beleza. O que quero recordar aqui é o diálogo que se seguiu. Meu amigo, corretíssimo, me disse “é uma música; não um documentário”.

Não tive presença de espírito e respondi por escrito, no outro dia, que ele jamais escreveria “recebi tua carta de amor no meu micro-ondas”. É absurdo. Compromete uma boa ideia, um bom poema? Depende. A gravidade das notas daquele acadêmico é outra: ele se arvorou a explicar significados de que não tinha nem palpite. 

Lembro Lima Duarte, emocionado, contando um causo a partir de um conto de Guimarães Rosa. Em dado momento, mencionava uma comida: uma jacuba. Uma jornalista o interrompeu, com ar embevecido: “Lima; o que é uma jacuba?” E para quê…! O grande ator trocou o registro emocionado e lírico com que vinha narrando por uma expressão de espanto irritado. “Sei lá! O que interessa o que é uma jacuba? Não quero saber o que é uma jacuba!” E retomou o conto. Não era um documentário. 

O que não dá — e talvez seja uma pena — é para deixar de ouvir determinadas resvaladas, mesmo sem cacoetes de revisor chato.

“Tu cantavas triste pelo caminho velhas melodias em guarani”. Lindo Recuerdos de Ypacaraí. Mas Zulema, em que idioma se cantam melodias? 

Numa tarde da adolescência, eu arriscava algo de poesia em espanhol, sentado ao sol na praça Garibaldi. “Voy silbando una coplita con tranquilidad de perro que viviese en esta plaza…” De fato, os cuscos atirados ao sol eram a imagem do relaxamento, o contrário da “vida de cachorro”. Só que não se assoviam coplas. Porque elas são estrofes, quadrinhas; elas são texto. 

Muito mais tarde conheceria o poema de Gujo, em que “aos poucos, ouvem-se coplas num assobio compassado” e sei que mesmo em língua espanhola (na qual a palavra copla é tão mais usada) ocorreu esse uso que remete à melodia. Não se trata de buscar erros ou definir como tais um ou outro incidente. 

Transformei em piada entre amigos do nativismo uruguaio e argentino a milonga que começa, em espanhol, dizendo “numa noite de verão clara como ovo de quero-quero…” Pucha, que aquele cinza esverdeado todo pintalgado do ovo do “tero”, de claro não tem nada! Parece recurso apenas para dar com a rima posterior, “overo” (e não; parece que overo não vem de ovo, ainda que, manchado por manchado… Não compliquemos.)

Anos depois da maledicente piada encontrar-se bastante disseminada, um amigo disse que um velho campeiro afirmou que a clara e a gema do ovo de quero-quero são notavelmente claras…. Mmmmmmmm….. sei, não. Também tenho vontade de confirmar a sabedoria popular; também conheço a tentação de forçar um pouco a barra para isso. 

Afinal, a angústia se justifica: em quem confiar, se os velhos campeiros erram ou falseiam sobre coisas velhas campeiras? No doutor das notas de rodapé é que não!

Há armadilhas reveladoras, interessantes, nesse processo de escuta e leitura montada na – talvez ingênua ou arbitrária – busca de verdades. 

Amigos da fronteira riam de Teixeirinha por seu tordilho negro: foi mal domado, ficou redomão. O uso mais disseminado da palavra, no estado, hoje — e talvez desde sempre naquela região —, indica o animal em processo de doma. Mas não apenas o prefixo revelador me fez achar que os amigos bajeenses, de resto conhecedores do mundo campeiro, estavam exagerando no rigor e desconsiderando algo importante.  

Eu guardava a lembrança familiar da menção ao cavalo que perdia a doma ou não a tinha completa, tornando-se necessário refazer esse processo: redomão, mesmo que não se ache que vale a pena encarar a tarefa. Quase sinônimo de aporreado, de uso disseminado. Fui atrás e confirmei esse uso antigo, com gente de outras regiões gaúchas. Teixeirinha era, então, testemunha na qual se deve crer. 

Também sou. Ninguém deve cogitar que minto, quando repito que na “Sanga do Pedro Lira” sempre tem cerração. Porque assim me disse seu Zé Rosa. “Não importa se é verão; tanto faz se o vento vira…” “Pode a lei virar mentira, pode o sim tornar-se não”… Pode inclusive uma catedrática vir-me dizer, como há alguns anos, logo após uma execução da minha canção em ambiente universitário, que a umidade relativa e a pressão atmosférica e sei lá o quê mais. Não muda nada. 

Eu como desde pequeno da árvore veraz da sabedoria popular e nunca achei que ela desse sombra a qualquer certeza. Quem quiser provar de seus frutos tem que saber a diferença entre o erro, a falsidade, a fantasia vã… e o sabor de uma rapadura recém-colhida do pé. 

Creiam no que digo; piámente. Não sou pago para mentir. 

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