Ensaio

Victoria Ocampo, a mecenas de Sur

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Victoria Ocampo, a mecenas de Sur

Esta é a segunda parte de um ensaio que teve seu primeiro capítulo publicado aqui.

A fundação da revista Sur, em 1931, e da editora de mesmo nome, em 1933, ainda são os grandes projetos assinados por Victoria Ocampo. Embora seja exagerado creditar somente a ela um projeto que sobreviveu após sua morte, em 1979 – a revista foi publicada, mesmo que de forma descontínua, de 1931 a 1992; a editora segue atuante, agora sob os desígnios da Fundación Sur –, é inegável que a revista dependeu de suas ideias, seus contatos e seu dinheiro mais do que dependeu dos demais colaboradores. Maria Teresa Gramuglio, depois de apresentar o grupo fundador de Sur, reconhece a centralidade de Victoria:

A revista manteve desde sua fundação um núcleo estável que persistiu ao longo de anos, cuidando-se para que ele estivesse presente em todos os números publicados. No primeiro número, a lista incluía um Conselho Estrangeiro, integrado pelo músico suíço Ernest Ansermet, o escritor francês Pierre Drieu La Rochelle, o italiano Leo Ferrero, o norteamericano Waldo Frank, o dominicano Pedro Henríquez Ureña, o mexicano Alfonso Reyes, o espanhol José Ortega y Gasset e o franco-uruguaio Jules Supervielle. Este era logo seguido de um Conselho de Redação, integrado por figuras locais: Jorge Luis Borges, Eduardo J. Bullrich, Oliverio Girondo, Alfredo González Garaño, Eduardo Mallea, María Rosa Oliver e Guillermo de Torre […]. Quais fatores fizeram que aparecessem reunidas pessoas provenientes de âmbitos tão diversos, com trajetórias culturais tão díspares, algumas das quais, como no caso do Conselho Estrangeiro, provavelmente nunca se haviam encontrado? Em primeiro lugar, é decisivo o fato de que esses colaboradores faziam parte da rede de relações pessoais de Victoria Ocampo.1         

Uma olhada no sumário da primeira edição da revista2, publicada no verão de 1931, dá a conhecer a participação dos fundadores como autores de textos de gêneros variados (cartas, artigos, relatos de viagem) sobre literatura, arquitetura, música, teatro, cinema, pintura demarcando a linha editorial ampla de Sur:

Texto, Carta

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Na primeira fase da revista, que costuma ser demarcada da fundação até 1945 – data-chave nos cenários nacional e internacional: ascensão do peronismo e fim da Segunda Guerra –, o grupo teve que lidar com a política local argentina, que inclui golpe de estado e o impacto do crack de 1929 na economia, e com o cenário europeu atravessado por franquismo na Espanha, fascismo na Itália, nazismo na Alemanha. Sur tentou encampar o discurso de revista apolítica que, por óbvio, não se sustenta. Sergio Miceli defende que “SUR insistia em se alhear da política doméstica, mas se viu intimada a romper o resguardo diante de impasses externos, recuo que reverberou e abriu frinchas na tentativa feita até então de apartar-se de contenciosos e de forças políticas nativas”3.    

Nesse ponto, a centralidade de Victoria se reafirma, e caberá a ela romper ou esgarçar laços com quem lhe era muito próximo. De Ortega y Gasset, que havia publicado a segunda edição de seu ensaio De Francesca a Beatrice, em 1928, na Revista de Occidente, se afastou em 1939 quando ele se aproximou de aliados do regime de Franco. De Drieu de la Rochelle, com quem Victoria teve envolvimento amoroso, se distanciou à medida que sua adesão à extrema-direita alemã foi ficando mais evidente. No quarto tomo de seus Testimonios (1950), Victoria relativiza o apoio de Drieu ao nazismo, talvez ainda sob impacto do suicídio do escritor, em 1945; mas em 1962, quando tem acesso ao seu diário pessoal, se espanta e escreve à irmã Angélica: “o diário de Drieu é horrível, não viu nada, só o que imaginava ou queria ver do nazismo”4.   

Victoria e Sur condenarão os totalitarismos europeus da primeira metade do século XX e farão vista grossa para o autoritarismo da oligarquia argentina que toma o poder nos anos 1930. Com o peronismo, muda essa postura de alienação da política nacional. O clássico número 237 de Sur, que saúda o golpe de 1955 como reconstrução nacional, dá uma mostra eloquente dessa virada:     

Texto

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É nesse número que Victoria publica La hora de la verdad, artigo em que narra sua prisão em 1953, durante o governo de Perón, e declara apoio aos militares que o depuseram em 1955.

Durante esses últimos anos de ditadura, não era necessário alojar-se no Buen Pastor ou na penitenciária para ter a sensação de vigilância contínua. Era sentida, repito, nas casas de família, na rua, em qualquer lugar e com características talvez mais sinistras por ser encobertas. […] não podíamos enviar uma carta pelo correio, por mais inocente que fosse, sem temer que fosse lida. Nem dizer uma palavra ao telefone sem suspeitar que a escutavam e talvez registravam. E nós, os escritores, não tínhamos o direito de expressar nosso pensamento íntimo, nem nos jornais, nem nas revistas, nem nos livros, nem nas conferências – que nos impediam de pronunciar – pois tudo era censura e zonas proibidas. E a polícia – ela sim tinha todos os direitos – podia dispor de nossos documentos e ler, se tivesse vontade, cartas escritas vinte anos antes do complô das bombas de 1953 na Plaza de Mayo; complô que me acusam de participar só porque sou “do contra”. […] O que acabamos de viver demonstrou a magnitude do perigo. Façamos votos para que não seja esquecido: aproveitemos uma lição tão cruel e que poderia ter sido ainda mais se o impulso de alguns homens que arriscaram suas vidas não tivesse intervindo de forma milagrosa. Não imaginemos que esses homens possam, por meio de novos milagres, resolver nossos problemas, infinitamente complexos, no lapso de tempo tão curto como o da interminável semana da revolução. Vamos ajudá-los com toda nossa boa vontade, com toda nossa preocupação de verdade e de probidade intelectual. Essa deve ser a forma e a prova de nosso imenso agradecimento.5     

É de embrulhar o estômago. Pelo menos pra quem não tem tanta certeza de que seja justo chamar o governo eleito de Perón de ditadura, embora a perseguição a intelectuais de elite opositores ao peronismo efetivamente tenha acontecido, e a prisão arbitrária de Victoria Ocampo talvez seja um dos exemplos mais extremados. Nesse texto, Victoria toma claramente partido quanto à política argentina e convoca demais intelectuais a fazerem o mesmo, postura que na primeira fase de Sur se reservava à política internacional. Como vimos no texto da semana passada, o apoio de Victoria não se restringiu às páginas de sua revista: ela integrou a diretoria do Fundo Nacional das Artes (FNA) de 1958 a 1973, exatamente o período que separa o segundo do terceiro mandato de Perón.

Na fase em que Victoria se dividiu entre o FNA e Sur, a revista entrou em declínio, explicado não só pelo novo cargo da grande mecenas. A virada à esquerda do campo intelectual latino-americano depois da revolução cubana também contribui nas restrições à pretensa posição liberal de Sur. Ainda assim, como lembra Maria Teresa Gramuglio, “a projeção latino-americana da revista manteve-se amplamente registrada nos testemunhos dos escritores do boom, como Guillermo Cabrera Infante, Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes e Mario Vargas Llosa, que recordavam a avidez com que esperavam a revista em seus países e o acesso à literatura contemporânea obtido graças às traduções de Sur. Em 1971, a revista Casa de las Américas, apesar da notória oposição de Victoria Ocampo à revolução cubana, reconhecia que seria injusto negar o que a América Latina devia ao periódico argentino”6.   

Nesse mesmo ano de 1971, sai outro número clássico de Sur, dedicado à mulher:

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A periodicidade bianual dá notícia do declínio de Sur, que chegou a ser mensal no período áureo de 1935 a 1951. Mas a temática feminista desse número reafirma a vitalidade de Victoria Ocampo, aos 81 anos de idade atualizando-se e debatendo um tema que lhe foi caro desde sempre.

A menção de Gramuglio aos autores do boom que esperavam avidamente pelas traduções de Sur dá a deixa para tratarmos brevemente da editora. Durante os anos 1930 a 1950, Buenos Aires foi “a meca editorial da América Latina”7. Esse período se consagrou como a “época de ouro da indústria editorial argentina”8. A editora Sur participa ativamente desse circuito, traduzindo para o espanhol pela primeira vez textos contemporâneos publicados principalmente em francês e inglês. Para ficar nos exemplos ótimos, Jorge Luis Borges tradutor de Virginia Woolf com Un cuarto propio, em 1936 [original de 1929], Orlando, em 1937 [original de 1928]; Jose Bianco tradutor de Samuel Beckett (Malone muere, em 1958 [original de 1951]); Victoria Ocampo tradutora de T.E. Lawrence (El troquel, em 1955 [original também de 1955]9. A atuação de Victoria como tradutora e da editora Sur como propulsora de traduções relevantes para a língua espanhola serão tratadas com detalhe em capítulo posterior desta série.

Notas:

1. GRAMUGLIO, Maria Teresa. Sur: uma minoria cosmopolita na periferia ocidental. Tradução de Fábio Cardoso Keinert. Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 19, n. 1, jun. 2007, p. 52.
2. Os números de Sur estão digitalizados e podem ser consultados no site da Biblioteca Nacional Argentina: https://catalogo.bn.gov.ar/F/?func=direct&doc_number=001218322&local_base=GENER.
3. MICELI, Sergio. Sonhos da periferia: inteligência argentina e mecenato privado. São Paulo: Todavia, 2018, p. 52-53.
4. BAUER, Irene Chikiar. Victoria Ocampo: testimonios de una ensayista personal. In: OCAMPO, Victoria. El ensayo personal. Introducción y selección de Irene Chikiar Bauer. Buenos Aires: Mardulce, 2021, p. 58.
5. Selecionei e traduzi trechos do texto de Victoria Ocampo; o original pode ser consultado no site da Biblioteca Nacional Argentina já informado anteriormente.
6. GRAMUGLIO, Maria Teresa. Sur: uma minoria cosmopolita na periferia ocidental. Tradução de Fábio Cardoso Keinert. Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 19, n. 1, jun. 2007, p. 61-62.
7. WILLSON, Patricia. Página impar: Textos sobre la traducción en Argentina: conceptos, historia, figuras. Buenos Aires: EThos Traductora, 2019, p. 92.
8. DE DIEGO, José Luis (dir.). Editores y políticas editoriales en Argentina (1880-2010). Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2014, p. 97.
9. Sobre os estilos tradutórios de Borges, Bianco e Ocampo ver WILLSON, Patricia. La Constelación del Sur: traductores y traducciones en la literatura argentina del siglo XX. Buenos Aires: Siglo XXI editores, 2017.


Karina de Castilhos Lucena é professora do Instituto de Letras da UFRGS.

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