Resenha

24!

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24!

Poesia, vocês sabem, é coisa muito rara. Mais fácil encontrar a coisa falsa que é sentir, pensar. A prosa consegue fazer arte com pensamento. Na poesia o buraco é mais embaixo. É mais radical a poesia e, assim, os protótipos da experiência e da linguagem com os quais conseguimos ficar razoavelmente bem por aqui por sessenta, setenta anos, não servem. Por isso não é incomum que uma leitora ou um leitor de poesia diga “nossa! existe esse mundo?” quando encontram poesia. Também não é incomum que as pessoas passem ao largo da poesia por suas vidas inteiras ou mesmo que a busquem nessas coisas falsas de pensar e de sentir, que estão lá, na estante da poesia, sem encontrá-la. Poesia é sempre assombro.

1¹ Antes ninguém amava e sobre o gelo pairava o silêncio. ² O mundo estava feito; perdeu-se a conta dos dias de descanso do Senhor. ³ As pessoas sobre a Terra acreditavam-se parte da outra, de par em par. ⁴ Acreditavam partilhar uma alma em dois corpos, e nunca se tocavam. ⁵ E por isso a Terra era chata. 

(“LIVRO DOS FLAMINGOS”)

Porque poesia é sempre assombro, veja, podemos perder os poetas que amamos para nós mesmos, ao nos desassombrarmos. (Alice Notley que me ensinou isso, em “O’Hara in the Nineties”). A sensação que tive ao ler Um útero é do tamanho de um punho, de Angélica Freitas, segue muito próxima daquela que tenho hoje, ao abrir o livro pra dar aula – salvo engano, a autora não foi uma das ganhadoras do Jabuti de 2013. Com boa parte dos poemas do Ronald Augusto, comigo, acontece o mesmo, o poema não adormece, não o domo, e volto a não domá-lo quando abro o livro anos depois – acho que Ronald nunca ganhou um Açorianos (você conhece aquela da Seleção de 82 e a Copa do Mundo? Quem perde é a Copa.) Sem tornar a coisa muito lamurienta, o lance é este: a poesia é uma forma meio ingrata com autoras/autores, com leitoras/leitores, com júris de premiações. Porque para ler é preciso aceitar o assombro. Se está docinho e gostosinho, é sagu, não é poesia.

: depois disso com as pontas dos meus dedos traço duas retas convergindo de teus joelhos para tua virilha sintética

e a pelúcia se eriça

e fixo teu torso entre minhas coxas para escorrer perfume sobre teu corpo inflamável de aromas vinílicos coaxas abafado por trás da enorme boca vermelha e rosa enquanto as profundezas de teus olhos plásticos [primeiro um depois o outro e depois novamente o primeiro] afagam meu pescoço para que eu ronrone dentro do abraço ígneo ao pé da roda gigante e espere por teus enormes globos brancos cortados por pequenos traços negros (…)

(“catálogo um”, (a))

Eu queria apresentar pra vocês a poesia do Hugo, mas olha como me enredei. Como apresentar o assombro? E não conheço vocês, então não tenho como saber se vocês aceitam esse impasse, sabe? Vocês gostam de ler um texto que recebe vocês de lado, como aquelas pessoas que não sabem abraçar? Ou vocês gostam de um abraço bem fofinho que diga, com a pele, com o moletom do casaco, “você não vai morrer, jujubinho, todas as coisas nesse mundo fazem muito sentido”? Ou melhor: mesmo que vocês vivam nos prolongamentos desses abraços, vocês topam dar uma volta fora dele de vez em quando? Vocês gostam de um livro que não se curve diante de vocês? Vocês gostam de poesia? Veja. Porque é radical na linguagem e na experiência, a poesia é das formas literárias mais autônomas, ela mesma é um outro. Se tem esse viés, essa trave, esse entrave, essa quina, ao mesmo tempo, vocês se lembram de como é maravilhoso encontrar outra pessoa? Outra pessoa, eu digo, não vocês em outras pessoas, tá bem?, sabidinhos, outra pessoa mesmo, ouvir, falar, conhecer, desconhecer. Quando foi a última vez que vocês encontraram outra pessoa?

[Continua...]

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