Resenha

A rua de cada um

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A rua de cada um Foto: reprodução

A rua é a representação do espaço mais democrático possível. Em teoria, qualquer pessoa pode circular por ela. Ela é também o retrato de um tipo de sociedade como a nossa, onde muitas pessoas precisam trabalhar por não ter a opção de um emprego formal: ambulantes, prostitutas, catadores de lixo, flanelinhas. É na rua que as pessoas fazem manifestações a favor ou contra governos. Porém, engana-se quem pensa que a rua não tem dono.

A leitura de A filha do Dilúvio, de Miguel da Costa Franco (Ed. Libretos, 2021), pode provocar esse tipo de reflexão. O livro é ambientado na Porto Alegre do início dos anos 2000, uma capital com os problemas sociais típicos deste país. Nele, somos apresentados a Rosa e Caçapava, dois moradores de rua que decidem juntos enfrentar “[a] batalha solidária pelo hoje […]” (p.15), que é a mais relevante, como afirma o narrador. Porém, quando Rosa, que já está grávida no momento em que aceita o abrigo de Caçapava, dá à luz uma menina, eles temem ser descobertos e sentem a necessidade de buscar abrigo. A ideia de batalha pelo hoje acaba ganhando uma nova perspectiva, evidenciada pelo impacto que o nascimento tem em Caçapava: “Doralice dava a ele uma estranha sensação de ter ainda algum futuro para adiante, não só um dia a dia pelo qual batalhar. Fazia o possível para que a bichinha vingasse” (p.42). 

A narrativa faz questão de pontuar as diversas preocupações que morar na rua traz, desde a instabilidade do tempo, passando por episódios como o dos “jovens de famílias influentes de Brasília” que “tinham posto fogo num cacique pataxó adormecido numa parada de ônibus” (p.59), até casos mais recentes de “jatos impiedosos de mangueira ou chutes de seguranças” (p.39). Miguel da Costa Franco faz questão de nos lembrar dessas tragédias sociais, talvez como uma forma de evitar que esqueçamos delas, para tirá-las sua invisibilidade, tão comum aos moradores de rua.

Por conta de todas essas adversidades e temendo pela bebê, eles acabam invadindo o terreno de uma casa que parece abandonada, mas que, na verdade, pertence a João e Sandra, um casal de classe média voltando de férias em Punta del Este.

Franco nos coloca no meio desse encontro tenso, através de diálogos escritos de forma majestosamente real e de conflitos internos a que temos acesso através do narrador. Este é, aliás, um ponto forte: o que está na rua está ao alcance dos olhos e ouvidos de todos, mas o que acontece no íntimo fica reservado a cada um e, ao termos acesso a esses pensamentos, somos jogados em dilemas morais angustiantes junto com as personagens.  

O romance de Miguel da Costa Franco nos apresenta diversas camadas, às quais vamos tendo acesso conforme as histórias pessoais das personagens vão sendo desveladas. Uma delas se refere à maternidade, contrapondo as duas personagens mulheres, cujas vidas são permeadas por fantasmas em relação ao tema. Doralice, a representação da vida nova, intocada e sem fantasmas, chega provocando nelas sentimentos desmedidos e maternos. A pequena bebê, na visão de Sandra, deveria ser cuidada por alguém como ela, a ponto de achar a criança “supreendentemente normal” (p.87). Sandra vai mais longe e, sem permissão, impõe um novo nome à recém-nascida, passando a chamá-la de Dorinha, o que a mãe da criança corrige a todo momento, sem sucesso. Essa tentativa de desvincular a bebê da mãe acaba por acentuar o conflito entre elas.

Outro tema que Franco aborda é o de se ter ou não escolhas, o que nos leva à tão debatida questão da meritocracia. Se alguém mora nas ruas, deve se contentar com qualquer coisa que lhe seja dado? Como a “calcinha de elástico langanho” (p.85) que Sandra oferece a Rosa quando o casal abriga a mãe e a filha dentro da casa por conta de um temporal, por exemplo? Diferente da solidariedade de Caçapava, que cedeu suas próprias meias para Rosa quando ela precisou, a solidariedade do casal tem um limite bem delineado. O narrador provoca dizendo “Como se, para aqueles visitantes intrusos, o não ter escolhas – algo provavelmente contumaz – pudesse ser dado, também neste caso, como um fato consumado” (p.85). Por mais que muitos afirmem que as pessoas que estão em situação de vulnerabilidade fizeram as escolhas erradas, o certo é que nunca lhes foi dado escolha alguma. 

A narrativa segue com o aumento gradativo da tensão habilmente construída pelo autor, em passagens como “Trataram de mastigar seus incômodos e desconfortos por um longo tempo […]” (p.93) ou “Decidiu que, custasse o que custasse, haveria de ser mãe” (p.150), uma decisão categórica de Sandra que vai ter consequências importantes no desdobramento da narrativa.

O livro não se esgota somente nessas temáticas, assim como os problemas sociais parecem ser infinitos neste país. O personagem João fica em maior evidência por ser o elo entre os “dois mundos”, o das ruas e o das casas. Os seus embates pessoais acabam sendo mais explorados também. É dele a ideia que acaba marcando bastante o texto: “todo sucesso pessoal deriva, de algum modo, do egoísmo” (p.33), um pensamento que acaba por permear diferentes momentos durante a história. 

A construção dessa personagem é muito interessante porque, apesar de todo o idealismo que ele transmite em suas elucubrações, ele é descrito como “um adulto a quem atribuíam escolhas equivocadas” (p.32) ou, ficamos sabendo através do julgamento de sua mulher, que “faltava-lhe alguma ambição […], e sobravam-lhe certezas, o que terminava por encerrá-lo numa paralisante mesmice.” (p.32). Pode-se dizer que João representa uma grande parcela da população, que tem consciência de todos os problemas sociais existentes no país, mas que, quando é colocada em uma posição de protagonismo, se acovarda por medo de perder aquilo que tem ou acha melhor fazer uma contribuição a uma instituição de caridade por pix, aliviando, assim, uma espécie de sentimento de culpa. João sente essa culpa, ela pesa sobre ele, até quando ele tenta se defender de algumas atitudes do passado. Será que ter consciência basta? E quando essas ações têm consequências muito mais profundas das que se possa imaginar? 

A filha do Dilúvio é um livro para refletir sobre moradia, sobre políticas públicas, sobre maternidade, sobre ter ou não escolhas e sobre tantos outros temas, mas não é um romance pesado. Pelo contrário, a leitura é bastante agradável até quando a trama fica tensa. Miguel da Costa Franco por certo nos brinda com uma obra literária belíssima.


Caroline Rodrigues é tradutora, revisora e escritora. E-mail: [email protected]

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