Resenha

Aos pedaços, mas presente

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Aos pedaços, mas presente Capa/Divulgação

A biografia do escritor João Gilberto Noll, João aos pedaços, de autoria do jornalista e editor Flávio Ilha, recém-lançada pela sua Diadorim Editora, faz aquilo que toda boa biografia literária deveria fazer: direcionar o leitor à obra do escritor em foco, aumentar o interesse pela leitura dos livros que ele publicou ao longo da vida, tentar situá-lo no âmbito mais amplo da literatura na qual se insere. Além dessa qualidade básica, o livro é bem pesquisado, bem redigido e se mostra bastante discreto e respeitoso em relação às pessoas entrevistadas durante a pesquisa – amigos, parentes, namoradas e namorados – e, principalmente, em relação à trajetória do escritor e a sua vida conturbada. Quem anda atrás de grandes fofocas ou revelações sairá decepcionado da leitura, mas não assim quem está primordialmente interessado em conhecer os atropelos e dificuldades da vida de um ficcionista no Brasil. Por mais que tenha sido reconhecido e premiado em vida – e não foram poucos os prêmios que Noll recebeu –, o retrato esboçado por Flávio Ilha é o de um sujeito atormentado, sempre às voltas com enormes dificuldades financeiras, fruto de sua recusa radical em se dedicar a qualquer outra coisa que não fosse sua literatura.

Autor de quase uma vintena de obras, Noll tem seu primeiro livro de contos, O cego e a dançarina, lançado pela Editora Civilização Brasileira em 1980, e por ele já recebe seu primeiro Prêmio Jabuti, na categoria de autor revelação. Depois, entre 1981 e 1996, viria uma série de sete romances, todos publicados por grandes editoras (Record, Nova Fronteira, L&PM, Rocco e Companhia das Letras), aos quais se seguiriam outros dez livros, inclusive alguns destinados ao público juvenil, publicados entre 1999 e 2012. Noll teve vários livros traduzidos para outras línguas, publicados em países como Itália, Argentina e Estados Unidos, o que, além de obviamente ter contribuído para a circulação de sua obra, serviu também para que o autor fosse convidado para uma série de palestras, cursos e residências literárias no exterior, amenizando em parte sua dificuldade de sobrevivência. Gostaria de chamar a atenção para o fato de que cinco de seus romances foram traduzidos e publicados na Argentina pela Adriana Hidalgo Editora, numa coleção dedicada à narrativa contemporânea em que Noll figura ao lado de escritores como Guimarães Rosa, Clarice Lispector, J.M.G. Le Clézio, Peter Handke, Leonardo Sciascia e Cesare Pavese, entre outros, o que nos diz algo sobre sua reputação e/ou recepção.

 Antes disso, porém, Noll esteve envolvido, ainda em fins da década de 1960, com a cena literária porto-alegrense, e um dos grandes trunfos do livro de Ilha é iluminar esse período, trazendo preciosas informações a respeito do movimento literário – precário, tímido, provinciano – da capital gaúcha. Fala dos áureos tempos do Caderno de Sábado do jornal Correio do Povo, da importância da Editora Movimento, fundada por Carlos Jorge Appel, e de alguns dos escritores seus contemporâneos, entre eles Moacyr Scliar e Caio Fernando Abreu, de quem Noll chegou a ser colega no curso de Letras da UFRGS.

Além das qualidades intrínsecas ao livro, João aos pedaços também se destaca pelo fato de ser uma das pouquíssimas biografias de escritores gaúchos disponíveis atualmente. Nem é preciso se esforçar muito para perceber o tamanho da lacuna nesse terreno: cadê uma biografia de Erico Verissimo, nosso maior escritor, sob qualquer ponto de vista? Cadê biografia de Josué Guimarães? Cadê biografia de Caio Fernando Abreu minimamente descolada da adoração – mais do que justificada e merecida – em relação ao biografado? De Oliveira Silveira? De Dyonélio Machado?

Enfim, que o livro recém-publicado também possa servir de estímulo a outros pesquisadores e escritores que se disponham a mergulhar na vida e na obra de tantos escritores gaúchos ainda à espera de uma boa biografia, para que se possa recompor uma paisagem, essa sim, despedaçada.

Livro: João aos pedaços – biografia de João Gilberto Noll

Autor: Flávio Ilha

Editora: Diadorim

Preço: R$ 60,00


Sérgio Karam, tradutor

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