Resenha

Vida Portátil

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Vida Portátil Capa de Vida Portátil, de Luciano Mello (Foto: Patrick Tedesco)

Ontem, dia 19 de novembro, Luciano Mello lançou Vida Portátil, seu quinto álbum, um disco pós-punk de canções compostas ao piano, líricas e críticas, com forte presença do eletrônico. 

Aqueles mais atentos à cena musical do estado o conhecem desde o começo deste século, como compositor, cantor e produtor, mas mesmo os mais desatentos acompanham sua vigorosa produção atual, com direito a duas canções, em parceria com Pedro Loureiro, nos discos mais recentes de Elza Soares (“Dentro de cada um”, em Deus é mulher (2018), e “Lírio rosa”, em Planeta Fome (2019)), um single com Marina Lima, “Pra ver o caos”, e um single com a Banda Cê, “Você só me estraga”, ambos de 2019, sem contar os prêmios em Portugal, ACTUM (Primeiro Lugar e Menção Honrosa) e o Edital DG Artes, por Vida Portátil, Experiência nº1 (2020), álbum e vídeo-performance em parceria com Patrick Tedesco.

Esse descompasso entre os feitos e a repercussão dos feitos talvez se dê porque o artista toma duas trilhas de difícil acesso na música brasileira, em geral, e na gaúcha, em particular. Desde os primeirs trabalhos, Luciano desenvolve sua voz pela investigação de timbres, cores, texturas, ambiências e tais da música eletrônica, assim como a linha que vem desenrolando nas últimas duas décadas prima pela elaboração conceitual dos trabalhos e pela transformação desses conceitos com o passar do tempo. Dessa forma, por um lado, sua música ressente-se dos nostálgicos ouvidos que descobrem as novidades somente nos trabalhos de medalhões da MPB, como também exige uma recepção que não trabalhe do play para o ouvido, que não receba, no atacado, os álbuns, singles, EPs e releituras (de Assis Valente, de Bebeto Alves, de Caetano Veloso e de muitos outros artistas), e que seja capaz de refletir sobre como um artista tem acumulado por todo esse tempo sua experiência em relação ao mundo e à linguagem com que trabalha.

No álbum lançado ontem, Vida Portátil, não é diferente. Poemas de Patrick Tedesco descerram e costuram uma série de canções que exploram a imersão das pessoas na tecnologia e a maneira como isso achata as experiências. Em vários sentidos, os poemas dão o tom do disco e da conversa, como a “epígrafe”: “Meu sonho de criança / Era ganhar uma luneta / Para poder ver a lua, / Bem de perto, / Bem de pertinho. // “Aquele menino disse que ganhou uma luneta de Natal. / Aquele menino disse que acompanhou a Apolo XI pela lente / até ela pousar na lua. / Ele disse que viu a máquina aterrissando / Parando / Ficando imóvel / Ele disse que viu / Direitinho / Neil Armstrong / O astronauta / Descendo / Observando / Pulando / Cravou a bandeira no chão e a boca mexeu / Só não ouviu a frase que o astronauta falou.”” 

Quanto às canções, “Gus Van Sant”, a primeira, e segundo single do álbum, pergunta insistentemente: “o que você vai ser quando crescer?”, pergunta comum quando dirigida a crianças, mas incômoda quando voltada a adultos. “Vazio”, segunda canção, e primeiro single, é uma canção perfeita, com rimas que se reverberam (como “prometi” e “quentes”), sobre solidão, desencontros e aeroportos (“tudo bem mais vazio que o frio”). “Num shopping” é a terceira e pauta a violência ultramoderna do consumo e a maneira como naturalizamos o estar submisso a ela. “Pausa portátil” muda um tanto o clima do disco e, por meio de um procedimento tropicalista, canta com alguma alegria o império dos objetos e a “pausa total” que se estabelece entre nós e o mundo. É a canção em que está a expressão que intitula o trabalho: “vida portátil”. A ela se segue uma releitura de “Fliperama”, de Gonzaguinha, ecoando e atualizando o espanto diante da tecnologia – Luciano é um verdadeiro garimpeiro da música, conhecedor de cor de uma infinidade de discos. “História que não contei” é uma pepita! Abre com o doce absurdo de “Não éramos carros de cruzar estradas a grandes velocidades” e expressa uma sabedoria zen sobre o amor e a vida. “Cidade do Aqui Não”, penúltima faixa, constrói um “aqui” sempre em oposição a outros lugares, com coisas boas e ruins, numa ironia crítica que atravessa todo o álbum. “Antenas”, por fim, é um poema do próprio Luciano Mello, entre certas canções figuram poemas de Patrick, e encerra o trabalho, “Estamos dentro do que não sabemos sentir / E tudo isso não é para privilegiados. / Estamos apenas / Mergulhados”. 

Sete canções (e quatro poemas) elaborados em arranjos e mixagens irretocáveis, que é onde acho que simplesmente não tem pra ninguém hoje, em que seu amadurecimento o coloca como um dos principais artistas do país.

Com o perdão do proselitismo, acho que o Rio Grande do Sul precisa reconhecer Luciano Mello. Não me sai da cabeça que se ele tivesse nascido em qualquer cidadezinha americana, francesa, belga, inglesa – claro que também há outros lugares, como o RS, em que arte não dá camisa pra ninguém –, ele teria seu trabalho reconhecido e, principalmente, poderia desenvolvê-lo com tranquilidade ao longo dos anos, pela excelência demonstrada até então. Aqui é sempre um lutar por espaço, por oportunidade, por audiência, que não acho que condiga com o que ele tem feito; aliás, em escala menor, vale também para outras e outros artistas sem um mínimo lugar à sombra sob esse sol que nos bate mais inclinadamente. Não estou perdendo de vista, espero, que os inimigos são os outros, hoje no poder, que não têm mesmo qualquer apreço pela cultura. Só estou alertando que os inimigos também somos nós, quando caímos na dinâmica estrita da mercadoria, ou melhor, do capital, sem distinguir arte de coisa. Capital esse, bom reparar, que é o atual chão histórico dos inimigos de lá e de cá.

Enfim, ouçam o disco e confiram! Vejam se não é lindo… E não uma beleza aquela dentro do que esperamos como beleza, me entendem? Se só considero bonito o que espero como bonito, estou achando bonito a mim mesmo. Ou em termos caetânicos: “é que Narciso acha feio o que não é espelho.” Vida portátil é outro lance. O Luciano é outro lance. Ainda temos espaço em nós para conhecer o outro? É preciso reconhecer a arte de Luciano Mello. Na arte, amigas e amigos, reconhecer é conhecer-se.



Guto Leite é poeta, cancionista e professor de Literatura Brasileira na UFRGS.

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