Artes Visuais | Reportagens

Ocre Galeria exibe o universo onírico e orgânico de Lilian Maus

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Ocre Galeria exibe o universo onírico e orgânico de Lilian Maus Foto: Fábio Alt

A exposição Miragens – Onde Dormem os Sonhos, inaugurada em 4 de abril na Ocre Galeria, reúne 31 trabalhos inéditos da artista Lilian Maus, produzidos ao longo dos últimos três anos. Com curadoria de Gabriela Motta, a mostra apresenta obras que evidenciam o olhar da artista para a fauna e flora do estado e sua pesquisa em torno das paisagens, lendas e histórias da região de Osório (RS), onde Maus vive e mantém seu ateliê há mais de uma década.

“São obras atravessadas por paletas de cores, materiais e questões em comum, apresentando um universo onírico e um olhar através de fendas, frestas e obstáculos – já que uma parte foi produzida durante a pandemia –, com algo de voyeurismo”, sintetiza Maus, que em paralelo à sua produção artística é professora do Instituto de Artes da UFRGS.

Foto: Fábio Alt

Um dos destaques da mostra é uma seleção de pinturas da série Área de Cultivo, que a artista desenvolve desde 2010 – atualmente reunindo 160 obras –, em que cores e formas remetem a elementos orgânicos e ao mundo subaquático, aproximando-se da abstração. “São trabalhos que envolvem essa temática de uma área de cultivo ou construção de um jardim, com paisagens que nascem com uma mancha na vertical e que depois finalizo na horizontal com elementos mais gráficos”, conta a artista.

Foto: Fábio Alt

A série inclui aquarelas, exibidas em um conjunto de 21 peças, cujas formas se assemelham a desenhos materializados às margens de rios, a partir de vestígios orgânicos, como observa a curadora da exposição. “Lilian consegue tão profundamente captar a fugacidade dessas marcas que suas aquarelas parecem prestes a se transformar em novas manchas, ativando em nós, espectadores, a sensação de estar diante do curso de águas vivas”, ressalta Motta, que também é docente do Instituto de Artes da UFRGS.

As miragens do nome da exposição intitulam cinco pinturas em que o efeito óptico se transmuta em fenda, fogo-fátuo, fata morgana e reflexões sobre interior e exterior. Já Cosmogonia: Eros celebra o mito grego em um desdobramento da performance Cosmogonias Lúdicas, que a artista apresentou em 2020, na Sala de Arte Habitart, ao lado do historiador e pianista Francisco Marshall – assista aqui.

Foto: Fábio Alt

A exposição também contempla o vídeo Ygápéba, com direção de Maus e Biel Gomes e trilha composta por Vagner Cunha. A obra audiovisual – cujo título em tupi-guarani significa “jangada” e será doada ao acervo do MARGS – é fruto da experiência de Maus na residência artística CASCO, realizada no Litoral Norte do estado em fevereiro de 2021. A jangada que aparece nas imagens foi construída pela artista em parceria com os artesãos Paulinho Biro e Tadeu Marcelino, o carpinteiro naval Eduardo Fernandes e o carreteiro e agricultor Pedro Ávila.

“Esse vídeo é dedicado aos viajantes que rumaram ao desconhecido em carreta ou jangada. Gente simples de carne e osso que deu origem a lendas sopradas pelo vento e impulsionadas ora pelo sonho e o desejo, ora pela dor e a esperança. Até hoje, no Litoral Norte do sul do Brasil, uma barca fantasma é avistada iluminada, ao som de uma música celestial, festejando a vida pelos que em terra firme apenas sobrevivem”, afirma a artista.

Curadora e organizadora da residência CASCO, Paola Fabres narra em texto o desfecho do vídeo e alguns de seus vínculos históricos. “Ao entrar lagoa adentro, sua vela pegou fogo – a jangada que avançava contra o vento virou clarão em meio ao horizonte. Além de confundir-se com contos locais, a cena propunha outros resgates: fazia referência ao Seival, lanchão de Giuseppe Garibaldi (1807-1882) que atravessou por terra rumo à Laguna (1938), conduzido sobre rodas e puxado por juntas de bois. Fazia também alusão ao fantasma do barco Bento Gonçalves, visto iluminado na Lagoa da Pinguela após seu naufrágio (1947) durante a Semana Farroupilha”.

Foto: Fábio Alt

A exposição inclui ainda a instalação Pintura ao Vento: Boitatá dos Pampas, com estampas em aquarela digitalizadas e sublimadas sobre tecido. Inspiradas em serpentes e répteis que habitam o pampa gaúcho, as estampas também ganham o formato de jaquetas, produzidas pelo coletivo CÓS – grupo de mulheres que reaproveita resíduos para confecção de roupas – com processo de sublimação da Casa Rima, à venda via contato com a artista.

Nascida em Salvador em 1983, Lilian Maus cursou graduação, mestrado e doutorado no Instituto de Artes da UFRGS, onde é professora de pintura desde 2017 e coordenadora do Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas. De 2006 a 2015, integrou o coletivo de artistas-gestores do Atelier Subterrânea, e como artista já expôs pinturas, instalações e vídeos em diversos estados do Brasil e países como Alemanha, Canadá, Estados Unidos, Japão e Rússia.

Exposição “Miragens – Onde Dormem os Sonhos”, de Lilian Maus – curadoria de Gabriela Motta

Onde: Ocre Galeria (rua Demétrio Ribeiro, 535 – Centro Histórico – Porto Alegre)
Visitação: até 30 de abril de 2024, de segunda a sexta-feira, das 10h às 18h, e sábados, das 10h às 13h30
Entrada gratuita

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