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O “PALAVRAR” de Elida Tessler dialoga com “Múltiplo Leminski” no Centro Cultural da UFRGS

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O “PALAVRAR” de Elida Tessler dialoga com “Múltiplo Leminski” no Centro Cultural da UFRGS Elida Tessler. Foto: Ana Beatriz Vieira

Com a palavra como norte de uma série de ações em 2022, o Centro Cultural da UFRGS promove um diálogo entre a artista visual Elida Tessler e o poeta Paulo Leminski (1944-1989) em duas exposições que serão inauguradas neste sábado (15/10), às 11h: PALAVRAR, da artista porto-alegrense, e Múltiplo Leminski – Um Mergulho na Obra de Paulo Leminski, que celebra as inúmeras facetas do autor curitibano – um legado que vai da poesia à tradução, passando por biografias, críticas literárias, prosas e canções.

“Vínhamos acompanhando há alguns anos a trajetória de Múltiplo Leminski, sua itinerância por várias cidades brasileiras, e acalentávamos a ideia de acolhê-la em nosso espaço. Ela se realiza justamente no ano em que o Centro Cultural elegeu como mote de parte de sua programação a palavra: a palavra viva, a palavra poética, a palavra política”, diz Lígia Petrucci, diretora do Centro Cultural da UFRGS.

Com curadoria de Aurea Leminski e Estrela Leminski, filhas do escritor, e Alice Ruiz, viúva do poeta, o projeto Múltiplo Leminski começou em 2012, exibido no Museu Oscar Niemeyer (MON), em Curitiba, e já foi visto por mais de 700 mil pessoas em 12 cidades brasileiras e Lisboa – em novembro, a mostra será montada em Roma, no Instituto Guimarães Rosa.

Paulo Leminski. Foto: Dico Kremer

Aurea Leminski conta que o acervo que dá vida a Múltiplo Leminski é formado por cerca de 30 mil itens, entre manuscritos, datiloscritos, anotações, documentos, livros, fotografias e criações de Leminski em suas diversas áreas de atuação. “O acervo continua a se construir com obras de artistas que se inspiram na produção do meu pai e vão se integrando como resultado maior desse legado”, explica Aurea, que trabalhou por duas décadas como jornalista e há dez anos se dedica exclusivamente ao legado de Leminski.

“Quando o MON nos convidou, era para ser um evento pontual. Com a quantidade de convites que surgiram depois, tive que me dedicar exclusivamente à itinerância. Hoje percebo que não poderia estar fazendo outra coisa”, afirma Aurea, que vem acompanhando a montagem da exposição no Centro Cultural da UFRGS na semana que antecede sua inauguração. “Um dos destinos imprescindíveis era Porto Alegre, por conta de todas as vezes que meu pai veio pra cá. Ele admirava muito a cena cultural da cidade.”

O espaço no campus central da universidade exibirá documentos, fotografias, publicações, peças audiovisuais e reproduções de manuscritos. Aurea destaca que o Centro Cultural, assim como outras instituições que já receberam Múltiplo Leminski, exige um trabalho de precisão e concisão muito caro a seu pai: “A exposição é muito versátil, permite que vá desde o Salão do Olho do MON, com 1.000 m², a espaços de dimensões menores. A imersão no universo de Paulo Leminski é a essência da exposição”.

Aurea observa que a mostra desperta o interesse não só de leitores de Leminski, mas também de públicos menos íntimos de sua produção. “Eu não deveria mais me surpreender, mas ainda me surpreendo. Vejo pessoas extremamente emocionadas a cada exposição. A mostra revela elementos de um Leminski menos inatingível”, diz Aurea. “Alguns objetos eu via quando era menina, hoje eles são históricos. Na hora da concepção e depois das exposições, posso ser emotiva. Mas durante, uso meu lado mais objetivo.”

Sobre o diálogo de Múltiplo Leminski com PALAVRAR, de Elida Tessler, Aurea ressalta “a visualidade dentro da palavra e a palavra dentro da visualidade” que unem as duas exposições.

Constelação de infinitivos

A partir de 15 de outubro, o Centro Cultural da UFRGS exibe uma parte de PALAVRAR, de Elida Tessler – em 22 de outubro, a mostra se expande na Biblioteca Pública do RS e na Galeria Bolsa de Arte. Com curadoria dos historiadores da arte Eduardo Veras e Gabriela Motta, a exposição celebra os 90 anos do escritor, filósofo e tradutor Donaldo Schüler, interlocutor de Elida há décadas em suas incursões pelas porosidades visual-literárias.

Elida Tessler. Foto: Ana Beatriz Vieira

“Há mais de 20 anos, parte significativa da prática artística de Elida Tessler volta-se, mais do que a uma relação íntima e amorosa com a literatura, a modos singulares de ler”, assinalam Motta e Veras. “A cada novo livro que toma nas mãos, a artista se propõe diferentes protocolos. Essas regras quase nunca oferecem um sentido óbvio ou imediato; não se trata de sublinhar os trechos mais importantes ou os que mais tarde com sorte se farão úteis. As instruções que Elida se autoimpõe trazem sempre um quê de aleatório, de improvável, algo apenas sinalizado por certos jogos de linguagem”, completam os curadores.

Na UFRGS, a artista apresenta dois trabalhos que têm como ponto de partida o livro A Arte no Horizonte do Provável (1969), do poeta e tradutor Haroldo de Campos (1929-2003). Em A Conversação, Elida exibe uma fita enrolada em carretel de filme 16mm no qual o texto do livro de Haroldo aparece na íntegra, em uma única linha impressa, totalizando 596 metros de extensão. Já Horizonte Provável é composto por 581 pratos de porcelana distribuídos entre o térreo e o terceiro andar do Centro Cultural. Os pratos contêm impressões de verbos no infinitivo, todos compilados por Elida na leitura de A Arte no Horizonte do Provável.

A primeira versão do trabalho foi exposta em 2004, no Museu de Arte Contemporânea de Niterói (MAC), no Rio de Janeiro, um ano após a morte do poeta concreto. Na ocasião, 244 pratos ocuparam todo o diâmetro da varanda do museu, encaixados nas esquadrias das janelas. A semelhança formal dos pratos com a vista área do MAC foi uma das motivações da escolha do acessório como suporte. “Tomei o livro A Arte no Horizonte do Provável e fiz com que os horizontes da literatura e da Baía da Guanabara coincidissem”, conta Elida.

Em 2017, uma segunda montagem foi realizada na sede paulista da Galeria Bolsa de Arte. Cinco anos depois, no Centro Cultural da UFRGS, pela primeira vez serão exibidos os 581 pratos que integram a obra – em alguma medida, materializando uma proposição que não pôde ser apresentada por Haroldo de Campos. Elida recorda um encontro com o poeta no Torreão – espaço cultural que funcionou entre 1993 e 2009, na esquina da rua Santa Terezinha com a avenida Venâncio Aires, em Porto Alegre, gerido por ela e pelo artista Jailton Moreira –, quando o autor de Galáxias afirmou: “Vou fazer a primeira ocupação poética desse espaço”. Haroldo faleceu antes da ocupação, mas seu verbo hoje se faz presente a poucas quadras do local pretendido há cerca de 20 anos.

A montagem convida o público a percorrer as salas do Centro Cultural e se deixar envolver pelos verbos de Haroldo. Equacionar, verter, salientar, durar, representar e reinventar são alguns dos infinitivos espalhados em constelações verbais pelas paredes. Na aproximação de Elida com os horizontes prováveis e galáxias de Haroldo, o visitante movimenta o corpo e o olhar como um viajante espacial que gira em eixos múltiplos para contemplar o entorno. “É uma instalação que foi aderindo ao espaço pouco a pouco, ao longo de mais de dez dias. Os funcionários do Centro Cultural também começaram a olhar a pilha de pratos, escolhendo palavras e o lugar que elas ocupam”, conta Elida. “O que estamos todos procurando é o lugar da palavra”, completa.

Nos últimos meses, a busca de Elida foi acompanhada pela leitura de Toda Poesia, de Leminski, livro de cabeceira durante a concepção de PALAVRAR. Na página 190 da antologia, a artista encontrou o que quer dizer, poema dedicado a “Haroldo de Campos, translator maximus”:

      O que quer dizer, diz.
Não fica fazendo
      o que, um dia, eu sempre fiz.
Não fica só querendo, querendo,
      coisa que eu nunca quis.
O que quer dizer, diz.
      Só se dizendo num outro
      o que, um dia, se disse,
um dia, vai ser feliz.

Na conversa por telefone sobre tantos dizeres em outros, nas constelações traçadas pelas palavras e imagens de Elida, Haroldo e Leminski, a artista dá um novo giro para celebrar suas trocas com o amigo Donaldo – que vão se revelar de forma mais direta na Galeria Bolsa de Arte e na Biblioteca Pública do RS a partir do dia 22 de outubro, completando a tríade de espaços que recebem PALAVRAR.

“É muita coisa ao mesmo tempo, mas está valendo a pena por esta razão: que o Donaldo possa ter seus textos impressos, lidos, colocados em trabalhos que se movem e assumem diferentes formatos. Ele é um grande ponto de giro disso tudo, é o próprio movimento”, define a artista.

Na próxima quinta-feira, a reportagem acompanha os giros de Elida nos outros dois espaços que integram a mostra PALAVRAR.

“PALAVRAR”, de Elida Tessler e “Múltiplo Leminski – Um Mergulho na Obra de Paulo Leminski”
Abertura: 15 de outubro (sábado), das 11h às 15h
Visitação até 20 de abril de 2023, de segunda a sexta-feira
Horários: Múltiplo Leminski, das 9h às 17h; PALAVRAR, das 8h às 20h
Onde: Centro Cultural da UFRGS (rua Eng. Luiz Englert, 333 – Campus Central)
Entrada franca

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