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“O Pequeno Corpo” é uma ode fantástica à sororidade

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“O Pequeno Corpo” é uma ode fantástica à sororidade Pandora Filmes/Divulgação

Em 2016, a diretora e roteirista italiana Laura Samani descobriu um pequeno santuário em Trava onde, até o século 19, acreditava-se ser capaz de trazer de volta à vida bebês natimortos – eles dariam apenas um suspiro novamente, para poderem assim ser batizados e enterrados em solo consagrado. Encantada com essa história fantástica, a cineasta escreveu e dirigiu O Pequeno Corpo (2021).

O filme – que rendeu a Samani o prêmio David di Donatello de cineasta estreante – conta a história de Agata (Celeste Cescutti), uma jovem que vive em uma aldeia de pescadores no começo do século 20 e que perde a filha logo depois de um parto doloroso. Como o padre local se recusa a batizar a criança morta, ela é aconselhada por um velho sábio a procurar um santuário onde sua filha pode ser revivida brevemente e assim salvar sua alma da condenação eterna do limbo.

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Levando o pequeno corpo da menina em uma caixa, Agata parte rumo a esse local distante nas montanhas. Em sua jornada, a obstinada mãe enlutada conhece Lynx (Ondina Quadri), um garoto enigmático e solitário que promete ajudá-la nessa estranha peregrinação, que será repleta de obstáculos e surpresas.

Pandora Filmes/Divulgação

Durante sua pesquisa para o filme, a diretora conta que descobriu que eram em sua maioria homens que viajavam levando os natimortos, já que as mulheres tinham acabado de dar à luz e não tinham condições físicas de se submeter a essa viagem. Escrevendo o roteiro com Marco Borromei e Elisa Dondi, Samani se perguntou: o que acontece com a mulher que fica em casa? E se a jornada, ao invés de ser feita por um homem, fosse feita por uma mulher?

“Para mim, a melhor parte de uma história é aquele momento em que um personagem decide se rebelar. A escolha de Agata é praticamente escandalosa porque denota orgulho e protesto não apenas contra sua religião, mas também contra as leis da natureza. Agata decide ouvir as vozes que falam sobre os milagres. Seguindo seu instinto e sem contar a ninguém, ela parte em uma viagem com seu bebê em uma pequena caixa. Sozinha”, explica a realizadora.

Samani escolheu como cenário de O Pequeno Corpo sua terra natal, a Friul-Veneza Júlia, no nordeste da Itália. Ela conta que, enquanto buscava lugares onde filmar, encontrou diversos moradores e moradoras da região que acabaram entrando no filme: “Quase todo o elenco é formado por pessoas que nunca atuaram antes, em alguns casos, famílias inteiras. Foi também por essa razão que decidi rodar o filme nos dialetos vêneto e friuli, não apenas para o público conhecer a língua autêntica da época, homenageando as diferentes variações, como também para que as pessoas pudessem se expressar tanto quanto possível da maneira mais natural”.

Pandora Filmes/Divulgação

O Pequeno Corpo fez sua estreia mundial na Semana da Crítica no Festival de Cannes de 2021, quando recebeu críticas positivas da imprensa especializada. Flertando com o realismo mágico, o filme evoca desde o início uma aura de fábula atemporal, enfatiza pela bela fotografia de Mitja Licen, que registra os impressionantes cenários naturais da região onde a ação transcorre, e pela ótima trilha sonora – que mistura canções folclóricas ancestrais com a música minimalista originalmente composta por Fredrika Stahl.

Contando com uma equipe técnica e um elenco em que as mulheres predominam – com destaque para as atuações convincentes das duas atrizes principais –, O Pequeno Corpo é uma sensível e espiritual ode à força da sororidade em tempos e circunstâncias hostis.

Pandora Filmes/Divulgação

O Pequeno Corpo: * * * * *

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

Assista ao trailer de O Pequeno Corpo:

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