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“Pobres Criaturas” saúda o nascimento da mulher moderna

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“Pobres Criaturas” saúda o nascimento da mulher moderna Disney Studios/Divulgação

Indicado ao Oscar em 11 categorias, incluindo melhor filme e direção, Pobres Criaturas (2023) é uma obra superior. O talentoso diretor grego Yorgos Lanthimos ganhou o Leão de Ouro no último Festival de Veneza e o Globo de Ouro de melhor comédia ou musical com uma produção envolvente e excêntrica, que costura com inteligência e provocação o romantismo gótico da história de Frankenstein com uma trajetória típica dos romances de formação. O roteiro engenhoso narra a jornada de autodescoberta e emancipação de uma mulher revivida no sentido mais amplo do termo – brilhantemente encarnada pela atriz Emma Stone. O filme entra em cartaz nesta quinta-feira (1º/2).

Em Pobres Criaturas, Emma – também produtora do longa – interpreta Bella Baxter, uma jovem trazida de volta à vida depois de se atirar do alto de uma ponte na Londres vitoriana pelo brilhante e nada ortodoxo médico Godwin Baxter (Willem Dafoe). Cientista maluco de catálogo, o genial Godwin – chamado de God (“Deus”) por Bella – mantém seu experimento científico trancado em sua mansão, estudando e incentivando o rápido desenvolvimento intelectual e motor da garota com a ajuda do estudante Max McCandles (Ramy Youssef).

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Disney Studios/Divulgação

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Inquieta e curiosa por conhecer o que existe para além da casa a que vive restrita, Bella foge com Duncan Wedderburn (Mark Ruffalo), um advogado ricaço e galanteador. Ao lado disse pilantra de fino trato, a heroína vai viajar a lugares exóticos, conhecer pessoas singulares e encarar aventuras e contratempos que a ajudarão a entender e confrontar o mundo ao redor – que ela descobre ser regrado pelo patriarcalismo hipócrita, feito para beneficiar os homens e oprimir as mulheres.

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A exuberante direção artística de Pobres Criaturas recria o ambiente vitoriano steampunk do romance homônimo do escritor escocês Alasdair Gray no qual se baseia. O artificialismo dos vários cenários pintados remete aos primórdios do cinema e a títulos como Querelle (1982), de Rainer Werner Fassbinder, e, especialmente, E la Nave Va (1983), de Federico Fellini, no caso das sequências portuárias e em alto-mar a bordo de um cruzeiro.

Já a direção de fotografia e a trilha musical repetem a estranheza visual e sonora característica dos filmes de Yorgos Lanthimos, que o realizador cristalizou particularmente em A Favorita (2018). Como nesse seu longa anterior, Pobres Criaturas distorce literalmente a percepção naturalista da realidade em cenas filmadas com lentes grandes angulares que deformam a imagem, acompanhadas por inserções sonoras estranhas dissonantes, que muitas vezes ficam a meio caminho entre a música e o ruído.

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Diferentemente da afetação pedante e vazia de Wes Anderson, diretor estadunidense também célebre pelas idiossincrasias e esquisitices de seus filmes, o maneirismo do cineasta grego vai muito além da pirotecnia estilística: em Pobres Criaturas, sua visão enviesada das relações familiares, sentimentais e sociais está a serviço de um poderoso Bildungsroman de uma mulher que se descobre intrinsecamente libertária e inconformada com a submissão imposta às mulheres.

Na trama, o aperfeiçoamento físico, psíquico e moral de Bella, tutelado pelo racionalismo científico e moldado pelas convenções sociais e a lógica capitalista, sofre uma convulsão com o súbito despertar da sexualidade, revelando à personagem a sufocante estrutura que a prende. O revolucionário poder do desejo passa então a ser o motor do terceiro nascimento de Bella – uma reinvenção da qual ela finalmente pode ser a protagonista.

Disney Studios/Divulgação

Ganhadora do Globo de Ouro de melhor atriz de comédia ou musical e indicada ao Oscar deste ano, Emma Stone literalmente dá vida a uma figura cujo arco dramático vai da inocência ignorante à autoconsciência inconformista – passando por momentos de confusão, humilhação, dor, prazer, revelação e superação. Entre as ótimas atuações do elenco central, merece destaque ainda a composição de Mark Ruffalo – indicado ao Oscar de ator coadjuvante – do patético janota Duncan, exemplar acabado do macho dominador pretensamente autossuficiente, mas incapaz de lidar com suas inseguranças e, em especial, com a autonomia feminina.

Matriz referente de Pobres Criaturas, o livro Frankenstein, publicado em 1818 por Mary Shelley – uma das poucas mulheres a se destacarem na época no masculino universo literário –, tinha como subtítulo Prometeu Moderno. Se no mito grego o titã é castigado por roubar o fogo dos deuses e entregá-lo à humanidade, em Pobres Criaturas essa espécie de Prometeu de corset é uma feminista pioneira que desconcerta a sociedade machista por querer adonar-se do próprio corpo – manipulado pela razão (o cientista Godwin), pelo amor romântico (o assistente Max) e pelo desejo de posse (o aproveitador Duncan) – para traçar livremente seu destino.

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Pobres Criaturas: * * * * *

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

Assista ao trailer de Pobres Criaturas:

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