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Joana e a coragem de descobrir quem realmente somos

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Joana e a coragem de descobrir quem realmente somos Foto: Okna Produções/Divulgação

A Primeira Morte de Joana, segundo longa-metragem da premiada cineasta gaúcha Cristiane Oliveira, conquistou no último sábado (17/4) o Global Vision Award no Cinequest Film & Creativity Festival, nos Estados Unidos. Logo na primeira participação em uma mostra competitiva, ao lado de 11 longas de diferentes continentes, o filme ganhou o grande prêmio da seção Global Landscapes do festival norte-americano – que realizou sua 29ª edição nas cidades californianas de San Jose e Redwood City.

Lançado em janeiro no 51º Festival Internacional da ÍndiaA Primeira Morte de Joana tem mais cinco festivais confirmados na sequência – sendo que dois já foram anunciados: o 22º Festival Internacional Júnior de Estocolmo, na Suécia, e o 23º OUTshine LGBTQ+ Film Festival, também nos EUA, em Miami. A carreira em festivais internacionais do filme se iniciou na 51ª edição do mais antigo festival de cinema da Ásia, que se realiza desde 1952 no Estado indiano de Goa e consta da seleta lista de festivais reconhecidos pela Federação Internacional de Associações de Produtores Cinematográficos (FIAPF).

“Há um grande volume represado de filmes que não encontraram espaço nos últimos meses em função de cancelamentos ou da redução da grade dos festivais. O ano de 2021, por isso, será supercompetitivo. Abrir a trajetória do filme em um evento desse porte é uma alegria. E assim podemos ver como o filme ressoa em outras culturas antes de estrear no Brasil”, explica a diretora e roteirista.

Já a produtora Aletéia Selonk, da Okna Produções, ressaltou a importância do circuito internacional de festivais. “Filmes autorais encontram nos festivais internacionais a primeira oportunidade de conexão com as audiências e, por consequência, de estabelecer os primeiros momentos de diálogo e significação. Estar nesse circuito nos fornece uma experiência ampla dessa recepção e, assim, contribui muito para a trajetória futura do filme, afinal, o projeto foi pensado desde o início como uma articulação do nacional com o internacional”.

O primeiro longa-metragem de Cristiane, o ótimo Mulher do Pai (2016), também foi exibido na Índia, no Bengaluru International Film Festival de 2017. Percorrendo o circuito mundial de mostras, o filme participou de 21 festivais, ganhando um total de 20 prêmios.

Entre as premiações mais importantes de Mulher do Pai está a de melhor direção no Festival do Rio e o prêmio do júri da FIPRESCI, a Federação Internacional de Críticos de Cinema, no Festival Cinematográfico Internacional do Uruguai. Mulher do Pai tem lançamento confirmado para o próximo domingo (25/4), no MUBI – plataforma online de filmes cujo catálogo mistura obras clássicas e produções independentes do mundo todo.

Em A Primeira Morte de Joana, a protagonista é uma garota de 13 anos que quer descobrir por que sua tia-avó morreu aos 70 sem nunca ter namorado alguém. Ao encarar os valores da comunidade em que vive no sul do Brasil, Joana (Letícia Kacperski) percebe que todas as mulheres da sua família guardam segredos, o que traz à tona algo escondido nela mesma.

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Foto: Okna Produções/Divulgação

A ideia do que se tornaria A Primeira Morte de Joana remonta a 2006. Cristiane Oliveira passava por um momento de luto pela perda de uma pessoa próxima que, assim como na história, faleceu aos 70 anos sem nunca ter namorado alguém. Durante uma de suas viagens de férias para o Litoral Norte gaúcho, nas quais passava pela região do Morro da Borússia, em Osório, Cristiane percebeu modificações no ambiente antes tão familiar.

A paisagem local, formada pelo encontro entre lagoas e morros de mata virgem, ganhava intervenções metálicas. Grandes cataventos de um enorme parque eólico foram instalados, rasgando a vegetação natural.

“Aqueles cataventos pareciam pontos brancos no horizonte”, lembra-se a realizadora. “Demorei para entender do que se tratava. Uma paisagem que era cheia de vida, de repente, ganhava outro elemento, algo que se movia com o vento, uma nova vida.”

O novo cenário, que aos poucos se revelava, poderia dialogar, pensou Cristiane, com o que se passa dentro da cabeça e do corpo de uma menina em transformação. “É uma região em que venta muito. Um vento assim, tão presente, já não é apenas um elemento natural. Ele é uma força que de fato interfere em quem vive ali”, argumenta a cineasta.

Foto: Okna Produções/Divulgação

Estudando mais a região do Morro da Borússia, Cristiane encontrou outros aspectos que entrariam em seu roteiro. Naquele pedaço do Rio Grande do Sul, há fortes traços de colonização alemã, mas também há presença evidente da cultura de matriz africana. A família de Joana ganhou assim ascendência de colonos alemães que chegaram à região no século 19.

As filmagens de A Primeira Morte de Joana se realizaram em novembro e dezembro de 2018. Todas as cenas foram filmadas na região, nos municípios vizinhos de Osório e Santo Antônio da Patrulha.

Tão importantes quanto a paisagem do Morro da Borússia são as meninas que vivem Joana e Carolina, a amiga mais próxima dela. Letícia Kacperski ficou com o papel principal, Isabela Bressane se tornou Carolina.

Foto: Okna Produções/Divulgação

Isabela tinha 13 anos durante as filmagens, Letícia completou 13 poucos dias depois. Ambas são de Porto Alegre, estão em seu primeiro filme e tinham experiência anterior apenas com teatro. “Gosto de reconstruir o roteiro com os atores. Trazer atrizes que tivessem as idades das personagens me permitiu adequar as falas e as situações com aquilo que as meninas estavam vivendo na vida delas”, diz Cristiane.

Não é a primeira vez que a diretora lança mão de tal recurso: Mulher do Pai revelou a atriz Maria Galant, que tinha então os mesmos 17 anos de Nalu, sua personagem. Os dois filmes encontram as protagonistas em momentos chave da adolescência: tanto Nalu quanto Joana estão em processo de descobrirem a si mesmas – e ambas provocarão acertos e desacertos ao seu redor. Mulher do Pai também se passa no interior do Rio Grande do Sul, porém na região da fronteira com o Uruguai, onde o longa foi rodado.

Até que a Música Pare, próximo projeto de longa-metragem da roteirista e diretora, também em parceria com a Okna Produções, foi selecionado para o disputado laboratório de roteiro do Festival de Berlim, o Talents Script Station, realizado de 1º a 5 de março. Foram mais de 500 roteiros inscritos do mundo todo e apenas 10 escolhidos para a oficina, que se realizou de forma remota.

Na entrevista exclusiva a seguir, Cristiane Oliveira comenta sobre A Primeira Morte de Joana, o interesse em abordar a adolescência nos seus filmes e os lugares das mulheres no audiovisual e na sociedade em geral: “Nosso corpo pode ser uma janela para nos conectar uns com os outros, mas também uma chave para nos isolar do resto do mundo”.

Foto: Okna Produções/Divulgação

A Primeira Morte de Joana coloca em discussão os papéis impostos às mulheres na sociedade, a descoberta da sexualidade e o machismo. Comente um pouco sobre esses aspectos da história, por favor.

Desde cedo percebi na escola como nosso corpo interfere na formação dos afetos. Algumas brincadeiras humilhantes eram reservadas a algumas meninas, enquanto outras eram mais respeitadas muito em função dos seus atributos físicos. Mais tarde, já adulta, quando uma mulher de quem eu era próxima faleceu aos 70 anos sem nunca ter namorado alguém eu lembrei daquele sentimento. A história dela despertou o pensamento inicial que deu origem ao roteiro: nosso corpo pode ser uma janela para nos conectar uns com os outros, mas também uma chave para nos isolar do resto do mundo. Em especial quando você não se encaixa nas expectativas sociais de gênero. E na adolescência, é justamente a fase em que a expressão da personalidade determina a sua inserção nos grupos. Daí surgiu a história de Joana, que aos 13 anos descobre a coragem necessária para conseguir ser quem realmente é.

Em seu longa anterior, Mulher do Pai, uma adolescente também passa por um processo de amadurecimento emocional e sexual enquanto confronta suas raízes familiares. O que lhe atrai em particular essa fase da juventude?

Apesar de ambas estarem no que enquadramos como adolescência, acho que são momentos bem distintos que cada personagem vive. Enquanto Nalu tem seu conflito central na relação com o pai, Joana vive as primeiras descobertas relacionadas à formação dos afetos. O que vejo em comum entre as duas protagonistas é que a jornada de ambas toca de alguma forma na questão da autonomia. Em Mulher do Pai isso é concreto e a personagem vai sendo levada pelas situações. Já em A Primeira Morte de Joana essa busca surge como um sentimento abstrato, mas a protagonista é mais combativa diante das opressões que vai percebendo a sua volta.

Em que sentido as referências fantásticas no filme se articulam com os aspectos dramáticos da história?

Adultos tendem a evitar certos temas ao tratar com crianças e adolescentes, como se estes não estivessem aptos para aprender. Joana não fica satisfeita com as respostas dos adultos às questões que levanta, por isso cria um universo particular, que a ajuda a formular as próprias respostas.

Um dos destaques de A Primeira Morte de Joana é a atuação e conexão entre as jovens atrizes adolescentes. Como foi a escolha e o trabalho de preparação das estreantes Letícia Kacperski e Isabela Bressane, especialmente quanto à questão da sexualidade?

A atriz gaúcha Nadya Mendes fez a produção de elenco e vimos juntas por volta de 70 meninas. Depois de uma pré-seleção individual, chamamos algumas para conversas em dupla e as duas escolhidas demonstraram uma química muito especial desde o início. Durante a fase de preparação reescrevi o roteiro junto com elas, aproveitando experiências que elas mesmas trouxeram nas conversas. E, como era o primeiro filme de ambas, convidei a atriz gaúcha Vanise Carneiro para trabalhar comigo na preparação, e aí diversos aspectos relacionados à intimidade entre as personagens foram trabalhados. Essas três etapas foram fundamentais para que elas chegassem no set com muita confiança entre elas, o que facilitou para viverem juntas as cenas do filme.

Mesmo que ainda haja muito a conquistar, as mulheres estão cada vez mais presentes na indústria audiovisual brasileira, destacando-se em funções como direção, roteiro e outras atividades técnicas. Você concorda com essa avaliação? Por quê?

Iniciativas voltadas para a paridade de gênero no mercado de trabalho de forma geral impactam também no mercado audiovisual. No entanto, ações específicas estimulam a inserção de mulheres na nossa área, como por exemplo o Fundo Avon de Mulheres no Audiovisual, concurso da marca Avon que premiou cinco projetos em 2018, entre eles o nosso, e ajudou a viabilizar A Primeira Morte de Joana.

Como está planejada a carreira de A Primeira Morte de Joana? O filme já tem data de estreia?

Não temos data de estreia comercial no Brasil ainda, mas o filme deve chegar às telas nacionais no circuito de festivais esse ano ainda.

Foto: Okna Produções/Divulgação

Assista ao teaser de A Primeira Morte de Joana:

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