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Scorsese mostra os caminhos perigosos de uma nação em “Assassinos da Lua das Flores”

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Scorsese mostra os caminhos perigosos de uma nação em “Assassinos da Lua das Flores” Paramount Pictures/Divulgação

Poucos cineastas contemporâneos possuem uma carreira tão consistente e repleta de obras magnas quanto Martin Scorsese. Em seu 27º longa-metragem, o épico arrebatador Assassinos da Lua das Flores (2023), o cineasta conta em quase três horas e meia uma história real sobre indígenas e brancos em um território norte-americano nos anos 1920 para mais uma vez lembrar que a violência, a ganância e a corrupção estão no cerne da consolidação dos Estados Unidos enquanto nação.

O filme que entra em cartaz nesta quinta-feira (19/10) é baseado em Assassinos da lua das flores: Petróleo, morte e a origem do FBI, de David Grann, livro-reportagem editado no Brasil pela Companhia das Letras relatando uma série de assassinatos de membros do povo osage no começo do século 20. O roteiro é assinado por Scorsese e Eric Roth – premiado roteirista de filmes como O Informante (1999) e Duna (2021) e ganhador do Oscar de melhor roteiro adaptado por Forrest Gump: O Contador de Histórias (1994).

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Protagonizado brilhantemente por Robert De Niro e Leonardo DiCaprio, colaboradores habituais de Scorsese, Assassinos da Lua das Flores apresenta ainda uma outra radiosa joia em seu elenco: Lily Gladstone, ótima atriz de filmes como Certas Mulheres (2016) e First Cow – A Primeira Vaca da América, impressionante no papel de uma mulher indígena que se impõe tanto na trama quanto em cena graças a uma presença silenciosa, mas plena de dignidade, autoridade e segurança.

Lily Gladstone e Martin Scorsese no set de “Assassinos da Lua das Flores”. Foto: Paramount Pictures/Divulgação

Na história, Ernest Burkhart (DiCaprio) é um veterano da I Guerra sem perspectivas que vai tentar fazer a vida na região de Oklahoma onde os osages enriqueceram com a inesperada descoberta de petróleo em seu território pouco fértil. Bronco, mas também ambicioso, Ernest arranja emprego apadrinhado pelo tio William Hale (De Niro), um poderoso fazendeiro respeitado pela comunidade local, incluindo os indígenas – cuja língua ele inclusive fala.

Servindo de chofer para Mollie Kyle (Gladstone), nativa cuja família é uma das proprietárias de terras petrolíferas, Ernest se apaixona pela bela jovem, iniciando um relacionamento que é incentivado pelo tio. O Rei, como Hale gosta de ser chamado, vê no futuro casamento do sobrinho influenciável uma chance trazer para sua família as concessões de exploração de petróleo de Mollie e suas três irmãs, além da que pertence à mãe delas.

Paramount Pictures/Divulgação

O panorama que à primeira vista parecia ser um idílio de convívio entre raças em uma terra de prosperidade logo mostra sua verdade face perversa: por um lado, os nativos que sofreram décadas com perseguições e expulsões de seus territórios originais se deixaram embriagar com a súbita riqueza e rapidamente estão perdendo seus valores e sua cultura – como alerta um dos líderes indígenas; por outro, as numerosas mortes suspeitas de mulheres e homens osages sucedem-se sem investigação, beneficiando brancos que herdam as cobiçadas concessões deixadas por aqueles com quem tinham relacionamento. Ao casar com Ernest, Mollie acabando entrando na mira dos sinistros planos do inescrupuloso Hale – que contam com a ajuda do seu próprio marido.

Como é de praxe nas obras assinadas por Scorsese, a produção de Assassinos da Lua das Flores é impecável e tecnicamente requintada, em que se destacam as inspiradas imagens de Rodrigo Prieto – diretor de fotografia mexicano de Barbie (2023), que já havia trabalhado antes com o cineasta em longas como Silêncio (2016) e O Irlandês (2019) – e a montagem da veterana Thelma Schoonmaker, montadora dos filmes do diretor desde Quem Bate à Minha Porta? (1967). Outro ponto alto é a trilha sonora, assinada por Robbie Robertson – músico canadense que integrou o cultuado grupo The Band, registrado por Scorsese no antológico documentário O Último Concerto de Rock (1978), e que morreu em agosto.

Paramount Pictures/Divulgação

Da mesma forma que em títulos seus como o anterior O Irlandês, a série televisiva Boardwalk Empire – da qual foi produtor executivo – e, especialmente, o potente e subestimado filme Gangues de Nova York (2002), Martin Scorsese narra com maestria em Assassinos da Lua das Flores uma história em que a violência e a cobiça de um grupo de vilões retrata não apenas uma realidade histórica específica, mas denuncia e reitera como a sociedade norte-americana assentou grande parte de sua identidade e seus valores em uma visão de mundo predadora e excludente. Em todas essas produções citadas – e ainda em outras como Taxi Driver (1976) e Os Bons Companheiros (1990) –, o realizador lembra como o sonho americano de ascensão é restrito a poucos escolhidos, oferecendo à imensa maioria no máximo alguma ilusão de afluência, quando não apenas a exclusão e a marginalidade. Como os grupos étnicos representados nesses trabalhos do diretor – imigrantes e descendentes de irlandeses, italianos, africanos e latinos –, os osages de Assassinos da Lua das Flores são enganados com a falsa promessa de riqueza econômica e inserção social, da qual o Rei Hale é o mefistofélico arauto.

Se Robert De Niro encarnando uma mistura de coronel nordestino com tubarão capitalista e Lily Gladstone magnetiza com a altivez de sua personagem perspicaz de olhar penetrante, Leonardo DiCaprio entrega a melhor interpretação de sua carreira até aqui, impregnando de densidade e complexidade o atormentado anti-herói Ernest – sujeito sem muitas luzes dividido entre o amor pela esposa Mollie e os filhos e cupidez assassina instilada pelo tio.

O filme se encerra com uma coda surpreendente que não cabe ser revelada aqui, levando o toque de genialidade de Scorsese e contribuindo a alçar Assassinos da Lua das Flores à condição de uma de suas obras-primas ao criticar a mórbida fascinação contemporânea pelos chamados true crimes (“crimes verdadeiros”) e ironizar a tendência hollywoodiana de agradar o público com finais apaziguadores, em que os conflitos são julgados e resolvidos. Definitivamente, não há lugar para happy end na nação sombria de Scorsese.

Paramount Pictures/Divulgação

Paramount Pictures/Divulgação

Assassinos da Lua das Flores: * * * * *

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

Assista ao trailer de Assassinos da Lua das Flores:

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