Artigos | Marcelo Carneiro da Cunha | Série

“Band of Brothers” e “The Pacific”

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“Band of Brothers” e “The Pacific” "Band of Brothers". Foto: Netflix/Divulgação

Como o tempo não para, um dos eventos definidores do século 20, a Segunda Guerra Mundial, começa a se afastar de nós até quase não ser mais visível, ou memória. Aqui na Mansão Carneiro da Cunha a gente resiste, e meu filho de 11 anos deu uma aula sobre Stalingrado outro dia pra coleguinhas que devem ter ficado se perguntando que tipo de pai o meu filho tem.

Mas, e essa é uma enorme vantagem para quem acha que História é pra ser conhecida, desde o dia 15 de setembro a Netflix passou a oferecer duas séries de altíssimo nível – produção de Tom Hanks e Steven Spielberg para a HBO originalmente: Band of Brothers (Irmãos de Guerra) e The Pacific (O Pacífico).

A Segunda Guerra Mundial foi mais uma em que os alemães quase venceram, e o mundo se salvou em grande parte graças aos americanos. Sim, eles tiveram esse mérito, mesmo que tenham saído da guerra como os novos donos do novo mundo pós-ela. No inicio, os Estados Unidos estavam assistindo meio como a atual guerra na Ucrânia. Neutros, mas ajudando um lado. Na época, era a Inglaterra, o que havia sobrado de Europa após o furação hitlerista de 1939-1940.

Quando o Japão, por seus motivos, ataca os Estados Unidos, em dezembro de 1941, Hitler, que não sofria de muita inteligência geopolítica, resolve declarar guerra aos americanos, a maior potência industrial do mundo. Eles passaram a usar todo o seu poderio para virar a guerra a favor dos Aliados, e sorte a nossa. Imaginem os planos de Hitler para uma América do Sul?

Band of Brothers se dedica a nos mostrar o que aconteceu no Ocidente quando os Aliados invadem a França, em junho de 1944. Dali até a rendição da Alemanha, em maio de 1945, ainda muita coisa aconteceu, e um enorme esforço foi realizado por americanos, ingleses e soldados canadenses, australianos e franceses livres. Em uma frente adicional na Itália, iniciada em 1943, os brasileiros tiveram uma honrosa participação na luta contra o nazismo – glória eterna aos nossos pracinhas, que fizeram tanto, com tão pouco.

A expressão Band of Brothers teria sido usada pelo rei inglês Henrique V na Batalha de Azincourt, em 1415. Pelo menos Shakespeare colocou a fala na boca do vencedor da batalha histórica, e os produtores a usaram para nomear a melhor série de guerra já produzida. Do início dos anos 2000, e portanto no tempo dos canais a cabo e das caixas de DVD, Band of Brothers se destacou pelo realismo e detalhes. Os uniformes, as armas, tudo foi feito com material da época, para nos mostrar os caminhos de uma companhia de infantaria aerotransportada, a Easy Company, com seu trapalhão capitão Sobel – ótimo trabalho do Ross de Friends –, e o dedicado tenente Winters liderando homens comuns transformados em heróis pela guerra e pela época. Vemos os futuros soldados iniciando o treinamento nos Estados Unidos – que criaram um exército de 6 milhões de homens a partir do quase nada e em quatro anos –, saltando da paraquedas sobre a Normandia e indo, de um jeito ou outro, até a Alemanha vencida.

Band of Brothers tem a mistura de vida real e comum com o heroísmo mais absoluto, e isso foi possível na frente ocidental da guerra, onde soldados se comportavam mais ou menos como soldados e se rendiam quando a coisa ficava insustentável.

“The Pacific”. Foto: Netflix/Divulgação

The Pacific é o espelho criado para mostrar a guerra em sua forma aquática e brutal, na luta entre americanos e japoneses que levou à bomba atômica em agosto de 1945.

A guerra na Europa foi terrestre e entre nações brancas e que se reconheciam como gente. A guerra no Pacífico foi travada em pequenas ilhas ocupadas pelos japoneses, e que os americanos queriam e precisavam retomar, no seu caminho até o Japão.

Não há nada de épico ou sublime em The Pacific porque aquela guerra não dava qualquer ilusão de civilidade ou civilização. As duas culturas eram diferentes demais, se conheciam de menos, e a luta acontecia entre frotas que nunca se viam, ou entre americanos invasores e japoneses invisíveis nas ilhotas do Oceano Pacífico de que ninguém havia ouvido falar.

The Pacific, assim, é mais estranha, mais dura, menos capaz de produzir envolvimento. Ela não é menos necessária, mas é de mais difícil compreensão e é, de várias formas, uma guerra entre dois impérios com os quais tivemos pouco contato.

Claro que a maior parte da guerra, e a mais definidora de tudo que aconteceu e veio a acontecer, a frente russa, não aparece. Os americanos lutaram na Europa e lutaram no Pacífico. Eles não vão gastar tempo e energia narrando a vitória que não foi deles, a maior de todas, do exército soviético, que foi quem de fato quebrou a invencibilidade alemã e mudou o curso da guerra – em Stalingrado, claro.

Ainda neste ano teremos a terceira parte dessa trilogia, Mestres do Ar, sobre a poderosa Oitava Frota Aérea americana, que despejou as bombas que arrasaram as indústrias e cidades alemãs. A Alemanha pagou pelo que iniciou, e, se alguma coisa se pode dizer sobre os alemães, eu acredito que eles foram os únicos que realmente assumiram a culpa, e um real arrependimento pelo que fizeram, ou foi feito em seu nome.

A Segunda Guerra Mundial criou o mundo em que muitos de nós nasceram, e segue sendo o maior e mais importante evento histórico nos últimos cem anos. Ver essas séries é um dever.

Vejam.

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