Artigos | Marcelo Carneiro da Cunha | Série

“Depois da Cabana”

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“Depois da Cabana” Netflix/Divulgação

A série da Netflix Depois da Cabana vem para mostrar – pra surpresa de ninguém – que os alemães sabem escrever histórias assustadoras. Ora, vejam.

Histórias de cativeiro não são exatamente novidade. Do lado mais hilariante temos Unbreakable Kimmy Schmidt, em que Josh Hofmann mantém mulheres em uma seita de fim do mundo, até que elas se libertam e o desmascaram. Em outro extremo, temos O Silêncio dos Inocentes, que me deixou com a cacunda torta de tanta tensão até hoje. Depois da Cabana, Liebes Kind, em alemão, é mais pro Silêncio do que pra Kimmy, na sua estranheza explícita, na qual o que não se sabe, ou não se vê, conta mais do que o resto.

Basicamente, uma jovem mulher foge com a filha da casa onde eram mantidas em isolamento por um maluco controlador, que esperava delas obediência absoluta a regras que somente um maluco iria achar razoáveis. Mesmo pra alemães.

Um dos melhores filmes já feitos se chama Old Boy, do gênio coreano Park Chan-wook, vejam, pelo amor de Deus – até mesmo porque acaba de sair uma versão remasterizada como comemoração dos 20 anos do lançamento do filme. Old Boy coloca o protagonista em uma prisão por 15 anos, e o liberta sem qualquer motivo aparente. Ele sai para descobrir porque foi aprisionado, para descobrir que a pergunta que deve ser feita é por que ele foi solto.

A vingança é um prato que se come gelado em “Oldboy”

Como a mulher, Lena, foge levando a filha, mas não o filho um pouco menor? Por que é tão dificil encontrar o local onde estariam presas? Por que os pais de Lena, que a procuram sem cessar há 13 anos, reagem como reagem ao vê-la?

Uma boa série de suspense sabe que muito mais do que as respostas, o que funciona mesmo são as perguntas. Depois da Cabana nos mantém num estado contínuo de questionamentos – e isso é bom, muito bom, pra quem está querendo passar uns bons momentos na frente da tevê e no sofazão, haja unha.

Algumas das melhores séries do gênero são assim mesmo. Não é a ação, é o que move os personagens, e o que move o malfeitor que interessa. The Killing, uma das melhores séries do gênero, tanto na versão original sueco-dinamarquesa como na americana, é toda sobre isso: quem acha que sabe, melhor repensar. Homeland, lembram? A Ponte/Bron?

Para ver Depois da Cabana, pensem nisso. Não é o que mostram, não é o que se sabe. É o que não mostram, e o que não sabemos.
Vejam. Não vejam. Quero dizer, vejam, mas não acreditem. Quero dizer, acreditem, mas depois de ver. Quero dizer, nem depois de ver.

Ou seja, vejam.

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