Artigos | Marcelo Carneiro da Cunha | Série

Jane, sem Austen

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Jane, sem Austen Netflix/Divulgação

E voltou a nossa estimada série sobre vestidos, veludos, bailes suntuosos e praticamente nada mais, a nossa bela e fútil Bridgerton.

Eu sinto que os felizes criadores da série, um super sucesso da Netflix, perderam alguns bons redatores em alguma epidemia do século 18, porque os personagens parecem trancados em um Uber que anda, anda, anda e se esquece de chegar a algum tipo de ambiente minimamente compreensível. O que eu sinto vendo é uma vontade de berrar “Voltem, voltem, redatores. Escrevam aí umas coisas bem legais pra justificar esse monte de gente
lindona, multirracial e rica de dar pena”.

Eu lembro de um filme de sucesso dos anos 1970, ou 1980, chamado A Lagoa Azul. Nela, dois seres especialmente lindos pela própria natureza caíam em uma ilha no meio do nada e somehow sobreviviam, e tinham um belo caso de amor. Que eu lembre, aquela ilha não tinha UM mosquito, unzinho que fosse. Pois Bridgerton é meio assim.

A Londres da virada do século 18 pro 19 não cheira a fossa, o ar não é pura fuligem e as pessoas, belas e hidratadas, não morrem antes dos 40 anos de idade por algum apêndice supurado. Ou seja, a Londres de Jane Austen é muito Jane, e nada Austen. Pena. Porque Jane Austen, a inglesa que ajudou a inventar o romance moderno, sabia como transformar esse mesmo cenário em belas obras humanas.

Quem ainda não viu, aproveite, porque a Netflix tem dois ótimos filmes feitos com obras dela, Razão e Sensibilidade (aliás, do Ang Lee, e com uma cena antológica da nossa querida Emma Thompson) e Orgulho e Preconceito. Vejam.

Bridgerton fez algo diferente quando trouxe personagens de várias raças para o universo branco e sem graça da aristocracia. Ver como o mundo poderia ser mais legal se a gente não fosse tão besta foi, sim, uma contribuição. Mas, três temporadas de algo demanda mais do que isso para valer a pena. Eu não curto moda, e muito menos dança. Pra mim, falta algo. Pra vocês, bom, olhem e decidam.

Aproveitando que sobraram uns bytes aqui, vou falar rapidamente de uma outra série que está bombando na Netflix, Bebê Rena. Amigos que são excelentes nesse babado, um deles sendo um dos maiores roteiristas do Brasil me disseram que acharam a série impactante.

É. Mas, diferente dos meus amigos que estudaram pra escrever sobre séries, eu não passo de um pobre iletrado que fala tão somente do que gosta e nem tanto. A série é sim boa, a atriz é sensacional, mas eu sofro o diabo assistindo, e não consigo ir adiante. Essa coisa do mundo cringe de quem abre mão de toda e qualquer dignidade por carência e loucura acaba com o meu bem estar.

Eu entendo que a série navega pela complexidade de quem segue e quem, de alguma forma, topa ser seguido. Esse nosso mundo é, também, um mundo de stalkers. Eu entendo e aceito, mas, simplesmente, prefiro não.

Abraços a todos e ademã, que eu vou em frente.

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