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Abertura do FestFoto POA 2021 debate fotografia modernista brasileira

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Abertura do FestFoto POA 2021 debate fotografia modernista brasileira Julio Agostinelli. Circense. 1951. Ampliação fotográfica em papel, gelatina e prata, 29×38,1 cm. The Museum of Modern Art, New York. Adquirido generosamente de Richard O. Rieger. © 2020 Estate of Julio Agostinelli

O 14º Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre (FestFoto POA) começa no dia 23 de abril, às 19h, com um painel virtual da curadora do Departamento de Fotografia do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), Sarah Meister. A conversa, que será mediada por Sergio Burgi, coordenador de Fotografia do Instituto Moreira Salles, terá como tema a exposição Fotoclubismo: Fotografia Modernista Brasileira, 1946-1964, que o MoMA inaugura em 8 de maio – a primeira mostra no exterior dedicada ao modernismo fotográfico nacional.

A exposição reunirá 60 fotografias da coleção do MoMA, lançando um olhar sobre a produção do Foto Cine Clube Bandeirante (FCCB) no período pós-Segunda Guerra. Fundado em 1939 no salão do Edifício Martinelli, em São Paulo, o Foto Clube Bandeirante (que incorporaria o “Cine” no nome em 1945) nasce de encontros periódicos realizados na loja de artigos fotográficos Photo-Dominadora, na capital paulista, ponto de encontro de fotógrafos em meados do século 20.

Gertrudes Altschul. Filigrana. 1953. Ampliação fotográfica em papel, gelatina e prata, 34,6 x 29,5 cm. The Museum of Modern Art, Nova York. Adquirido generosamente de Amie Rath Nuttall. © 2020 Estate of Gertrudes Altschul

A instituição – que existe até hoje – surge na esteira do desenvolvimento, nas décadas anteriores, de iniciativas como salões, clubes e revistas dedicadas à linguagem fotográfica como manifestação artística. Nomes como Geraldo de Barros (1923-1998), German Lorca (1922), Gertrudes Altschul (1904-1962), José Yalenti (1895-1967), Marcel Giró (1913-2011) e Thomas Farkas (1924-2011) fizeram parte do FCCB, notabilizando-se por experimentações e pela atenção dedicada à arquitetura brasileira.

Thomaz Farkas. Ministério da Educação [Rio de Janeiro]. c. 1945. Ampliação fotográfica em papel, gelatina e prata, 32,6 x 29,9 cm. The Museum of Modern Art, Nova York. Cortesia do artista

A exposição Fotoclubismo visa apresentar ao público internacional o trabalho desses e de outros artistas que integraram o FCCB e conciliavam a dedicação à fotografia com outras atuações profissionais. A mostra – que inclui um catálogo – oferece leituras sobre o modernismo fotográfico brasileiro e reflexões sobre o status da fotografia amadora. “Por mais talentosos que fossem, o periférico e o amador carregavam consigo o inescapável almíscar da segunda classe. Esses são os preconceitos que a exposição vai abordar”, afirma a curadora da mostra em entrevista exclusiva – leia a seguir.

A curadora Sarah Meister. Foto: Scott Rudd

Como foi o processo de pesquisa para a curadoria da exposição Fotoclubismo?

Graças à iniciativa Contemporary and Modern Art Perspectives (C-MAP), do MoMA [voltada a pesquisas de história da arte fora dos Estados Unidos e da Europa Ocidental], pude viajar ao Brasil com certa regularidade a partir de 2012, quando estávamos adquirindo obras importantes para a coleção do museu. Desde então, já exibimos e publicamos várias delas, e todas serão apresentadas em Fotoclubismo. Como acontece nas mostras do MoMA, um curador apresenta uma proposta ao Comitê de Exposições e, se conseguimos persuadir nossos colegas, geralmente a exposição entra no calendário. Claro que a Covid-19 complicou tudo isso.

O texto de divulgação da mostra descreve a fotografia modernista brasileira como um “capítulo pouco estudado da história da fotografia”, embora o FCCB tenha tido inserção no circuito internacional de salões. Como você explicaria essa aparente contradição?

Em primeiro lugar, quero esclarecer que esse capítulo foi pouco estudado fora do Brasil. Há vários historiadores da arte e curadores conceituados que, há décadas, realizam trabalhos de relevância crítica no Brasil. O lapso da projeção internacional do FCCB está ligado ao início da ditadura, em 1964, e ao fato de que, naquela época, a inovação e a criatividade associadas aos fotoclubes amadores em todo o mundo já estavam em declínio.

Talvez os dois maiores preconceitos que afetaram a recepção do FCCB tenham sido crenças gêmeas sustentadas – conscientemente ou não – por especialistas das capitais culturais da Europa Ocidental e dos Estados Unidos. Primeiro, que a arte produzida nas zonas mundiais “periféricas” era necessariamente derivada – ou irremediavelmente fora de sintonia – do discurso estético da época. Segundo, que o amador, fosse em Paris, Nova York ou em cidades “periféricas” como Lagos (Nigéria) ou São Paulo, estava condenado, na melhor das hipóteses, a produzir simulacros convincentes da arte avançada de seu tempo; na pior, ocupando papel marginal, seja de forma tosca ou com finesse técnica incomum. Por mais talentosos que fossem, o periférico e o amador carregavam consigo o inescapável almíscar da segunda classe. Esses são os preconceitos que a exposição vai abordar.

Como a questão do amadorismo aparece na história da fotografia e como ela se manifesta hoje em dia?

A fotografia passou por várias épocas amadoras notáveis desde o final dos anos 1880 (quando a câmera Kodak nº 1 foi lançada). Certamente estamos vivendo isso hoje, quando parece que todo mundo tem uma câmera no bolso o tempo todo. Essas imagens digitais circulam pelo mundo com uma facilidade e velocidade inimagináveis para os integrantes do FCCB que, nos anos 1950, trabalharam incansavelmente para consolidar uma reputação de prestígio no circuito de salões amadores de fotografia. Talvez tenhamos colocado “curtidas” no lugar de fichas e selos de aprovação encontrados nos versos de muitas dessas fotografias, mas estamos fazendo a mesma pergunta: o que define uma boa fotografia? Essa exposição apresenta feitos inesquecíveis de pessoas que atuavam diariamente como contadores, eletricistas, advogados e professores, cuja produção foi aprimorada pelo espírito de camaradagem e competição do clube.

Geraldo de Barros. Fotoforma. 1952-53. Ampliação fotográfica em papel, gelatina e prata, 30 x 38,4 cm. The Museum of Modern Art, Nova York. Adquirido generosamente de John e Lisa Pritzker. © 2020 Arquivo Geraldo de Barros. Cortesia Luciana Brito Galeria

Quais experimentações do FCCB você destacaria como as mais significativas?

Geraldo de Barros é indiscutivelmente o mais conhecido dos integrantes do FCCB, ainda que os líderes do clube tenham tido dificuldades para compreender sua prática criativa singular. A revista mensal do FCCB, o Boletim Foto-Cine, relatou infindáveis detalhes sobre cada membro (de fotos de eventos sociais a gráficos informando os pontos obtidos em dezenas de concursos e salões), mas ignorou completamente a exposição individual [Fotoformas] de Barros realizada no MASP, em janeiro de 1951. A liderança do FCCB simplesmente não conseguia entender seu trabalho, era algo muito estranho.

No entanto, em outubro de 1951, o Boletim faz referência a uma “nova escola de fotografia artística”, marcando o início de um período altamente criativo em que o ethos experimental de Barros é evidente. Em 1955, o termo Escola Paulista parece ter sido amplamente adotado. Em resenha de exposição individual de Marcel Giró, o Boletim informa: “Giró é, sem dúvida, um dos principais representantes desse tipo de fotografia, que tem se destacado por seus ângulos e composições arrojadas, seus jogos de linhas, luz e sombra (um dos temas preferidos de Giró) e que a crítica tem chamado de Escola Paulista”. Embora a Escola Paulista não seja, por definição, sinônimo de FCCB, a sobreposição perfeita entre os indivíduos associados ao grupo e ao movimento os une de forma inextrincável.

André Carneiro. Trilhos. 1951. Ampliação fotográfica em papel, gelatina e prata, 29,6 x 39,6 cm. The Museum of Modern Art, New York. Adquirido generosamente de José Olympio da Veiga Pereira através do Latin American and Caribbean Fund. © 2020 Estate of André Carneiro

Conte-nos um pouco mais sobre o uso da abstração como estratégia criativa dos integrantes do fotoclube.

O FCCB estava profundamente atento aos desenvolvimentos artísticos por meio da imprensa e além das fronteiras – eu diria que a produção do fotoclube antecipou a abstração na pintura brasileira. Suas fotos foram exibidas com destaque na 2ª Bienal de São Paulo (1953-54), e eles convidavam regularmente artistas e críticos – de Waldemar Cordeiro (1925-1973) e Maria Freire (1917-2015) a Mário Pedrosa (1900-1981) e Walter Zanini (1925-2013) – para palestrar na sede do clube. Também encomendavam, traduziam e republicavam artigos de uma ampla variedade de jornais e revistas nacionais e internacionais. As cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e, a partir de 1960, Brasília foram ocupadas por edifícios de arquitetos notáveis que se tornaram fontes de inspiração. Os trabalhos dos fotógrafos do FCCB ressoam realizações contemporâneas que tiveram lugar nos Estados Unidos, na França, na Alemanha e em outros países, embora eu diria que foram realizações paralelas, e não influências.

Maria Helena Valente da Cruz. O vidro partido. c. 1952. Ampliação fotográfica em papel, gelatina e prata, 30,2 x 29,2 cm. The Museum of Modern Art, Nova York. Adquirido generosamente de Donna Redel. © 2020 Estate of Maria Helena Valente da Cruz

O FCCB realizou concursos e seminários com espaços para a crítica dos trabalhos. Qual foi a importância dessas iniciativas?

Tanto o catálogo quanto a exposição tomam como ponto de partida a cultura crítica do clube. O extenso registro das formas como eles julgavam o trabalho uns dos outros é essencial para a maneira como o abordamos hoje. A exposição apresenta em profundidade a produção de três fotógrafos: Gertrudes Altschul, Geraldo de Barros e German Lorca. O livro inclui mais três: Thomaz Farkas, Marcel Giró e José Yalenti. Ainda assim, para apreciar todo o alcance do vibrante apogeu do clube, é essencial compartilhar exemplos de trabalhos igualmente atraentes de dezenas de outros membros do FCCB que trabalharam na mesma sala de revelação, assistiram às mesmas palestras e enviaram suas fotografias aos mesmos salões. Esses trabalhos são organizados em agrupamentos derivados das temáticas dos concursos internos do clube.

Por fim, o que você está preparando para o painel de abertura do FestFoto POA?

É um tanto intimidador apresentar essa pesquisa a um público que está muito mais familiarizado com o assunto e que reconhecerá imediatamente como eu pronuncio esses belos nomes em português de forma terrível! Minha intenção é reconhecer a perspectiva de quem enxerga de fora e apresentar aspectos menos conhecidos dessa pesquisa que, espero, despertem interesse.

Sobre o FestFoto POA:

Com o tema Fotografia e Silêncio – Nuvens de Escuta, a 14ª edição do Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre concentra suas atividades e videoexposições, totalmente online e gratuitas, de 23 a 28 de abril. Até o final de maio, o FestFoto POA ainda realiza leituras de portfólio e um takeover de suas redes sociais por artistas estrangeiros. Acompanhe a cobertura dos veículos do Grupo Matinal Jornalismo e saiba mais no site do FestFoto POA.

No dia 23 de abril, às 18h30, antes do painel com Sarah Meister, o FestFoto POA apresenta as videoexposições Fotograma Livre 2021 e o canal FestFoto no YouTube.

Para mais informações sobre a exposição Fotoclubismo: Fotografia Modernista Brasileira, 1946-1964, acesse o site do MoMA.

Capa do catálogo da mostra. The Museum of Modern Art, Nova York, 2021
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sexta-feira, 23 a 23 de abril de 2021 | 18h30 - 23h00

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