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Bel Medula mescla beats e canção em “Abala Ladaia”

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Bel Medula mescla beats e canção em “Abala Ladaia” Bel Medula. Foto: Lau Baldo

Quarto álbum do projeto Bel Medula, da cantora e compositora Isabel Nogueira, Abala Ladaia ganha os palcos nesta quinta-feira (7/7), às 20h, no Centro Histórico-Cultural Santa Casa. As 12 faixas do trabalho apresentam as experimentações mais recentes da artista em torno da canção e da música eletrônica.

Abala Ladaia alcança uma linguagem de canção que é muito mais vinculada à dança, ao movimento e aos meios de produção característicos da música eletrônica do que os álbuns anteriores, nos quais aparecia o trabalho com banda, enquanto neste, o duo [com luczan] vem com mais força e transparece na concepção do show”, conta a artista – leia a entrevista a seguir.

Isabel e Luciano Zanatta (luczan) trabalharam lado a lado na composição e produção das faixas, mixadas por João Meirelles (BaianaSystem, Jadsa) e masterizadas por Florencia Saravia-Akamine.

O álbum começa com beats que remetem à banda britânica Prodigy, uma das tantas sonoridades que Isabel revisitou durante a pandemia. “Aconteceu uma reinvenção dessas referências para produzir um álbum que é, sem dúvida, o mais pesado, groovado e dançante da minha produção”, reflete a cantora, citando outras inspirações, como Chemical Brothers, Fatboy Slim e Fernanda Abreu.

As referências eletrônicas de raiz londrina seguem em A Pedra e a Vidraça e Corpo com Corpo. Em Afiador, o tradicional som que anuncia a chegada dos afiadores de facas ganha evidência, situando as reflexões sobre corpo e existência no contexto cotidiano. Em faixas como Se a Dor Ensina a Gemer o Prazer Ensina Melhor e Bom É Dois, Bel Medula dá voz ao hedonismo e à sensualidade.

O álbum mescla faixas com temáticas mais abstratas e existenciais, enquanto outra parte aborda questões da ordem dos sentidos – aspectos complementares na visão de Isabel: “Penso que as questões abstratas falam da existência, e por isso elas são muito concretas, da ordem da impermanência, da consciência da finitude, do loop constante entre vida e morte. Elas trazem para mim a questão cotidiana e profunda que é: de que vale tudo o que eu faço?”

“Nesse sentido, percebo então como um complemento esse foco na sensorialidade como elemento de materialidade: o que é concreto na existência é o corpo e suas sensações”, completa a artista, nascida em Pelotas, professora do curso de Música Popular da UFRGS, que já lançou os álbuns Pele/Osso (2019), Luna (2020) e Semente (2021) assinando como Bel Medula.

No show de lançamento, no Centro Histórico-Cultural Santa Casa, Isabel e luczan apresentarão as 12 faixas de Abala Ladaia e canções de álbuns anteriores do projeto Bel Medula, contando com projeções e iluminação cênica imersivas que combinam som, luz e movimento.

Leia a entrevista:

Como foi o processo de concepção do álbum e como se deram as parcerias com luczan, João Meirelles e Florencia Saravia-Akamine?

O álbum Abala Ladaia foi composto através de um processo de improvisação, onde eu e Luciano Zanatta [luczan] juntamos nossos sets de samplers e sintetizadores e fomos experimentando juntos grooves e sonoridades. Ao longo do processo, fixamos algumas batidas e temas e gravamos, buscando lapidar o material até chegar em sua forma final. O resultado foram gravações longas, ajustando temas e timbres e buscando reduzir para um formato de canção. Por último, vieram as letras, através de um processo de experimentação com sonoridades, ideias, fonemas e inflexões, sempre buscando a relação com a poesia e com os timbres da voz falada.

O processo com João Meirelles foi construído por meio de um diálogo sobre referências de sonoridades e buscando encontrar e dar corpo ao desejo de como eu gostaria que soasse. Buscamos a presença dos timbres graves e do clima de dança. O trabalho com Florencia também foi construído com base em um diálogo sobre o objetivo artístico do trabalho.

Capa do álbum

Como você vê Abala Ladaia em relação aos álbuns anteriores do projeto Bel Medula?

Eu pensei muito nisso enquanto trabalhava no álbum, e percebo que alguns elementos dão continuidade a preocupações artísticas que já vinham sendo trabalhadas. Outros elementos são declaração de um novo momento. A poética das canções que falam sobre corpo aparece desde os primeiros álbuns (com as canções Clitóris, Mamilo, Eu Vou Matar Estes Cães), assim como as canções com letras reflexivas sobre as motivações para os processos artísticos. Ao mesmo tempo, percebo que Abala Ladaia alcança uma linguagem de canção que é muito mais vinculada à dança, ao movimento e aos meios de produção característicos da música eletrônica do que os álbuns anteriores, nos quais aparecia o trabalho com banda, enquanto neste, o duo [com luczan] vem com mais força e transparece na concepção do show. Finalizando, todo o processo foi mais colaborativo entre Luciano e eu, dividimos o trabalho de criação e produção em um processo de troca constante que fez com que o trabalho criativo chegasse a uma proporção que ainda não havia conseguido alcançar.

O álbum traz referências dos anos 1990 e 2000. Gostaria que você comentasse essas (e outras) sonoridades que se destacam nas faixas.

Durante a pandemia, me dediquei a pesquisar referências, a praticar yoga e desenvolver a escrita criativa, a ayurveda e a escuta profunda. Ao mesmo tempo, busquei mapear minhas referências musicais, pensando no que ainda se mantinha atualizado nos dias de hoje, agregando outras que são do meu interesse neste momento. Me encontrei com sonoridades da música eletrônica, como Fat Boy Slim, Prodigy, Chemical Brothers e Dee Lite. Ao mesmo tempo, percebi ecos de artistas brasileiras que eu escutava, como Kid Abelha, Blitz, Fernanda Abreu e Rita Lee, com a estrutura de canção e os timbres de sintetizador. Kraftwerk e Laurie Anderson apareceram também, como referências cruzadas. Poderia dizer que aconteceu uma reinvenção dessas referências para produzir um álbum que é, sem dúvida, o mais pesado, groovado e dançante da minha produção.

Abala Ladaia explora questões mais abstratas e também sensoriais. Poderia nos falar um pouco sobre essa dualidade?

Esta pergunta é muito interessante porque me faz pensar se elas são uma dualidade ou um complemento. Penso que as questões abstratas falam da existência, e por isso elas são muito concretas, da ordem da impermanência, da consciência da finitude, do loop constante entre vida e morte. Elas trazem para mim a questão cotidiana e profunda que é: de que vale tudo o que eu faço? O que me motiva a escolher de que forma vou encher meus dias, todos os dias? O que vale a pena fazer, uma vez que meu tempo é incerto e limitado? Nesse sentido, percebo então como um complemento esse foco na sensorialidade como elemento de materialidade: o que é concreto na existência é o corpo e suas sensações. “O real e válido, na árvore, é a reta que vai para cima”, disse Guimarães Rosa. A árvore, a reta, a direção para cima, todos são concretos e sensórios. Lembrei desta frase, do conto lido há tantos anos, para trazer a ideia de que o abstrato para mim se constrói com base no sensorial. Ou de que o sentido é, por fim, feito e visto pelo nosso olho. Ao fim e ao cabo, a sensação é a chave, é a informação mais concreta que temos sobre o que nos acontece.

Afiador traz uma referência ao mesmo tempo cotidiana e anacrônica. Como surgiu essa faixa?

Veio de um som que é nostálgico e ao mesmo tempo muito presente na minha vida, que é o som do afiador de facas. A faixa surgiu em uma tarde, quando estava em casa e, pela janela, escutei ao longe a flauta do afiador. Desci rapidamente as escadas com o gravador e fiquei no portão. A flauta veio de longe e aos poucos se aproximou, misturada aos ruídos da rua. Aqueles breves minutos no portão do prédio, ouvindo atentamente a mistura formada pela rua e pelo afiador me fizeram viajar no tempo, pensando como aquilo era um símbolo de pertencimento para mim, e como também me oferecia uma pausa no espaço-tempo para me deixar envolver pela escuta e pelos elementos memoriais que ela traz. Trabalhei a faixa construindo os beats e ruídos que dialogam com esse canto, com a intenção de trazer uma pergunta sutil: quais os sons que fazem parte da tua memória afetiva?

Bel Medula. Foto: Lau Baldo

E o título, Abala Ladaia?

Surgiu como uma brincadeira de sonoridades, buscando articulações rítmicas da fala. Ao mesmo tempo, como uma ideia de pensar sobre o que é importante e essencial na vida, que foi uma reflexão trazida pelo momento da pandemia, quando todas as certezas ficaram abaladas. A ideia do título surgiu como um chamado à decisão, à materialização, a tornar concretas as coisas que são importantes para cada pessoa. Vem como um convite para questionar as nossas próprias certezas internas sobre tudo o que nos impede de fazer o que realmente desejamos.

Gostaria que você comentasse outros dois títulos, que parecem boas sínteses das investigações do projeto Bel Medula: Se a Dor Ensina a Gemer, o Prazer Ensina Melhor e O Sampler É uma Máquina de Inventar Tradições.

A canção Se a Dor Ensina a Gemer, o Prazer Ensina Melhor questiona clichês sobre os aprendizados na vida precisarem necessariamente passar pelo sofrimento. Essa forma de pensar às vezes naturaliza o processo de dor e violência. Talvez seja um clichê repetido por tempo demais. A ideia da canção é bem direta: fazer as coisas que te dão prazer ensina mais pra tua vida, e isso não exclui as dificuldades, mas te chama a focar no que tu faz de melhor.

Sobre O Sampler É uma Máquina de Inventar Tradições, a letra remete às teorias da história que falam sobre tradições inventadas e traz a ideia de que, no cotidiano, muitas vezes, a gente reúne e recombina pedaços de ideias, pensamentos, frases, ou seja, sampleia coisas o tempo todo. A canção trabalha também com a ideia de que nas histórias das músicas as coisas se recombinam para criar resultados que não existiam antes, e que mesmo esses elementos podem ser vistos como sampleamento.

Por fim, como será o show de lançamento do álbum?

Podemos antecipar que será um show de “dançamento”, porque o álbum tem esta pegada mais dançante e queremos trazer isso para o palco. Terá também projeções e um desenho de experiência (luz, cenário, figurino) em que vamos buscar que as pessoas se sintam dentro do espetáculo e eventualmente dancem o álbum junto com a gente. A ideia é também trazer para o espetáculo, que tem direção artística criativa de Douglas Jung, o processo que deu origem ao álbum, essa prática de improvisação com o B2B freestyle. Terão várias outras surpresas, mas aí vamos deixar para compor a experiência das pessoas que estarão lá.

Show “Abala Ladaia”, de Bel Medula
Quando: 7 de junho de 2022
Horário: 20h
Onde: Teatro do Centro Histórico-Cultural Santa Casa (avenida Independência, 75 – bairro Independência – Porto Alegre)
Ingressos à venda aqui

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