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Roberta Campos transforma o isolamento em música

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Roberta Campos transforma o isolamento em música Foto: Victor La Corte

Depois de passar o mês de outubro gravando em estúdio, Roberta Campos lançou na semana passada pelo selo Deck o EP Só Conheço o Mar, com cinco músicas inéditas e autorais. Nas faixas Cada Acorde É Seu, Meu Amor É Seu, Sentinela, Me Leve pra Voar e Tudo Vai Ficar Bem, disponíveis nas plataformas digitais, a cantora e compositora mineira relata as alegrias, dificuldades e reflexões de um isolamento a dois e também em si mesma. Todas as músicas foram compostas por Roberta – com exceção de Cada Acorde É Seu, assinada em parceria com Marina Campos.

Dividindo a produção com Sergio Fouad, a artista acaba por experimentar novas sonoridades em seu quinto trabalho, como arranjos de metais, órgão Hammond e flugelhorn, sem deixar de lado seu característico violão, que segue conduzindo as melodias. Roberta assinou a produção de alguns singles anteriormente – como Último Romance, O que É o Amor e Quase sem Querer –, mas é a primeira vez que assina um álbum inteiro como produtora.

Indicada ao Grammy Latino 2016 na categoria Melhor Álbum de MPB com o disco Todo Caminho É Sorte, Roberta Campos estreou com Para Aquelas Perguntas Tortas, álbum lançado de forma independente em 2008.

Mineira de Caetanópolis, a cantora e compositora coleciona uma pensa de sucessos: Abrigo esteve na trilha sonora da novela O Outro Lado do Paraíso, Minha Felicidade foi tema de abertura da novela Sol Nascente e Todo Dia fez parte da trilha da novela Órfãos da Terra. Já De Janeiro a Janeiro, canção gravada em parceria com Nando Reis, alcançou a marca de mais de 40 milhões de visualizações na internet e os primeiros lugares nas rádios de todo o Brasil. Roberta assina ainda parcerias com nomes como Humberto Gessinger, John Ulhôa, Fagner, Fernanda Takai e Paulo Mendonça, entre outros.

Na entrevista exclusiva a seguir, Roberta Campos comenta Só Conheço o Mar, explica seu processo de composição e reflete sobre o Brasil de hoje: “Lamento muito o rumo que tudo vem tomando. Se não começarmos a nos movimentar em direção do entendimento e ressignificar as coisas, vai ficar ainda mais distante a nossa ordem e nosso progresso”.

Foto: Victor La Corte/Divulgação

De que maneira o isolamento social influenciou nas composições e no clima musical de Só Conheço o Mar?

Eu sou uma pessoa introspectiva e eu me saio bem em momentos em que preciso ficar comigo mesma, porque eu sempre estou aqui dentro de mim, pensando, procurando porquês e conversando comigo. Este momento me trouxe um pouco mais de introspecção, mas foi muito positivo. Compus muito e vejo essas canções com mais assuntos, mesmo estando num momento em que não convivi com tanta gente e mal saí de casa. As canções foram compostas pensando em um isolamento a dois e no isolamento em mim mesma. Cada uma delas tem um universo, falam sobre cada momento do meu isolamento. As cinco canções caminham nesst período de 2020, tudo de uma forma leve e amorosa. Essa introspecção trouxe o nome do EP, Só Conheço o Mar, que está dentro da canção Cada Acorde É Seu, minha parceria com a Marina Campos, a única que divido a composição. Esse nome remete ao que nada sei sobre a vida e a tudo que sou. Ou penso ser! Porque, na verdade, o mar tem tudo dentro dele, um universo inteiro, é um organismo vivo, e conhecê-lo por completo é tarefa impossível. É a primeira vez que faço a produção de um projeto. Assino junto com Sergio Fouad. A pré-produção do EP foi feita à distância, deixamos todas as músicas bem desenhadas, entrando em estúdio com tudo muito encaminhado. Escolhi músicos da cena paulistana para colorirem essas canções e fizemos as gravações em quatro dias muito felizes no estúdio Trama NaCena, em São Paulo.

As cinco canções do EP têm arranjos com órgão Hammond e naipes de cordas e metais, incluindo flugelhorn, o que imprime uma sonoridade envolvente e camerística aos temas. Comente a respeito da instrumentação desse trabalho, por favor.

Eu quis trazer uma sonoridade mais cheia para esse trabalho. Eu normalmente uso em minhas canções arranjos mais minimalistas, mas esse trabalho me pediu uma instrumentação diferente e uma forma diferente também de colocar esses instrumentos nas músicas. Foi a primeira vez que usei um trio de metais e também o flugelhorn. As cordas já eram presentes em minhas músicas, inclusive com os arranjos do Otávio de Moraes, que, mais uma vez, fez os arranjos num trabalho meu. Desta vez eu quis que as cordas viessem cantando mais comigo. Elas fazem total sentido e me ajudam a traduzir a angústia da canção Sentinela. A novidade do trio de metais veio também para trazer uma urgência em Me Leve pra Voar. Desde que fiz a música, não me saiu da cabeça a ideia dos metais. Mandei para o Otávio uma ideia de melodia que me veio na cabeça, e dali ele desenvolveu todo o arranjo. O Hammond é um som que quase nasceu com Cada Acorde É Seu. Eu via essa música começando crua, solitária, com esse instrumento que me traz muito a sensação de uma melancolia, de saudade! O flugelhorn me veio na cabeça logo que o arranjo dessa mesma canção começou a tomar forma. Chamei o Rubinho Antunes para fazer uma gravação livre, ele é muito bom de improviso, e trouxe as notas certas para a música.

O que significou para você assinar pela primeira vez um trabalho inteiro seu como produtora?

Eu sempre tenho muitas ideias para arranjos das minhas composições e sempre levo o máximo de coisas gravadas para o estúdio. No meu disco Todo Caminho É Sorte (2015), por exemplo, tenho todas as guias que fiz na minha casa e a reprodução das minhas ideias são muito fiéis. Desta vez, eu vi que era a hora de contar que eu tenho total interferência nas minhas criações e quis de fato tomar as rédeas da produção e fazer esse trabalho com Sérgio, trazendo minha música ainda mais para mim!

A música que encerra o EP, Tudo Vai Ficar Bem, calcada em uma melodia minimalista circular e nos vocais que repetem o verso-título como um mantra, é um inequívoco voto de esperança para o nosso tempo. Você poderia falar sobre a motivação dessa canção?

Essa música fiz pensando mesmo em soar como um mantra e a intensão é que ela chegue às pessoas com essa força da esperança!
Eu sou uma pessoa muito positiva e no meu momento mais triste e complicado eu acredito que tudo vai ficar bem, sempre fui assim, é sincero. Enquanto houver vida, há de haver esperança! As outras quatro músicas têm um universo diferente, nessa eu volto muito para mim, é um convite para reflexão, além da positividade que emano na ideia da letra, melodia e arranjo!

Como ficou o cenário agora para os músicos com essa pandemia do novo coronavírus, que suspendeu temporariamente os shows presenciais ao vivo?

Ficou muito complicado. Vamos precisar ser resilientes e precisaremos nos unir. Criar novas possibilidades e oportunidades. Logo no início da pandemia, cancelei mais de 20 shows e fiz somente umas três lives pagas, estou há nove meses sem fazer shows, é muito tempo. Ainda tenho sorte de conseguir me manter com meu rendimento de direitos autorais, penso nas pessoas que não têm renda alguma. Por isso, também as ajudei como pude, fazendo lives para arrecadação de doações ou doando mesmo, silenciosamente, aqui da minha casa para instituições que eu acredito. Os shows começam a voltar timidamente, com plateia reduzida. Torço muito para que 2021 comece bem melhor, com mais tranquilidade e controle de tudo.

Estamos enfrentando também uma onda de conservadorismo e autoritarismo que por aqui é endossada pelo governo federal. Como você vê o Brasil de hoje e dos próximos anos?

O Brasil precisa de amadurecimento. Em todos os sentidos! Precisamos focar mais nas coisas que acreditamos e precisamos, o nosso povo precisa, lutar por isso. Lamento muito o rumo que tudo vem tomando. Se não começarmos a nos movimentar em direção do entendimento e ressignificar as coisas, vai ficar ainda mais distante a nossa ordem e nosso progresso.

Deck/Divulgação

Escute o EP Só Conheço o Mar aqui.

Assista ao clipe de Meu Amor É Seu:

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