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“Gauchismo Líquido”: Clarissa Ferreira desconstrói noções hegemônicas de identidade cultural

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“Gauchismo Líquido”: Clarissa Ferreira desconstrói noções hegemônicas de identidade cultural Capa de "Gauchismo Líquido"

Fruto de inquietações escoadas em textos de blog, pesquisa acadêmica e podcast, o livro Gauchismo Líquido, da violinista e etnomusicóloga Clarissa Ferreira, reúne ensaios breves que desconstroem noções hegemônicas de identidade cultural gaúcha e refletem sobre a produção artística do Rio Grande do Sul vinculada a temáticas regionais. “Comecei a problematizar questões e desconstruir alguns entendimentos, movimento que me fez repensar minha atuação como artista e como pesquisadora”, conta a autora nas primeiras páginas da obra, situando os leitores em relação à sua trajetória de aproximadamente 10 anos atuando em festivais de música gauchesca.

Foto: Vitória Proença

Lançado em 2021 pela editora Coragem, o livro conta com edição primorosa que inclui ilustrações da artista Clara Trevisan e poemas e letras de Ferreira. Parte dos textos já havia sido publicada a partir de 2014 no blog Gauchismo Líquido e como coluna quinzenal no site Sul21. O projeto inclui ainda um podcast e um programa semanal na rádio web Quero Quero.

Ao longo desse percurso, as reflexões de Ferreira fluíram para a dissertação de mestrado “Campeirismo musical e os festivais de música nativista do sul do Brasil: a (pós)modernidade (re)construindo o gaúcho de verdade” (UFRGS, 2014) e a tese de doutorado “‘Toca um jazz no galpão’: a construção de identidades profissionais e musicais na música independente contemporânea do Rio Grande do Sul” (Unirio, 2018).

Contundente sem perder a leveza, o compilado de Gauchismo Líquido oferece um panorama crítico de construções hegemônicas de identidade cultural no RS e de entendimentos sobre o que seria a “música gaúcha”, apoiado nas experiências artísticas e pesquisas de Ferreira. A obra se revela um convite à leitura de autores que há décadas investigam essas temáticas – Décio Freitas, Elizabeth Lucas, Nilda Jacks, Ondina Fachel Leal, Ruben Oliven, entre outros.

Gauchismo Líquido começa com o texto “O verdadeiro sangue gaúcho”, que  aborda a presença ancestral de populações indígenas no que hoje chamamos de Rio Grande do Sul. Em seguida, com o título “Como a música gaúcha perdeu a oportunidade de ser o gênero mais ouvido do Brasil?”, Ferreira fornece um mapa de diferentes manifestações ligadas ao nativismo, regionalismo e tradicionalismo – do Conjunto Farroupilha à tchê music, passando por bandas de baile e festivais –, destacando processos de hibridização cultural ocorridos em algumas dessas expressões.

Ferreira também reflete sobre assuntos como a participação de pessoas LGBTQIA+ nas tradições musicais do RS, as relações do tradicionalismo com a ditadura militar e ainda o racismo estrutural no estado. No texto em que aborda as críticas ao verso “povo que não tem virtude acaba por ser escravo” do hino rio-grandense – amplificadas no começo de 2021 pela bancada de vereadores negros de Porto Alegre –, a autora pontua: “Para quem não sabe, o ano é 2021 e há uma revolução antirracista em curso no Brasil. São tempos de reparações históricas estruturais. É muito importante sempre lembrarmos que as tradições são construídas e que diversas delas vão se modificando com o tempo, de acordo com a construção de sentido para as pessoas e suas épocas. Elas não são coisas sagradas: são símbolos, representações de ideais. Que ideais estamos reproduzindo?”.

A obra também lança luz sobre a representação e a participação de mulheres no meio musical do RS – um contexto marcado por letras de cunho machista, que a autora analisa em um dos textos. Esse eixo de Gauchismo Líquido tem como destaque as reflexões de Ferreira sobre as obras e trajetórias das compositoras Berenice Azambuja e Mary Terezinha. “Talvez pelo fato de Mary sempre ter sido vista como coadjuvante da história de Teixeirinha, tanto que foi apelida de ‘Teixeirinha de saias’, até hoje o engajamento social de suas canções é pouco evidenciado e valorizado pelos pesquisadores. Isso pode se dar também porque as críticas que ela faz confrontam ideologicamente a construção mítica e de representação do regionalismo”, observa a autora.

Noutra passagem, Ferreira descreve um encontro com Paixão Côrtes numa gravação do programa Galpão Crioulo, da RBS TV. Na ocasião, a violinista foi saudada pelo folclorista como “uma rabequista”. A narrativa do contato com o pesquisador e modelo da estátua do Laçador é uma síntese do olhar sagaz e contemporâneo de Ferreira – e do espaço que ela reivindica como artista e pesquisadora: “Ainda que violinista, aceito a alcunha do ser brincante. Ela evoca a leveza trovadoresca dos rabequistas, a mistura e a circulação dos contadores, cantadores, observadores do ontem e do agora; do que se construiu, descobriu e inventou, e que, por isso, também é nosso”.

Bacharela em violino (UFPel), mestra (UFRGS) e doutora (UNIRIO) em Etnomusicologia, Clarissa Ferreira já participou de diversas gravações e espetáculos ao lado de outros artistas, lançou quatro singles e atualmente produz seu primeiro álbum autoral, intitulado LaVaca. Em maio deste ano, apresentou o espetáculo Líricas Sulinas – dirigido por ela, reunindo no palco Ferreira e as musicistas Ana Matielo, Emily Borghetti, Nina Fola e Tamiris Duarte, com participações de Lia de Itamaracá e Valéria Barcellos – no Theatro São Pedro, na programação do Palco Giratório Sesc 2022.

Leia a entrevista com Clarissa Ferreira.

Como foi o processo de organização do livro?

Parte dos textos já havia sido escrita desde o surgimento do blog Gauchismo Líquido em 2014. Depois do convite da editora Coragem, feito pelo editor Thomas Vieira, entrei em um processo de separar quais textos entrariam para o livro e sobre quais temas ainda iria escrever. Os textos que entraram passaram por edições e pela revisão atenta da Luise Fialho. A criadora dos desenhos foi Clara Trevisan, que eu já havia chamado para fazer a identidade visual do Gauchismo Líquido, quando criei o podcast em 2020. Por se tratarem de linguagens diferentes, os poemas e letras de canções foram integrados posteriormente. Também foi uma ideia do editor ter essas páginas com outra formatação, em páginas pretas. A disposição dos poemas no livro vai acontecendo como aberturas e fechamentos dos textos.

Que tipos de retorno você tem de leitores e ouvintes? 

Recebo retornos de pessoas que pesquisam a cultura gaúcha e de colegas músicos que ficam instigados com as temáticas que trago. Grande parte dos retornos também vem desse lugar que passa a se sentir interessado ou representado com os temas, principalmente as mulheres.

Duas artistas ganham destaque no livro: Berenice Azambuja e Mary Terezinha.

Estudar sobre a história das mulheres foi me instigando a querer saber mais sobre essas artistas locais, como uma busca por referências, pois também estou iniciando a minha carreira como compositora e instrumentista. A Mary Terezinha nasceu na mesma cidade que eu, sempre ouvi relatos sobre como a mídia se voltou contra ela quando se separou do Teixeirinha. Me debrucei sobre as obras que elas criaram, extensas e de muita visibilidade, como um modo de pensar o que representavam e como se expressavam em seus trabalhos – e que diálogos esses repertórios trazem hoje.

Gostaria que você comentasse o texto “Nem chinoca, nem flor, nem morocha: sobre o machismo na música gaúcha”, um dos mais contundentes do livro.

Esse texto foi escrito ainda nos primeiros anos do blog – um primeiro despertar para se pensar como as mulheres muitas vezes são representadas na música gaúcha. Foi inspirado em um trabalho acadêmico que trazia tal análise. O fato é que essa tomada de consciência reverberou por muitos anos na minha trajetória como estudiosa da música, e isso me inspira a começar a compor, a construir outras narrativas que de fato nos representem, vendo a possibilidade de riqueza simbólica que se apresenta ao criar a partir desse universo. 

No prefácio, você comenta que se sente cada vez mais “outsider” em relação à cultura gaúcha hegemônica.

Acho que quis dizer isso por não participar mais dos eventos relacionados ao tradicionalismo e ao nativismo, no sentido de colocar o foco e energia nas minhas criações em outras esferas e ambientes musicais. 

Em “Tradicionalismo, tá na hora de sair do armário!”, você aborda a questão das pessoas LGBTQIA+ em espaços e manifestações ligados ao tradicionalismo. Como você vê essa participação?

Essa é uma questão fortemente debatida dentro do movimento, por vezes explicitamente proibida e por outras bem aceita. Como eu falo no texto, acho que ainda temos muito a avançar nessa pauta. Ainda impera uma forte heteronormatividade no movimento tradicionalista, marcada por papéis sociais relacionados ao gênero que são ensinados pelo próprio movimento.

Quais reflexões da sua pesquisa você destaca no que diz respeito aos povos indígenas e à população negra do estado? 

Pelo que pude constatar, baseado na pesquisa de muitos cientistas sociais e antropólogos, na constituição da cultura gaúcha que aconteceu ao longo do século 20 – por leis, ideologias e principalmente pela mídia –, houve uma escolha do que seria elencado e tido como estruturante e referencial dessa cultura. Nessa construção acabam sendo não referenciadas como deveriam, por exemplo, as identidades afro-gaúchas, por uma questão que tem tudo a ver com o racismo e as políticas de eugenia que marcaram o estado.

Por fim, gostaria que você comentasse como tem sido a experiência com o podcast.

Em 2020 fiz uma série de entrevistas sobre o conhecimento das mulheres no Rio Grande do Sul, mas foi uma curta temporada. Em abril deste ano comecei a apresentar um programa semanal ao vivo na rádio web rádioqueroquero.net e tenho disponibilizado esses conteúdos no canal de podcast do Gauchismo Líquido. Tem sido interessante experimentar essa outra plataforma e ainda assim continuar trabalhando com temas sociais a partir dos conteúdos e histórias das músicas. Convido todes a ouvirem: às terças, das 15h às 17h!

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