Artigos, Marcelo Carneiro da Cunha, Televisão

“Succession” e o amor entre bilionários

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“Succession” e o amor entre bilionários HBO/Divulgação

Ainda existem as diferenças entre o streaming e a HBO. A HBO começou com a tevê a cabo, quando ela decidiu provar que televisão poderia ter qualidade e acabou criando The Sopranos. Ela resolveu que conteúdo de qualidade era conteúdo de qualidade, independente do meio, e seguiu sendo HBO quando a tevê saiu da tevê e veio para a internet. HBO, ladies and gentlemen, é a Rolls Royce das séries; tipo quando ela passa, a gente olha, e quando ela lança a nova temporada de Succession, a gente para pra ver e pensar no que está vendo.

Famílias patriarcais, ricas e poderosas, e em que todo mundo vive indeciso quanto a se amarem ou se matarem mutuamente, não chegam a ser uma novidade. Eu creio que o Rei Lear meio que formatou esse gênero. Succession é, provavelmente, a melhor série baseada em Rei Lear desde a aposentadoria de Shakespeare.

Nessa terceira temporada, o filho mais velho da dinastia controlada por Logan Roy se revoltou contra o sistema e resolveu lavar a roupa em público, desafiando abertamente o pai. Kendall é o mais velho e, portanto, o mais parecido com o que o pai pode um dia ter sido.

HBO/Divulgação

O mais interessante em Succession é o sucesso que faz uma série em que o mais queridinho dos personagens trocaria a mãe por ações da Tesla. A ideia de que toda a história precisa de um mocinho tem que ser revista urgentemente. Logan Roy é um déspota não especialmente esclarecido, controlando boa parte do poder nos Estados Unidos por meio da sua versão de Fox News. O mais interessante é que Kendall nem mesmo é o filho mais velho de Logan. Esse lugar seria de Connor, filho do primeiro casamento do magnata com alguma pessoa. Connor nos é apresentado como um banana nada respeitado por pai ou coirmãos, e ainda assim tão abusivo e descolado da realidade humana normal quanto os demais. Os irmãos que contam, os dois rapazes Kendall e Roman, e a suave cascavel também conhecida como Siobhan, ou Shiv, combatem diariamente pelo título de pessoa mais desprezível sobre a Terra, após o pai.

O que está em jogo é o futuro da megacorporação de comunicações e entretenimento e os bilhões de dólares e o poder que vem junto. O que está em jogo, mesmo que isso não pareça tão claro, é o amor do pai, ou a preferência dele, o que dá mais ou menos no mesmo, em uma família em que nada, nada, nada deixa de ser transacional.

Para nós, seres com mais contas a pagar do que orçamento mensal, tudo soa irreal. A família mantém uma relação com helicópteros e jatos executivos semelhante à que a gente tem com a Uber. Eles nunca cozinharam na vida, e nunca pediram delivery a não ser que o restaurante inteiro e o chef viessem junto. Eles são tão acostumados com os privilégios que partem do princípio de que a família do tzar foi igual a deles, mas com muito pior controle dos seus súditos.

E aí está o fascínio de Succession. Essa visão da vida dos realmente ricos, dos realmente poderosos, e do parque temático existencial e deserto afetivo que a vida deles tende a ser.

HBO/Divulgação

Em The Crown, em que a Netflix é no mínimo tão boa quando a HBO, uma outra família, dotada de poder e riqueza e disfuncionalidade, nos é apresentada ao longo do longo reinado de Elizabeth II. A diferença, e ela é grande, é que desde que os ingleses cortaram a cabeça de um rei que passou dos limites, em 1649, a monarquia inglesa passou a atuar levando em conta a necessidade de agradar ao seu público. Os Roy nunca pensaram em agradar a quem quer que seja, e isso, de alguma forma, nos fascina.

Não torcemos por ninguém, não existe nada que possa tornar os Roy merecedores do nosso afeto ou da nossa admiração. Em Downton Abbey – lembram? –, a gente via o andar de cima e o andar debaixo, e torcíamos pelo bem contra o mal, que eram, aliás, claríssimos em quem era qual. Nada disso existe em Succession. Assistimos apenas, movidos pela curiosidade com essa vida que eles levam e que sequer imaginamos.

Já eles nunca souberam de outra forma de andar pelo mundo que não essa, a de cavalgarem o mundo. Todos conhecem os códigos, e mesmo o abilolado primo Glenn, recém chegado à corte, sabe intuitivamente qual é o jogo: adquirir algum poder e trocá-lo por um punhado de dólares.

O que me espanta mais do que tudo em Succession é a qualidade dos atores. Gente, todos são ótimos, e mesmo o irmão do Macaulay Culkin, Kieran, que faz o irmão mais ou menos tolo e amoral, Roman, sobra no papel. Brian Cox, que faz Logan Roy, já era conhecido de outras boas séries, e uma delas, desconhecida por aqui, The Straits, é uma Succession que se passa na Austrália e, para mim, é tão boa quanto, mesmo que com produção mais barata e atores nem de perto como esses.

Succession passa nos domingos, e estraga a nossa noite e a semana inteira de tanta ruindade que ela apresenta. Eu vejo, óbvio, e recomendo. Vejam.

HBO/Divulgação
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