Artigos | Marcelo Carneiro da Cunha | Série

“Fallout” sai do game para virar série de sucesso

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“Fallout” sai do game para virar série de sucesso Amazon Prime/Divulgação

A melhor série baseada em games não é mais The Last of Us, e por uma boa margem. A nova garota no pedaço, e a nova melhor série baseada em um game de todos os tempo, é a minha, a nossa, a sua Fallout, disponível na Amazon Prime.

Eu tenho um filho de 12 anos e acredito profundamente na tese de pais serem participativos, e por e com ele eu topo quase qualquer parada, mas quase. Até agora, não tive jeito de me gameficar. Até agora, tenho conseguido entender nada, a não ser os nomes, e já é muito. Portanto, nunca vi Fallout – e nunca tinha visto The Last of Us – até aparecer a série de cada um deles.

Pois, estimados amigos, parece compravada a teoria de que se consegue fazer série sobre qualquer coisa. Pois é boa, a tal Fallout. Muito, mas muito boa.

Eu continuo sem saber nada do jogo, mas desde a primeira cena você percebe que quem adaptou Fallout não estava brincando – desculpem o duplo sentido. Fallout espanta pela qualidade narrativa e pela produção, duas coisas em que os americanos são bons demais, mesmo. E pelo acerto especial em uma coisa: enquanto De Volta para o Futuro trazia um ser do nosso (então) presente até os anos 1950, Fallout traz os anos 1950 até o futuro. Funciona.

Basicamente, Fallout é contado a partir de três eixos: um de uma elite que teve tempo, dinheiro e bom senso pra construir abrigos nucleares nos anos 1950, quando parecia claro que uma guerra nuclear era pra dali a pouco; uma força guerreira que tenta estabelecer algum tipo de ordem em um mundo tomado pela distopia; e os seres da radiação, os menos sortudos que precisam se virar em uma Terra devastada pelo fallout, a cinza nuclear que se segue a uma guerra atômica.

Os anos 1950, nos Estados Unidos, foram o que eles consideram os anos dourados. A Europa e a Ásia tinham sido devastadas pela II Guerra Mundial, que eles, os americanos, haviam vencido, longe de casa. Eles saíram da guerra como o novo império mundial, e o dólar, impresso por eles mesmos, pagava tudo.

Economia pujante, uma sólida classe média e um sentimento de otimismo generalizado criaram a sensação de uma década dos sonhos, à qual eles tentam voltar continuamente, na fantasia ou na política da direita republicana.

Em Fallout, essa época se preservou em abrigos subterrâneos, que sobreviveram ao caos da guerra, preservando essa classe de humanos e seus sentimentos e valores daquela época mais simples e ingênua. Enquanto isso, na superfície contaminada, a vida segue o seu curso, na evolução desenfreada que a radiação proporciona.

Eu gosto dos achados, dos personagens, da visão de um mundo que continua, só que acabou. Como costuma acontecer em games e assemelhados – animes, por exemplo –, a distopia lá pelas tantas me parece um tanto excessiva. Claro que um mundo pós-nuclear vai ser esquisito. Mas, se é pra ser, que a distopia seja adulta, como em Blade Runner, Mad Max ou o duríssimo Planeta dos Macacos. Em Fallout, nos games, nessas artes mais infantis, a distopia me parece, hummm, infantil.

Mas, vejam e me contem o que acharam.

O que impressiona é a força deste 2024, que mal começou e já nos trouxe tanta coisa boa. Parece que a pandemia ficou mesmo pra trás e, pra quem gostar, Fallout acaba de ser renovada pra uma segunda temporada.

Até lá e ademã, que eu vou em frente.

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