Carta da Editora, Matinal

Cuidado, números na pista

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Cuidado, números na pista Por Marcela Donini* Tenho um grande amigo jornalista que se apresenta no Twitter como “pedreiro de letrinhas”. Ele é um desses excelentes repórteres que facilitam o trabalho dos editores ao entregarem matérias praticamente prontas para serem publicadas. E isso significa não só construir um texto claro, informativo e atrativo, mas fazer bem a apuração – entrevistar, ler documentos, comparar versões contraditórias etc –, que é a fundação do nosso trabalho. Sem ela, não há texto que se sustente. Mas o coronavírus tem demandado das redações uma outra espécie de jornalista, mais rara no nosso habitat: o “pedreiro de números”. Todo dia há uma enxurrada de dados relacionados à pandemia. Não é de hoje que as redações sentem falta de profissionais que saibam trabalhar com bases de dados, calcular variações e proporções, fazer correlações, interpretar números de maneira geral. Com um volume de dados disponíveis online cada vez maior e ferramentas digitais que facilitam sua análise, essa habilidade se tornou fundamental nos últimos anos. A pandemia, e a velocidade com que mudam os números que dominam o noticiário hoje, só agravou o desafio. Na ânsia de cavar uma manchete exclusiva quando, em tese, todos têm acesso aos mesmos números de casos e mortes por Covid-19 das fontes oficiais (subnotificados, não custa lembrar), um veículo pode forçar a barra. Some-se a isso o bafo na nuca do editor que quer “subir a matéria logo no site” para que ela ganhe as redes sociais de uma vez e caia no gosto dos leitores – e dos algoritmos. Nesse contexto, o repórter aquele que sempre sonhou em ser escritor e repetiu de ano por causa da matemática no colégio eventualmente vai, com o perdão do trocadilho, derrapar na curva. E levar os leitores junto. Faz parte do nosso trabalho de seleção das notícias para a Matinal News avaliar, além da relevância do tema, a consistência das matérias. Algumas ficam de fora porque entendemos que são muito especulativas ou porque detectamos alguma possível falha na apuração ou ainda entendemos que têm uma abordagem irresponsável. Duas reportagens deixadas de fora nas últimas semanas ilustram a complexidade de lidar com pautas guiadas por dados. Uma delas falava em mais mortes por doenças respiratórias nas residências do RS de acordo com dados de cartórios. Nossa equipe de reportagem já trabalhou com essa base e conhece suas falhas, que impedem calcular o efeito real do coronavírus. Além disso, refizemos o caminho de acordo com as informações publicadas na própria reportagem e chegamos a números diferentes. A outra reportagem que não veiculamos aqui falava que as mortes por Covid-19 haviam subido 43,8% em uma semana no Estado. A informação está correta de acordo com os dados apresentados na própria matéria. Mas, de saída, duas coisas me chamaram a atenção. A primeira é uma falha básica: não está informada a fonte. Sem ela não conseguimos refazer o caminho para checar os resultados. Poderia ser a Secretaria Estadual de Saúde (SES), o Ministério da Saúde ou as prefeituras. Com a ajuda da […]

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Por Marcela Donini* Tenho um grande amigo jornalista que se apresenta no Twitter como “pedreiro de letrinhas”. Ele é um desses excelentes repórteres que facilitam o trabalho dos editores ao entregarem matérias praticamente prontas para serem publicadas. E isso significa não só construir um texto claro, informativo e atrativo, mas fazer bem a apuração – entrevistar, ler documentos, comparar versões contraditórias etc –, que é a fundação do nosso trabalho. Sem ela, não há texto que se sustente. Mas o coronavírus tem demandado das redações uma outra espécie de jornalista, mais rara no nosso habitat: o “pedreiro de números”. Todo dia há uma enxurrada de dados relacionados à pandemia. Não é de hoje que as redações sentem falta de profissionais que saibam trabalhar com bases de dados, calcular variações e proporções, fazer correlações, interpretar números de maneira geral. Com um volume de dados disponíveis online cada vez maior e ferramentas digitais que facilitam sua análise, essa habilidade se tornou fundamental nos últimos anos. A pandemia, e a velocidade com que mudam os números que dominam o noticiário hoje, só agravou o desafio. Na ânsia de cavar uma manchete exclusiva quando, em tese, todos têm acesso aos mesmos números de casos e mortes por Covid-19 das fontes oficiais (subnotificados, não custa lembrar), um veículo pode forçar a barra. Some-se a isso o bafo na nuca do editor que quer “subir a matéria logo no site” para que ela ganhe as redes sociais de uma vez e caia no gosto dos leitores – e dos algoritmos. Nesse contexto, o repórter aquele que sempre sonhou em ser escritor e repetiu de ano por causa da matemática no colégio eventualmente vai, com o perdão do trocadilho, derrapar na curva. E levar os leitores junto. Faz parte do nosso trabalho de seleção das notícias para a Matinal News avaliar, além da relevância do tema, a consistência das matérias. Algumas ficam de fora porque entendemos que são muito especulativas ou porque detectamos alguma possível falha na apuração ou ainda entendemos que têm uma abordagem irresponsável. Duas reportagens deixadas de fora nas últimas semanas ilustram a complexidade de lidar com pautas guiadas por dados. Uma delas falava em mais mortes por doenças respiratórias nas residências do RS de acordo com dados de cartórios. Nossa equipe de reportagem já trabalhou com essa base e conhece suas falhas, que impedem calcular o efeito real do coronavírus. Além disso, refizemos o caminho de acordo com as informações publicadas na própria reportagem e chegamos a números diferentes. A outra reportagem que não veiculamos aqui falava que as mortes por Covid-19 haviam subido 43,8% em uma semana no Estado. A informação está correta de acordo com os dados apresentados na própria matéria. Mas, de saída, duas coisas me chamaram a atenção. A primeira é uma falha básica: não está informada a fonte. Sem ela não conseguimos refazer o caminho para checar os resultados. Poderia ser a Secretaria Estadual de Saúde (SES), o Ministério da Saúde ou as prefeituras. Com a ajuda da […]

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