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O racismo nosso de cada dia

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O racismo nosso de cada dia Em coletiva, polícia negou que houve racismo da BM em caso de motoboy negro | Foto: Gabriel Centeno/Estagiário Ascom SSP

Quando veio à tona o caso do entregador negro atacado com um canivete por um morador branco de Porto Alegre e levado no camburão, o escritor José Falero observou em suas redes sociais que o racismo por parte da polícia acontece todo dia na periferia, longe das câmeras da classe média – que no bairro Rio Branco puderam registrar o episódio.

Sei que já se falou bastante sobre o caso de Everton Henrique Goandete da Silva, mas eu ainda acho que não foi o suficiente. Não deu uma semana e a imprensa – composta basicamente por essa mesma classe média, mais branca do que preta, a exemplo da nossa própria redação – publicou mais um episódio de racismo. De novo no Rio Branco, tirando o sono dos moradores da região que, como diz o Falero em sua publicação, podiam viver a “reconfortante ilusão de que casos assim são raros”.

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Dessa vez, Rodinei Antônio Xavier foi ofendido e agredido a socos por um morador do prédio onde trabalhava como porteiro. Mais um trabalhador negro. Ele registrou boletim de ocorrência por injúria racial e disse que não quer mais voltar ao local onde trabalhou por 15 anos

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Voltemos ao caso do Everton. Ele e Sergio Kupstaitis foram indiciados por lesão corporal leve. Depois de ser atacado, Everton jogou pedras em Sérgio, segundo a polícia. O entregador ainda deve responder por desobediência, já que resistiu à prisão.

Na sexta passada, o estado anunciou que a sindicância realizada na Brigada Militar concluiu que “não houve racismo”. A corregedoria identificou apenas “transgressão da disciplina militar” por parte dos policiais ao permitirem que um dos homens subisse tranquilamente em seu apartamento para vestir uma camiseta e buscar seu documento. 

A polícia também errou ao conduzir este mesmo homem no banco de trás de uma viatura, enquanto o outro – que havia sido agredido com um canivete – estava detido no porta-malas de outro veículo. O fato de o primeiro homem ser branco e o segundo, negro, aparentemente, não teve nada a ver com a tal “transgressão” cometida pelos policiais. Deve ser mera coincidência.

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Ontem, mais um caso de racismo em Porto Alegre: um homem de 28 anos atacou uma mulher negra em um ônibus no bairro Navegantes. Depois de golpeá-la na cabeça com uma garrafa plástica, chamou-a de “macaca”. Foi preso em flagrante por racismo e lesão corporal.

Não é todo dia que um racista vai preso. Bem podia virar coisa corriqueira na mesma medida em que acontece o racismo. Em tempos de golpistas e estuprador na cadeia, dá até esperança de dias melhores. Ao menos para mim, que sou branca.


Marcela Donini é editora-chefe da Matinal.
Contato: [email protected]

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