Carta da Editora

Para que servem os títulos?

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Para que servem os títulos? Foto: Arquivo pessoal

Vocês já ouviram falar no Principado de Sealand? O micropaís foi fundado por um major britânico nos anos 1960. Ele simplesmente adonou-se de uma fortaleza abandonada e situada a 11 km da costa inglesa, em águas internacionais, e se autoproclamou príncipe. Essa é só uma das aventuras que compõem a biografia de Paddy Roy Bates, onde cabem desde uma rádio pirata que ele lançou para tocar música pop 24 horas por dia até batalhas na Guerra Civil Espanhola e na Segunda Guerra Mundial, com direito a sobreviver a uma queda de avião e uma explosão de granada alemã. Contei sua história na revista Piauí em 2012, quando ele morreu.

Como cheguei nessa figura? Pela arte. Sealand foi apresentada na 8ª Bienal do Mercosul, realizada em Porto Alegre em 2011 e onde trabalhei como mediadora. Na época, também entrevistei o príncipe Michael Bates, seu filho, que me concedeu o título de baronesa de Sealand. Te mete.

Para quê serve a honraria? Até agora, mera diversão. Se um dia eu quiser visitar a tal plataforma, certamente serei dispensada de solicitar um visto. É o mínimo que eu espero.

Na sexta-feira passada, soube que vou receber outra distinção, muitíssimo mais importante. Dessa vez, nada de príncipes ou qualquer semelhança com contos de fadas. Tem a ver com uma batalha travada diariamente aqui no Matinal.

Recebi uma ligação do procurador geral do Ministério Público de Contas do Rio Grande do Sul, Geraldo Da Camino, me informando que eu havia sido escolhida como uma das jornalistas que vão receber a comenda Guilhermino César pelo meu trabalho em defesa da liberdade de expressão.

Achei chique. Primeiro porque uma ligação telefônica em tempos de reações rápidas no Whatsapp é um baita sinal de reverência. Segundo porque, poxa, uma comenda! Agora vou querer ser chamada de Comendadora Donini, dá licença.

Gracinhas à parte, foi uma grata surpresa para fechar um dia que havia começado justamente com um texto publicado aqui neste espaço em solidariedade ao repórter Rubens Valente, condenado em uma ação sem precedentes movida pelo ministro Gilmar Mendes e num contexto de crescente perseguição e ataques a jornalistas no Brasil – cenário que também destacou o procurador Da Camino na nossa conversa.

A notícia me alegrou muito. Não vou escapar do clichê de dizer que um título como esse coroa um trabalho do qual me orgulho e me dá ainda mais ânimo para seguir adiante. Aqui nesta carta tem sido recorrente o tema do perigo das tentativas de censura, seja ela a jornalistas, artistas ou professores.

A palavra é a ferramenta mais potente que temos, todos nós. E para nós jornalistas, a liberdade para investigar é fundamental. Fico feliz em saber que contribuo de alguma forma para essa luta. Agradeço ao MPC-RS pelo reconhecimento a mim e todos que estão juntos na defesa da liberdade de expressão.

Em tempo

Ainda sobre as perseguições contra jornalistas, soube ontem que, nesta semana, Moisés Mendes venceu o “véio da Havan”. O empresário Luciano Hang tinha pedido uma indenização de R$ 50 mil por conta de um artigo de 2019 alegando que o texto o difamava. Não levou. Segundo a juíza Monica Lima Pereira, trata-se “apenas de nota com opinião do jornalista”.

Em tempo II (ou mês das mães)

O diploma de baronesa está guardado junto do meu diploma de mestrado, que me habilitou a lecionar, atividade que exerci por quatro anos. Na época da conclusão do curso, brinquei que passaria a assinar meus e-mails como Mestra em Comunicação. Brinquei porque achava um tanto pedante. Mas aí ouvi de uma amiga que devia assinar mesmo, “olha a trabalheira que deu”, me disse. Verdade. Deu tanto trabalho que o doutorado ficou pra uma próxima encarnação.

Depois do mestrado, encarei outra empreitada, e ganhei um novo título quando o Santiago nasceu, 5 anos atrás. Aprendi com a minha mãe – também jornalista – que a maternidade pode ser a coisa mais importante para uma mulher sem que isso signifique que sua vida será limitada por ela. Pelo contrário, a maternidade expande teu universo, especialmente se tu tens uma rede de apoio, privilégio que eu sempre encontrei na minha família e com o qual passei a contar também nesta redação que me acolheu já mãe – e baronesa! – há pouco mais de dois anos. Fica aqui meu muito obrigada também a todos os colegas, e a vocês, queridas leitoras e leitores, que apoiam nosso trabalho.

Tunda de laço 

A palavra é a arma mais forte que temos, repito. Mas às vezes ela não é suficiente. Nesta semana, uma frentista de um posto aqui de Porto Alegre revidou ao assédio de um cliente, que tocou nas suas partes íntimas. Não foi uma reação qualquer. Foram socos e pontapés até o cara cair no chão.

Fiquei imaginando que cada investida dela contra ele representava uma vez que eu fiquei quieta diante de uma violência contra o meu corpo. Tenho certeza que toda mulher que assistiu à cena, gravada pelas câmeras de segurança, entendeu o ímpeto da vítima. Quantas vezes na rua, numa festa ou no ônibus me calei porque fiquei envergonhada, como se a culpa fosse minha, que devia ter tapado a bunda com um moletom amarrado na cintura?

Importunação sexual é crime, desde 2018. Felizmente essa jovem de 22 anos sabe disso. Ela procurou a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher. A delegada Cristiane Ramos estimulou outras vítimas a denunciarem e garantiu: “A palavra dela tem muita importância.”

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