Reportagem

“É muito difícil ser uma professora negra na UFRGS”, diz docente vítima de agressão racista

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“É muito difícil ser uma professora negra na UFRGS”, diz docente vítima de agressão racista Professora Gláucia teve rotina alterada após sofrer racismo na UFRGS | Foto: Marcelo Pires

Em julho de 2023, quando a professora Gláucia Vaz chegava para lecionar no curso de Biblioteconomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), foi abordada por um aluno descontente com uma questão de prova. “Ele falou que eu não sabia escutar ninguém, que eu não sabia qual era o meu lugar. E que, ainda que fosse uma mulher – ele usou isso: ‘uma mulher loirinha dos olhos azuis’ –, eu continuaria sendo perseguida e odiada pelas pessoas”, relatou a docente, à época. Gláucia, uma mulher negra, denunciou o ataque racista.

Sete meses depois, a comissão que conduzia o Processo Disciplinar Discente deliberou pela expulsão do aluno por “incitação e prática de assédio com destaque para racismo e misoginia”. Esse inquérito foi aberto somente em outubro, três meses depois da agressão – a investigação foi anunciada algumas horas depois de um protesto no qual estudantes, professores e funcionários exigiram providências da universidade.

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“A mídia tem repercutido a violência praticada por esse aluno, porém ninguém conhece as outras violências perpetuadas dentro da instituição após este ato”, afirmou Gláucia, em um relato enviado à Matinal na última sexta-feira. Ela conta que se vê institucionalmente desamparada e que tem vivido “dias horríveis”.

Segundo a professora, até o momento, não houve qualquer manifestação de apoio por parte da unidade na qual trabalha. Em suas palavras, a preocupação da universidade parece estar mais voltada para uma “imagem institucional” do que para a segurança e bem-estar de uma mulher negra ameaçada dentro do prédio de uma universidade pública.

Desde a manifestação dos alunos em outubro, Gláucia tem trabalhado sob um esquema de segurança, que, de acordo com o que relata, só foi oferecido pela própria UFRGS após a exposição do caso na mídia. Ela lamenta a falta de preocupação dos gestores em relação à sua tranquilidade, destacando que, antes disso, eram os próprios estudantes que a informavam sobre a presença do aluno responsável pelo ato racista no campus. A falta de apoio não se restringiu apenas à docente, pois estudantes também foram afetados pela violência e correram riscos.

Ela destaca o desgaste emocional causado por ter que informar constantemente seus passos à equipe de segurança. “Agora imagine como é sair para trabalhar todos os dias tendo que informar para uma equipe de segurança sobre seus passos, sobre alterações de horários ou se estarei em evento fora de horário rotineiro na universidade. Esse trabalho ofertado pela segurança foi e é importante para que eu conseguisse retornar à sala de aula, mas é emocionalmente extremamente desgastante pra mim. Vejo como absurdo o fato de uma professora universitária de uma instituição de renome, viver e trabalhar sob tensão para que o praticante de um crime siga circulando tranquilamente”, desabafou. “É muito difícil ser uma professora negra na UFRGS.”

Questionada pela reportagem, a UFRGS não se manifestou até o fechamento deste texto. O espaço segue aberto.

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