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Um ano de escolas fechadas: relatos de mães revelam fracasso do EAD na Capital

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Um ano de escolas fechadas: relatos de mães revelam fracasso do EAD na Capital Genesi Flores conta com a solidariedade de terceiros e tenta se equilibrar entre a falta de dinheiro e os desafios do ensino remoto dos filhos (Foto: Acervo pessoal)

Na rede estadual, famílias não conseguem acessar a plataforma digital do governo e são pressionadas pelas escolas para garantir frequência mínima; assiduidade é requisito para benefícios sociais

Entre as tantas responsabilidades que pesam sobre as mulheres, a pandemia impôs uma em especial àquelas com filhos: o manejo da educação das crianças com as escolas fechadas. A diarista Genesi Flores, moradora do bairro Medianeira e integrante da comunidade do Quilombo da Família Flores, em Porto Alegre, passou o ano de 2020 equilibrando-se entre a falta de dinheiro, as possibilidades escassas de trabalho e o risco de ser contaminada pelo coronavírus. 

Esta entrevista, inclusive, foi feita em um dos momentos de descanso da dura rotina que ela tem enfrentado para cuidar da mãe, que contraiu Covid-19 e ainda luta contra as sequelas da doença no hospital. “O único que conseguiu acessar a plataforma foi o meu filho mais velho, de 15 anos. Nunca foi fácil, cheguei a pedir dinheiro emprestado para botar crédito no celular para ele acessar. Mas ele não entendia as matérias, e os professores não conseguiam explicar de longe. No fim ele disse que se sentia fraco, que não aprendia, e que queria desistir”. 

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Genesi ilustra o drama de milhares de famílias que há um ano tiveram de lidar com os filhos fora da escola. No dia 19 de março do ano passado, o governador Eduardo Leite (PSDB) suspendeu as aulas da rede estadual pela primeira vez, seguindo o exemplo do então prefeito Nelson Marchezan Jr que, na mesma semana, havia cancelado as aulas em escolas públicas e privadas da Capital. Ao longo de praticamente todo o ano passado, Genesi lutou para manter o aprendizado dos dois filhos – o adolescente de 15 foi o mais complicado, mas o menor, de 10, também enfrentou dificuldades com o ensino remoto. Com pouco apoio da escola para o mais velho, ela e outras mães cobraram a realização de trabalhos de recuperação, o que possibilitou a aprovação. Para garantir o ensino do filho caçula, a mãe tinha que buscar o material didático na escola e, por vezes, chegava a receber tarefas com mais de cem folhas no celular, para imprimir. “Nem sempre a escola tinha folhas impressas. E fica difícil imprimir ou receber tudo pelo celular, falta crédito”, lamenta. 

Líder comunitária do Quilombo dos Machados, na zona Norte de Porto Alegre, a faxineira Tamires da Silva conta que o filho, de nove anos, cumpriu as atividades remotas no ano passado, mas não quer voltar para a escola em 2021. A caminho do quarto ano, o menino ainda não consegue ler a contento, o que desencoraja o engajamento. 

Outras urgências

Aos problemas pedagógicos enfrentados pelas famílias, somam-se outras urgências, como no lar de Tamires, que está há meses sem trabalho. Em casas que mal têm água e luz, internet para acessar a plataforma de ensino é artigo de luxo. Com as atividades em mãos, após apanhá-las na escola, mais um obstáculo: cercados de adultos pouco escolarizados, os alunos não encontram reforço para o aprendizado. Muitas vezes, porém, o problema nem chega nesse estágio. Antes de encontrar alguém para ajudar os filhos com as lições, os quilombolas precisam resolver uma questão bem mais básica e urgente: a alimentação.

“A pressão, hoje, é com a alimentação. O desemprego é muito grande, e a ajuda custa a chegar. Não queremos aulas presenciais agora, sem vacina, mas muitos pais vão mandar as crianças quando a escola voltar, só pela merenda”, alerta. Ela conta que as prioridades na comunidade são, além de garantir comida para todos, reforçar a importância da higiene das mãos e do uso da máscara e combater as aglomerações – tarefa dificílima, já que as famílias são próximas, e as crianças acabam se encontrando. O ensino é uma preocupação que, em muitos casos, perde importância diante de desafios mais urgentes.

Ao reivindicar os alimentos correspondentes à merenda escolar, a comunidade encontra empecilhos como a vinculação ao cadastro no Bolsa Família ou à frequência do aluno nas atividades remotas. Muitas famílias já foram denunciadas ao Conselho Tutelar pela baixa adesão das crianças às atividades, o que pode levar à suspensão de benefícios sociais, conforme prevê a lei que instituiu o Programa Bolsa Família. 

Mensagens enviadas por professoras para famílias com filhos matriculados na rede estadual reafirmavam a necessidade da entrega das tarefas de forma online para garantir a presença do estudante e citavam que as ausências seriam informadas à secretaria estadual e ao Conselho Tutelar. Cientes da legislação, as mães sentiam-se ameaçadas pela pressão por realizar as atividades. “Precisamos da parceria da escola, para que nos ajude. De que adianta o conselheiro vir cobrar o ensino se a família não tem sabonete para lavar as mãos ou comida para o aluno?”, questiona Tamires. 

Mensagens recebidas por uma mãe quilombola

Mais demanda no Conselho Tutelar

Na intermediação entre as famílias e as escolas, o Conselho Tutelar de Porto Alegre viu a demanda aumentar no segundo semestre de 2020. Diante dos problemas com a participação dos alunos nas aulas pela plataforma e dos atrasos na entrega das tarefas, as escolas passaram a acionar o Conselho, como é a praxe em caso de abandono ou infrequência escolar. “Ao bater na casa das pessoas, me deparava com pais e mães esgotados, chorando, tendo que lidar com trabalho online, com escolas mandando horrores de tarefas que inclusive exigiam compras de material. Muitas mães estavam desesperadas, pois não sabiam como ensinar os filhos”, revela a coordenadora da Comissão de Educação do Conselho Tutelar de Porto Alegre, Márcia Gill Rosa. A intolerância com a sobrecarga materna atravessa diferentes classes sociais (leia aqui a reportagem sobre o caso de Cristina Machado, mãe de classe média que foi denunciada pela escola do filho ao Conselho e ao Ministério Público por mau desempenho nas atividades online).

De acordo com Rosa, a orientação do Conselho era que as escolas fizessem a busca ativa das famílias para compreender os problemas que levaram à infrequência ou ao atraso na entrega das atividades. No entanto, com muitas escolas fechadas, sem horário pré-determinado para atendimento, e com profissionais em isolamento, essa busca ficou prejudicada.

A Lei 10.836, que instituiu o programa Bolsa Família, determina que os beneficiários precisam garantir que crianças e adolescentes entre seis e 15 anos tenham frequência escolar mínima de 85% da carga horária mensal, enquanto alunos de 16 e 17 anos devem apresentar frequência escolar mínima de 75% – em caso de descumprimento, o benefício é suspenso. Segundo Rosa, essa vinculação do benefício à frequência já está internalizada, o que gerou ainda mais desespero das famílias em situação de vulnerabilidade. 

Em regiões como a Restinga, por exemplo, ficou evidente o descompasso entre as necessidades das famílias e os desafios do ensino remoto. A conselheira da Microrregião 7, Denise Andreoli, relata que muitos pais optaram por deixar os filhos fora da escola por serem incapazes de transpor as dificuldades impostas pelo modelo. “Muitas famílias têm um celular para quatro, cinco pessoas. Algumas mães, além de trabalhar e manejar o cuidado com os filhos em casa, tinham que buscar atividades na escola porque não conseguiam acessar a plataforma. Vi casos da mãe ter que imprimir cem folhas ou mais para a leitura e as atividades. Muita gente desistiu e preferiu deixar os filhos fora da escola no ano passado”, afirma.

Sem solução

Um ano de dificuldades impostas pelo fechamento das escolas fechadas e o ensino remoto não foi suficiente para o governo do Estado rever seu plano de ação. Questionada sobre qual a orientação dada às escolas para lidarem com problemas de acesso à internet e os percalços das famílias na realização das atividades em casa, a Secretaria de Educação do Estado do Rio Grande do Sul (Seduc) limitou-se a informar que a frequência escolar é medida pela entrega das atividades via plataforma Google Sala de Aula ou em materiais impressos entregues nas escolas mediante agendamento. Não disse, porém, como os alunos devem executar as tarefas em casa sem a ajuda ativa de um professor. 

Já a Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre (Smed) explicou que a “Coordenação do Programa Bolsa Família, em conjunto com Estados e Municípios, têm tomado medidas para que as famílias beneficiárias não sejam prejudicadas”. Segundo a pasta, houve alteração nos calendários de revisão cadastral e não há obrigatoriedade de frequência escolar. 

Em resposta via e-mail, a Smed garantiu que não houve desligamento de famílias do Bolsa Família por infrequência dos alunos. O Cadastro Único para beneficiários de programas sociais do Governo Federal, como o Bolsa Família, é coordenado pelos municípios. Smed e Seduc afirmaram ainda que seguiram a orientação do Conselho Nacional de Educação de não reprovar alunos em 2020. 

Até o momento, a rede municipal não trabalhou com ensino online. A orientação dada às famílias era buscar as tarefas impressas nas escolas. Mas os atendimentos presenciais foram prejudicados em casos de instituições que chegaram a fechar as portas por falta de condições sanitárias, como ocorreu na EMEF José Loureiro da Silva em setembro de 2020. A rede municipal conta com cerca de 300 instituições, entre escolas do Município e instituições infantis conveniadas. A Smed informou ainda ter adquirido, em 2020, 2.670 Chromebooks, 125 desktops e 42 estações de recarga móvel. Também foram adquiridos, segundo a Secretaria, pacotes de dados para todos os 68 mil alunos da educação básica, a partir de agosto, por seis meses, renováveis por mais seis. Sem informar detalhes, a Smed disse estar trabalhando em uma nova ferramenta para o atendimento dos alunos enquanto o retorno às aulas presenciais não é possível. 

Sobre a distribuição dos alimentos para a garantia da segurança alimentar dos estudantes, a Seduc informa que adquiriu e entregou, para as famílias dos estudantes da rede estadual, mais de 184 mil kits de alimentação escolar, totalizando 4,5 mil toneladas de mantimentos com um investimento de R$ 20,7 milhões em 2020. Segundo dados do Censo Escolar 2020, a rede estadual conta com 803,7 mil estudantes em todo o Rio Grande do Sul. A Smed disse que a distribuição de cestas básicas em substituição à merenda escolar segue critérios sócio-econômicos e é coordenada pelas diretorias das escolas, que têm mais conhecimento das comunidades, mas não informou o número de cestas distribuídas.

Responsabilidade compartilhada com a família

Para a presidente do Cpers/Sindicato, Helenir Aguiar Schürer, a escola sempre cobrou mais participação da família no processo educacional – a diferença é que em 2020 essa participação foi compulsória em função da necessidade do fechamento das escolas. Segundo ela, as cobranças por frequência e entrega de atividades ocorreram para que os estudantes pudessem desenvolver melhor os conteúdos. “Os professores também estão vivendo momentos de grande sacrifício, estão se reinventando, tendo que virar youtubers. Mas é um sacrifício necessário, pois voltar agora é impossível. Não há segurança diante da situação da pandemia”, salienta.

Seguindo a orientação do Conselho Nacional de Educação, Schürer confirma que os alunos não foram reprovados, salvo aqueles que abandonaram completamente o ensino remoto. Mesmo para quem esteve infrequente, as escolas fizeram a busca ativa nas comunidades para a aplicação de atividades de recuperação, com o objetivo de salvar o ano letivo. 

A presidente do Cpers alerta, porém, que o aprendizado ficou prejudicado e, para que pelo menos parte do déficit de aprendizagem seja solucionado, será necessário um grande projeto de reforço para que as crianças e jovens aprendam os conteúdos perdidos. Ainda de acordo com Schürer, cerca de 88% dos estudantes da rede estadual acessaram a plataforma online de ensino em 2020.

Mesmo reconhecendo os problemas que a educação remota acarreta em famílias, professores e estudantes, a presidente do Cpers afirma que, antes da vacinação da comunidade escolar, o retorno oferece um risco altíssimo. “É um momento de sacrifício. Temos que lutar pela vacina para preservar as vidas de todos, inclusive dos jovens”, completa.

Solidariedade e espera pela vacina

Tamires e outras cerca de 100 famílias não querem mandar os filhos para a escola antes da chegada das vacinas para toda a comunidade escolar – os quilombolas adultos já foram vacinados, mas jovens, crianças e os professores e funcionários das escolas ainda não. Já temiam a Covid-19 antes do colapso do sistema público de saúde. Agora, o medo é ainda maior. Assim como ela, muitas mães e pais da comunidade amargam os efeitos da pandemia na educação dos filhos e também no orçamento de casa. Mesmo assim, garantem que só aceitam a volta às aulas quando a comunidade escolar estiver vacinada. “Eu tomei vacina, mas meu filho não. Os professores também não. Como vamos estar seguros assim?”, questiona. 

Enquanto a vacina não chega, o Quilombo dos Machado mantém forte a organização para arrecadar doações e reforçar a segurança de quem segue trabalhando. As cestas entregues pelas escolas não são suficientes para suprir as necessidades das famílias que perderam suas fontes de renda. “Precisamos de uma parceria maior com o poder público. A educação é fundamental, mas a alimentação também é”, completa Tamires. 

A situação das crianças quilombolas de Porto Alegre é exemplo do que acontece em todo o mundo hoje. O fechamento de escolas já afetou 370 milhões de crianças que deixaram de receber 40% das refeições, feitas nas instituições de ensino, segundo levantamento das Nações Unidas divulgado no final de janeiro. Para muitas delas, a comida oferecida pela escola era a única fonte de alimentação. 

Apesar dos programas de segurança alimentar que manejam a entrega dos alimentos correspondentes à merenda escolar, coordenados pela Prefeitura e pelo Estado, a entrega das cestas pelas escolas nem sempre foi regular, segundo Genesi, o que representa mais uma preocupação para a família, já fragilizada pela falta de dinheiro e trabalho. E a perspectiva, infelizmente, não é a melhor. “Como vai ser esse ano? Já optamos por não mandar as crianças para a escola, mesmo que voltem as aulas, antes da vacinação. As pessoas estão morrendo, não queremos morrer. Tomara que não seja mais um ano perdido para eles”, completa. 

Suspensão de aulas presenciais divide as famílias no RS

Com a pandemia em aceleração, a ameaça das novas variantes e a vacinação em massa ainda distante, as famílias e, em especial, as mulheres pedem socorro. Algumas exigem a reabertura das escolas, mesmo com o cenário de bandeira preta e altíssimo risco de contágio pelo coronavírus, como é o caso do movimento Lugar de Criança é Na Escola, que realizou carreata em Porto Alegre no início de março pedindo a reabertura das escolas mediante o cumprimento de protocolos sanitários de prevenção.

Os prejuízos de um ano com escolas fechadas é maior na América Latina e no Caribe do que no resto do mundo. Dados publicados pelo Unicef no início de março demonstram que vivem nessas duas regiões 60% das crianças e adolescentes que perderam um ano de educação presencial no mundo, em função da pandemia. Em média, as escolas latino-americanas e caribenhas ficaram totalmente fechadas por 158 dias entre março de 2020 e fevereiro de 2021, enquanto a média no resto do mundo é de 95 dias. A Unicef estima ainda que muitos alunos sem acesso à internet e sem possibilidade de ensino remoto ou domiciliar jamais voltarão a ocupar um banco escolar.

Mas o retorno às aulas presenciais está longe de ser consenso. Para a Associação Mães e Pais pela Democracia (AMPD), as aulas não podem retornar enquanto a pandemia não estiver controlada por meio das vacinas, com queda sustentada na curva de contágio. “É claro que queremos nossos filhos na escola. Mas não podemos ignorar o pior momento da pandemia, os riscos que a volta às aulas sem vacina e sem controle da Covid-19 representa. Por isso pedimos lockdown rigoroso de 21 dias, auxílio para quem fica sem renda, garantia de salários, crédito para as escolas e, claro, vacinação urgente”, afirma a presidente da Associação, Aline Kerber. No final de fevereiro, a Justiça acolheu uma liminar solicitada em conjunto pelo Sindicato dos Professores do Ensino Privado (Sinpro), Cpers e AMPD, suspendendo o retorno das aulas presenciais no Estado. No início de março, o Supremo Tribunal Federal negou um recurso da Procuradoria Geral do Estado, mantendo a suspensão, mas na última terça-feira os deputados gaúchos aprovaram um projeto que reconhece o ensino das redes pública e privada como atividade essencial. Os estabelecimentos de educação infantil, ensino fundamental e o apoio pedagógico aos estudantes tornam-se essenciais, mas sem a obrigatoriedade de retorno às aulas presenciais de imediato.

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