Parêntese, Porto Alegre: uma biografia musical, Série As Origens

Arthur de Faria: série As Origens, Parte XVII

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Arthur de Faria: série As Origens, Parte XVII Da Belle Époque à Era dos Jazz “Após a Primeira Guerra Mundial, cristalizaram-se, a partir da América do Norte, dois elementos fundamentais no crescente setor de lazer dos países do mundo ocidental: o cinema e os salões de dança animados por jazz bands. Esta nova expressão disseminou-se de tal forma que a década de 20 foi, por obra do escritor Scott Fitzgerald, chamada de Era do Jazz”.Zuza Homem de Mello, em Música nas Veias: Memórias e Ensaios (2007, Editora 34) Era 1900 e, em determinado momento daquele ano, o quase menino Octavio Dutra acabava de dar os últimos retoques em sua primeira composição, singelamente intitulada Valsa Nº 1. Uma valsa brasileira, gaúcha, porto-alegrense. Sem que ele pudesse imaginar, nesse exato instante estava sendo parido o século XX na música de sua cidade. (Ok, ok, a gente sabe: o século XX começa em 1901, mas não dava pra perder essa licença poética e, sim, o sem-graça mandou lembranças.) * * * O Rio Grande de São Pedro adentrava a nova centúria com 1.149.070 habitantes. Um décimo era de estrangeiros em busca de uma vida melhor neste que era o terceiro poder político e econômico da Federação, perdendo apenas para Rio e São Paulo. Os três estados reuniam 60% das indústrias e metade do minúsculo eleitorado nacional – só votava quem sabia ler e escrever (de cada 10 gaúchos, sete não sabia). Porto Alegre, então a sexta cidade brasileira em população, tinha 73.274 habitantes – a primeira era o Rio de Janeiro, depois vinham São Paulo, Salvador, Recife e Belém do Pará. No dia 24 de outubro de 1903 morria uma das maiores figuras – para o bem e para o mal – que a política do Estado já pariu: Júlio de Castilhos. Tinha 43 anos e um câncer na garganta. Obsessivo apóstolo do positivista Augusto Comte, Júlio foi o grande patriarca de uma tradição que se sedimentava desde 1898, com seu discípulo Borges de Medeiros. Como presidentes do Estado pelo PRR, Partido Republicano Riograndense, os dois exerceriam seu absolutismo quase imperial por 37 anos – com uma mistura bizarra de lisura administrativa e fé cega, que justificava perseguir, matar e cometer as mais variadas barbaridades. Durante sua vigência, pelo menos dez mil cidadãos tiveram de emigrar para países ou estados vizinhos pra salvar a pele. Afinal, o lema de Castilhos era: para os correligionários, tudo; para os adversários, a lei – na prática, aos opositores não restava nem ao menos esta última opção. Júlio de Castilhos e família. Foto: Domínio público * * * As bandas de música eram as grandes atrações dos coretos de todas as praças dignas desse nome, encarregando-se da maior parte da trilha sonora pré-rádio e pré-disco. Radamés Gnattali, nascido no bairro do Bom Fim em 1904, lembrava, 70 anos depois:  Naquele tempo, em Porto Alegre, eu não ouvia música, só tocava. Tocava Villa-Lobos, Nazareth, meu pai comprava tudo [em partituras, claro]. Ouvir, mesmo, só muito tempo depois, com 24, 25 anos, quando já tinha vitrola. Ver a banda tocar nos finais de semana era programa obrigatório. […]

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Da Belle Époque à Era dos Jazz “Após a Primeira Guerra Mundial, cristalizaram-se, a partir da América do Norte, dois elementos fundamentais no crescente setor de lazer dos países do mundo ocidental: o cinema e os salões de dança animados por jazz bands. Esta nova expressão disseminou-se de tal forma que a década de 20 foi, por obra do escritor Scott Fitzgerald, chamada de Era do Jazz”.Zuza Homem de Mello, em Música nas Veias: Memórias e Ensaios (2007, Editora 34) Era 1900 e, em determinado momento daquele ano, o quase menino Octavio Dutra acabava de dar os últimos retoques em sua primeira composição, singelamente intitulada Valsa Nº 1. Uma valsa brasileira, gaúcha, porto-alegrense. Sem que ele pudesse imaginar, nesse exato instante estava sendo parido o século XX na música de sua cidade. (Ok, ok, a gente sabe: o século XX começa em 1901, mas não dava pra perder essa licença poética e, sim, o sem-graça mandou lembranças.) * * * O Rio Grande de São Pedro adentrava a nova centúria com 1.149.070 habitantes. Um décimo era de estrangeiros em busca de uma vida melhor neste que era o terceiro poder político e econômico da Federação, perdendo apenas para Rio e São Paulo. Os três estados reuniam 60% das indústrias e metade do minúsculo eleitorado nacional – só votava quem sabia ler e escrever (de cada 10 gaúchos, sete não sabia). Porto Alegre, então a sexta cidade brasileira em população, tinha 73.274 habitantes – a primeira era o Rio de Janeiro, depois vinham São Paulo, Salvador, Recife e Belém do Pará. No dia 24 de outubro de 1903 morria uma das maiores figuras – para o bem e para o mal – que a política do Estado já pariu: Júlio de Castilhos. Tinha 43 anos e um câncer na garganta. Obsessivo apóstolo do positivista Augusto Comte, Júlio foi o grande patriarca de uma tradição que se sedimentava desde 1898, com seu discípulo Borges de Medeiros. Como presidentes do Estado pelo PRR, Partido Republicano Riograndense, os dois exerceriam seu absolutismo quase imperial por 37 anos – com uma mistura bizarra de lisura administrativa e fé cega, que justificava perseguir, matar e cometer as mais variadas barbaridades. Durante sua vigência, pelo menos dez mil cidadãos tiveram de emigrar para países ou estados vizinhos pra salvar a pele. Afinal, o lema de Castilhos era: para os correligionários, tudo; para os adversários, a lei – na prática, aos opositores não restava nem ao menos esta última opção. Júlio de Castilhos e família. Foto: Domínio público * * * As bandas de música eram as grandes atrações dos coretos de todas as praças dignas desse nome, encarregando-se da maior parte da trilha sonora pré-rádio e pré-disco. Radamés Gnattali, nascido no bairro do Bom Fim em 1904, lembrava, 70 anos depois:  Naquele tempo, em Porto Alegre, eu não ouvia música, só tocava. Tocava Villa-Lobos, Nazareth, meu pai comprava tudo [em partituras, claro]. Ouvir, mesmo, só muito tempo depois, com 24, 25 anos, quando já tinha vitrola. Ver a banda tocar nos finais de semana era programa obrigatório. […]

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