Diário da espera

Não, você não sabe do que se trata

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Não, você não sabe do que se trata

Manhã cinzenta e morna, sexta-feira, 7 de agosto. Eu sei que é estranho começar um texto com a data, acho que não fazia isso desde a quarta série. Mas a data aqui faz todo o sentido, por que vou escrever sobre o hoje e os ontens, não faço ideia de como será amanhã. Não imagino sequer como será a tarde. O instante é de relativa calma. Tanto que estou em casa, como tenho estado há meses, tomando mate no conforto da mesa de trabalho.

Há pouco mais de 15 dias, minha mãe testou positivo para o Sars-Cov-2, essa peste desgraçada que a gente chama de covid, corona, coronga ou, como dizemos para o meu sobrinho, naquela linguagem infantil que ele ainda não entende, “conona”. Portadora do Mal de Alzheimer há mais de 15 anos e sofrendo com o agravamento das consequências físicas do Parkinson, a mãe é a vítima perfeita. A contaminação veio justamente em um momento em que ela fazia uma pneumonia por aspiração de líquidos, o que é relativamente comum na condição dela. O que já estava ruim, piora a cada dia. Enquanto escrevo, sei que ela passou a noite relativamente bem, sem as crises de broncoespasmos que a têm castigado desde que os sintomas da Covid-19 se intensificaram. Teve só um pouco da costumeira febre.

Há cinco anos, a mãe mora em um residencial geriátrico em Porto Alegre, cidade onde vivo. A família toda mora em Rio Grande, mas quando a condição dela passou a exigir acompanhamento constante, optamos por um residencial em Porto Alegre, com mais estrutura dos que, à época, existiam na nossa cidade natal. Desde então, minha rotina incluía, quase todos os dias, a visita à mãe, que já não me reconhecia mais, mas identificava de pronto o som da minha voz – ainda hoje, mesmo na sua condição tão fragilizada, abre os olhos e olha na minha direção quando falo com ela. Boto pra rodar a playlist dela no meu celular, com as canções da Jovem Guarda, do Roberto Carlos e os boleros de que tanto gosta. Ela ainda ama música.

Desde o começo da pandemia, protocolos rígidos foram adotados no residencial. Eu e os demais familiares passamos mais de três meses distantes dos nossos amados, para protegê-los. Rituais de higiene, testagem e até transporte particular para os funcionários foram providências para tentar afastar a ameaça. O descontrole da epidemia em Porto Alegre, com altíssima taxa de contágio, no entanto, pôs tudo a perder. E assim o coronavírus chegou à Dona Carmen.

Na real, todo esse preâmbulo vai para dizer que tu, leitor, não faz ideia do que é a Covid-19. Primeiro: se ao ler sobre a pré-condição da mãe tu pensou ah, mas ela é idosa, grupo de risco, tem doença degenerativa, blablablá, segura. Não repete em voz alta, que é feio. Em respeito a mim e a ela, não relativiza. Ela está viva, é um ser humano, é minha mãe. O fato de ela ter uma penca de comorbidades não torna a infecção dela aceitável, não torna isso uma “coisa da vida”.

Devido justamente à condição dela, sei que a tal Escolha de Sofia nunca vai pesar a seu favor. Por sua fragilidade, optamos, eu e o médico responsável por ela, por tratá-la no próprio residencial. E isso me provou que, de fato, ninguém faz a mínima ideia do que é a Covid-19. Com os doentes graves internados em leitos de enfermaria ou UTI, os familiares ficam alijados de tudo o que ocorre no curso da doença – o que é uma tristeza, uma angústia que eu nem consigo avaliar. Abracei com gratidão a oportunidade de estar com ela durante esse enfrentamento, munida de EPIs e do sangue frio que me caracteriza. Hoje faz parte da minha rotina vestir e retirar camadas de equipamentos, ter a pele do rosto marcada pela máscara, os cabelos ressecados pelas frequentes lavagens com sabonete. Repetidas vezes acompanho o médico e a equipe de enfermagem. A fisioterapeuta generosamente me deixa ter a ilusão de ajudá-la com a mãe, de vez em quando. Duas ou três vezes por dia ela volta ali, para os mesmos movimentos precisos. Com suas mãos, devolve o ar aos pulmões da mãe. E aos meus. Ao ver tudo isso, repito: tu não faz ideia do que se trata.

Uma crise de broncoespasmos, sabe como é? O pulmão bugando, saturação caindo no oxímetro e a pessoa fazendo um esforço enorme pra respirar, mesmo com a máscara de oxigênio no rosto. Nebuliza, aspira. Sabe o que é aspirar? É retirar secreção do pulmão mecanicamente, por meio de uma sonda introduzida pelo nariz e pela boca. Chama a fisio às pressas, para fazer os movimentos certos naquele corpo debilitado, obrigando a secreção a subir para ser aspirada. Respiração acalma, mais uma crise chega ao fim. Pico de temperatura alta, esse é fácil, todo mundo conhece. Em meia hora, o termômetro marca quase 40. A equipe de enfermagem corre, administra medicamento, monitora, nebuliza, aspira de novo. Troca a roupa molhada de suor. Ao fim de um dia exaustivo, o médico chega para avaliar e presencia mais uma crise. É difícil entender, ali não tem exames de imagem, por exemplo, que poderiam ajudar. Mas ele é experiente, observa, ausculta, reflete. Troca os antibióticos, aumenta a dose de corticoides, estuda broncodilatadores. Não desiste jamais. Médico, fisioterapeuta, enfermagem e cuidadores, todos celebram a mínima conquista. Eu também comemoro, mas com medo de ter esperanças.

O que se passa com os profissionais de saúde, aliás, também é difícil imaginar. Muitos dos que hoje cuidam da mãe já enfrentaram o coronavírus: tiveram dores, falta de ar, diarreia, angústia, pânico, tristeza, depressão. Quem ainda não teve, engole o medo e segue em frente, para cuidar dela e dos outros doentes. É comovente presenciar o carinho, a preocupação, a dedicação com que eles brigam, ao lado dela, contra essa doença. Eles têm filhos, pais, amigos. Eles estão em risco constante. Mas não lhes ocorre abandonar. É um grito singelo e quase inaudível de resistência, proferido por vozes sufocadas pelo ruído constante da bomba de oxigênio.

Poder acompanhar o tratamento da mãe é bom e doloroso ao mesmo tempo. É a realidade que me chuta todos os dias, nos momentos em que estou com ela ou nos boletins da enfermagem que chegam ao meu celular. Esse cuidado quase domiciliar revela uma outra coisa sobre a qual tu não faz a mínima ideia. Não há estoque de medicamentos que resista a uma pandemia descontrolada. Corticoides simples, antes encontráveis em qualquer farmácia, agora demandam uma operação de guerra. E quando o caso requer drogas de uso hospitalar, aí a coisa beira o desespero. Meandros da burocracia se mesclam à deficiência do sistema de saúde como um todo, desde a indústria farmacêutica até o respirador, para mostrar a nossa total incapacidade de enfrentar uma crise sanitária como essa. Em conversa com uma farmacêutica amiga, descubro que as ampolas de corticoide que a mãe está usando também servem para gestantes com risco de aborto no estágio final da gravidez. Temo por quem precisar delas hoje, em Porto Alegre, para concluir sua gestação em segurança.

Eu até tento entender quem segue negando a gravidade da Covid-19, apelando pra história da conspiração do “vírus chinês” e afirmando que H1N1 é mais mortal do que essa “pestilência vaporosa”, como definiu o escritor italiano Antonio Scuratti. Acho até que não é por mal que as pessoas insistem em vomitar bobagens como o tal isolamento vertical – posso garantir pra vocês que a mãe o respeitou rigorosamente – ou a fé cega nos elixires milagrosos. Eu entendo, sério. Afinal, a realidade é muito dura e, para enfrentá-la, é preciso maturidade para que o sujeito entenda, por um lado, a fragilidade da vida e, por outro, o grau de responsabilidade e a exigência de sacrifício individual e coletivo que o momento requer.

É por isso que eu digo que tu, leitor bem-intencionado, não tem ideia do que tá rolando. Esse desabafo meio sem jeito, feito em primeira pessoa, o que é sempre desconfortável para um jornalista, é mais pra dizer que a situação é braba mesmo. E pra pedir: já que muita gente não sabe da missa a metade em termos de Covid, exercite o respeito. A cada vez que alguém minimiza o risco da doença ou insinua que sob algum aspecto o sofrimento e a morte de pessoas idosas e com comorbidades é um preço aceitável a se pagar, está faltando com o respeito não só com a minha mãe, mulher extraordinária, mas também comigo e com a minha família. Aquela ida ao shopping, à orla ou à festinha na casa dos amigos é um tapa na cara dos cuidadores, técnicos e enfermeiros que põem sua vida em risco para ajudar os doentes. O teu argumento delirante de “direito individual” de andar na rua sem máscara é, além de escroto, uma afronta à fisioterapeuta que três vezes por dia veste a proteção para limpar os pulmões da minha mãe.

Muita gente vai passar por tudo isso sem saber de verdade do que se tratou esse bostedo todo. Que bom. Mas mesmo pra quem só sofreu o incômodo do isolamento, ainda dá tempo de ser uma pessoa legal, capaz de ao menos olhar para o lado, ter compaixão, fazer alguma coisa pra ajudar. Tá de boas? Então não compartilha mais teoria conspiratória, não pensa que um elixir mágico vai nos tirar dessa doença como por milagre, bota a máscara, fica em casa. Eu sei que isolamento é ruim, crise econômica é péssimo, o momento é horrível. Mas do lado de cá, te digo; tem coisa pior.


Patrícia Lima é jornalista nascida e criada em Rio Grande, filha e neta de costureiras, pescadores e contadores de histórias. Formou-se em Jornalismo na Universidade Católica de Pelotas e em Letras na FURG. Vive em Porto Alegre, onde trabalha com reportagem, como freelancer. No Mestrado em Literatura Brasileira que cursou na UFRGS, estudou a produção jornalística do escritor João Simões Lopes Neto. Deste estudo resultou o livro Inquéritos em Contraste, que reúne as crônicas publicadas por Simões na imprensa pelotense em 1913, editado em parceria com seu orientador, o professor Luís Augusto Fischer. Hoje, cursa Doutorado na mesma universidade.

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