Ensaio

A língua portuguesa é uma das mais difíceis do mundo – II

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A língua portuguesa é uma das mais difíceis do mundo – II Foto: Pexels/Pixabay

No texto da última coluna (A língua portuguesa é uma das mais difíceis do mundo I), falamos sobre a língua portuguesa ser uma língua difícil se comparada a outras línguas do mundo e vimos que não existe “a língua mais difícil do mundo” nem “a língua mais fácil do mundo”. Todas as línguas naturais humanas apresentam seu grau de complexidade, em diferentes níveis. 

Desta feita, vamos falar sobre a dificuldade de dominar a norma culta do português. Afinal, quando ouço alguém dizendo que “o português é uma língua muito difícil”, via de regra isso significa que o vivente tem alguma dificuldade ortográfica ou um problema envolvendo alguma regra gramatical (relacionada à colocação pronominal, à regência de algum verbo ou à flexão de algum substantivo, por exemplo). E ter dúvidas sobre as normas gramaticais é algo muito comum. Falei um pouco sobre isso no livro Mitos de Linguagem (Parábola Editorial, 2017), de onde retomo alguns pontos.

Mesmo escritores consagrados da língua portuguesa já admitiram que consideram as regras gramaticais da língua portuguesa muito complicadas. Luis Fernando Verissimo, por exemplo, em sua crônica “O gigolô das palavras”, afirma: “Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo”. E continua: “(…) minha implicância com a Gramática na certa se devia à minha pouca intimidade com ela. Sempre fui péssimo em Português”! 

Outro caso interessante é narrado por Medeiros e Albuquerque, autor da letra do Hino da Proclamação da República, em seu livro Quando eu era vivo (Record, 1982). Ele conta que contratou Antônio Valentim da Costa Magalhães, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, para ser professor de português na escola onde era diretor, depois de Valentim confessar-lhe que não entendia muito de gramática, apesar de ser conhecido como bom escritor. O que Medeiros e Albuquerque queria, ele justifica, era justamente um professor “que soubesse escrever e ensinasse a escrever”, porque “todos os professores faziam descambar o ensino para a aprendizagem da gramática”. Ou seja, mesmo um dos fundadores da ABL confessou seu desconhecimento de gramática como disciplina escolar. 

E a história fica ainda mais interessante. Diz Medeiros e Albuquerque, à página 288:

À tarde, na Rua do Ouvidor, encontrando Machado de Assis, contei-lhe o fato. Machado exclamou sorrindo: “Por que V. não me nomeou? Eu servia perfeitamente”. E referiu-me que abrira, dias antes, a gramática de um sobrinho, e ficara assombrado da própria ignorância: não entendera nada!

Eu gostaria de saber qual gramática Machado abriu para chegar a essa constatação… De qualquer maneira, essa “ignorância” dos grandes escritores se dá, em grande parte, porque as regras que aparecem nas gramáticas tradicionais da língua portuguesa são, muitas vezes, regras que já não descrevem a língua portuguesa – pelo menos não aquela falada no Brasil. 

Além disso, é claro, muitas das regras gramaticais presentes nas gramáticas de língua portuguesa apresentam inconsistências que deixam o leitor com dúvidas. Vejamos alguns exemplos.

Comecemos com alguns pontos de análise sintática (a parte da gramática destinada a estudar como as palavras se combinam para formar frases bem formadas na língua). Ao abrirmos uma gramática normativa tradicional, é possível que encontremos, logo no início da seção de Sintaxe, os chamados termos essenciais da oração: o sujeito e o predicado. Esses termos são “essenciais”, “fundamentais”, “básicos” (nas palavras dos próprios gramáticos) para a formação de orações e frases. Entretanto, ao avançarmos algumas páginas nessa mesma seção de Sintaxe, sem dúvida encontraremos “sujeito inexistente” ou “orações sem sujeito” – casos com o verbo haver no sentido existencial, por exemplo, como em Havia muitas pessoas no jogo ontem; aqui o verbo fica impessoal (flexionado na 3ª pessoa do singular), justamente porque não há nenhum sujeito para flexioná-lo (muitas pessoas, apesar de “se parecer” com um sujeito, é, na verdade, o objeto direto do verbo). Ou seja: os gramáticos nos alertam para o fato de que o sujeito é elemento essencial, básico, fundamental para a constituição da frase; em seguida, nos apresentam casos em que a oração não apresenta sujeito! Como um termo pode ao mesmo tempo ser essencial e inexistente? Isso é, de fato, contraditório.

Outro ponto de Sintaxe que pode parecer ilógico é a seção gramatical que fala dos complementos verbais – o objeto direto e o indireto. O objeto direto completa o verbo sem preposição (Eu li um livro, A Maria ama o João, O Pedro comprou meias novas etc.), ao passo que o objeto indireto completa um verbo que exige uma preposição (Eu preciso de um livro, A Maria gosta do João, O Pedro entregou meias novas à Maria etc.). Em seguida, na mesma lição sobre complementos verbais, vemos as famosas “exceções às regras”, que provavelmente são as responsáveis pela má fama das gramáticas. Por exemplo: na seção de objetos diretos (os complementos verbais que não são precedidos por preposição), encontramos um subtipo chamado de “objeto direto preposicionado”. Ou seja: um objeto direto que, contrariando as expectativas, é precedido por preposição (a gramática de Rocha Lima traz doze casos em que o objeto direto pode ou deve ser precedido de preposição)! Já na seção que trata dos objetos indiretos (aqueles complementos verbais que são precedidos por preposição), encontramos um determinado tipo que não é preposicionado. É o caso em que o objeto indireto é expresso por um pronome pessoal, como me, te ou lhe (O Pedro me entregou um livro, O João te fez um favor, Eu lhe escrevi um recado). 

Para não ficarmos apenas com exemplos de contradições na análise sintática, vejamos outro caso que costuma assombrar quem tem medo de cometer uma gafe ortográfica: o uso do sinal indicativo de crase. A regra básica do uso do sinal de crase vai mais ou menos assim: em sendo a crase a junção entre a preposição a e o artigo feminino a, só podemos usar o sinal indicativo de crase quando tivermos, justamente, uma construção em que tenhamos esses dois as. Por exemplo: 

O João entregou a+o Pedro uma carta e a+a Maria uma flor

Ao invés de grafarmos a+o, escrevemos ao. Da mesma forma, ao invés de grafarmos a+a, escrevemos à

O João entregou ao Pedro uma carta e à Maria uma flor

Desse raciocínio bastante simples, segue-se que só poderemos utilizar o sinal de crase quando houver um verbo (ou nome) que exija a presença da preposição a (por exemplo: entregar algo a alguém, escrever algo a alguém, obedecer a alguém etc.) seguido por um substantivo feminino (ou seja: um substantivo que aceite o artigo feminino a, como a mesa, a menina, a filha, a professora, a carta, a flor etc.).

Em princípio, escrever usando o sinal de crase nos contextos apropriados não deve parecer muito complicado. Entretanto, as mesmas gramáticas que trazem explicações sobre o uso do sinal de crase também apresentam longas seções de “exceções à regra da crase”. Na gramática de Savioli, por exemplo, encontramos (depois da regra geral de uso do sinal indicativo de crase) quatro casos em que “sempre ocorre crase”, três “casos facultativos” e cinco “casos especiais”. Ou seja: uma única regra parece não cobrir todos os casos prescritos para o uso correto do sinal de crase. Não à toa, o tema continua assombrando estudantes e escritores de todas as faixas etárias e graus de escolaridade e contribui para a construção do mito de que a gramática do português não tem lógica, de que trato em Mitos de Linguagem

De fato, dominar as regras gramaticais que prescrevem o “bem escrever” não é trivial; mas tampouco é algo extremamente complicado. Como dizem os americanos, it’s not rocket science! Por isso, encorajo sempre meus alunos a lerem gramáticas e pensarem sobre as regras prescritas ali. E o leitor, que não é necessariamente um especialista em língua portuguesa, também deve se sentir encorajado a adquirir uma gramática e se familiarizar em como consultá-la. 


Para saber mais:
Discuto os mitos “A gramática do português não tem lógica”, “A língua portuguesa é uma das mais difíceis do mundo” e “Ninguém fala o português correto” no livro Mitos de Linguagem, que pode interessar o leitor. Outra dica é o livro O gigolô das palavras (L&PM), do L. F. Verissimo, sempre uma leitura leve e agradável. Finalmente, deixo aqui a sugestão do livro Língua e liberdade (Ática), de Celso Pedro Luft, grande professor, gramático e estudioso da língua portuguesa. Nesse livro, ele registra um pouco do que pensava sobre o ensino de gramática. 


Gabriel de Ávila Othero é professor de linguística do Instituto de Letras da UFRGS.

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