Ensaios Fotográficos

Jardins de matacões enlaçados por figueiras

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Jardins de matacões enlaçados por figueiras

Memórias da paisagem dos morros de Itapuã 

Texto por Rualdo Menegat

Os matacões são gigantescos blocos de rocha que emergem na superfície depois de uma longa jornada de trevas, no caso deles, vitoriosa. Para contá-la brevemente, teremos que investigar primeiro o berço telúrico: uma câmara magmática em grande profundidade cuja pasta densa ultraquente é injetada com força para alcançar alojamentos mais superficiais da crosta da Terra, onde se solidifica. Uma vez na superfície, os granitos de Itapuã, gerados nessa forja herculana, vão sendo desgastados pela destreza invencível das forças climáticas. Confinados que estavam no interior escuro do planeta, passam a ser esculpidos em uma diversidade de voluptuosas formas, por vezes ásperas e afiladas, constituindo a morraria da margem leste do Guaíba. Esse é um processo recíproco, pois a rocha não se deixa esculpir fortuitamente: ela guarda em sua memória uma forma imanente. Ocorre que as forças que empurraram o magma para a superfície, também a fraturaram em enormes blocos mais ou menos cúbicos. As rochas emergentes sabem que a superfície se aproxima quando águas gélidas se anunciam para o mundo profundo inundando essas fraturas. Mal sabem os felizes granitos recém-emersos que a água irá, pouco a pouco, demoli-los. Mas a transformação vale a pena, pois os blocos cúbicos e bitolados pela compressão telúrica vão ganhando improváveis formas arredondadas, enquanto emergem. É o nascimento dos matacões que se individualizam da rocha confinada por milhões de anos na mais absoluta escuridão e que, ao ganharem a liberdade e a luz do dia, se acumulam como aldeias de pedras gigantes nas faces dos morros de Porto Alegre e Viamão. 

Não há paisagem mais paradisíaca quando esses matacões rústicos e arredondados pelo esforço das persistentes intempéries são cobertos de verde e ganham vestimenta. Os vegetais sempre cobiçam dominar o reino das rochas. Estabelecem uma estratégia que é praticamente inelutável, se não houver mudanças climáticas. Primeiro, avançam os líquens, que aderem nas paredes nuas dos matacões e pouco a pouco os mimetizam. Imaginem se os velhos anciãos desnudos os vissem com essas vestimentas todas coloridas, do cinza-azulado ao verde-claro e alaranjado-forte. O que diriam? Aos poucos, quase imperceptivelmente, os líquens decompõem os matacões e os resíduos formam o solo. Pronto: nesse momento avançam os arbustos e as ousadas arvoretas, cujas sementes alojam-se em suas fendas, eventualmente abertas, como se fossem cicatrizes do berço telúrico. Os matacões em sua terrível ingenuidade pensam que são vestimentas novas. Mas, assim que as arvoretas crescem, arrebentam-nos, agora sim, decompondo-os mais ainda. Eis o sinal para o avanço da floresta. Quando menos esperam, os matacões que estavam longamente à impermanência dos tempos são envoltos por uma desencalmada cobertura verde. Algumas árvores gostam desses seres exóticos e aproveitam para formar no seu entorno belos buquês vegetacionais, chamados propriamente de rupestres. Mas de todas elas, as que mais se deleitam nas curvas dos matacões são as figueiras. E fazem isso se utilizando de maneirismos. Chegam mansamente, quase parecendo um pequeno arbusto ou uma trepadeira desavisada. Mas rapidamente crescem e enlaçam os gigantescos matacões em miríade de cenas, que se poderia também dizer (obs)cenas, tamanha a volúpia. 

As matas dos morros graníticos de Porto Alegre e Viamão são imponentes jardins que guardam memórias ancestrais. Sua beleza nos faz perder o fôlego. Por vezes, andam-se apenas vinte metros em uma tarde inteira. Contudo, a paisagem da conquista dos matacões pelas figueiras no Sítio Rincão das Pombas ultrapassa qualquer expectativa. Parece que todas as forjas, todas as intempéries e todos os batalhões vegetacionais esmeraram-se ao máximo. Ali, justamente nessa porção sulina da margem do Guaíba, há um exuberante Jardim de Matacões. Muitos exibem formas pigolíticas enlaçadas voluptuosamente pelas figueiras e podem surpreender nossa percepção sobre a fulgência deixada pela memória do mundo natural. O olhar encantado pelas fotografias evoca uma história particular de cada uma das conquistas ali travadas entre matacões e figueiras. É uma fabulação épica sem fim. 




















O Jardim de Figueiras e Matacões está no topo do Morro da Figueira (169m), no Sítio Rincão das Pombas, em Itapuã, município de Viamão, 45 km ao Sul de Porto Alegre. Latitude -30,32546, longitude -51,025934. Todas as fotos foram obtidas com iPhone SE e não receberam nenhum tratamento.


Francisco Marshall, historiador e arqueólogo, professor do IFCH e do IA – UFRGS.

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