Ensaios Fotográficos

Senhoras, senhores e dinossauros, o circo voltou

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Senhoras, senhores e dinossauros, o circo voltou

*Texto de Cláudia Tajes

Era para ser uma temporada de muito público e bons lucros. Então a pandemia pegou o Circo dos Dinossauros em Montevideo, e os dois Tiranossauros Rex recém incorporados à trupe tiveram que ser guardados. Até de nome o circo mudou para dar destaque aos dois dinos, paixão das crianças desde que Steven Spielberg inaugurou o Jurassic Park, lá no começo dos anos 90. Ninguém contava que o coronavírus estivesse à espreita para proibir a alegria – em última instância, a matéria-prima do circo. 

Com a fronteira prestes a fechar, o jeito foi desmontar a lona às pressas e voltar para o Brasil. Estacionaram em Jaguarão certos de que a parada seria curta. “No primeiro mês, a gente estava tranquilo. No segundo, o tédio bateu. Mas foi só no terceiro mês que o pessoal percebeu o tamanho da encrenca”, conta Sebastian, 30 anos, trapezista argentino que faz passeio aéreo e acrobacias no tecido com a mulher, a também argentina Aylen, de 21 anos.

Lwann, 27 anos, é da sexta geração de uma família de circo por parte de mãe. O pai dele se apaixonou pela trapezista loira, casou e acompanhou a mulher por esse mundão. Criador do palhaço Lwanzito, nasceu no Ceará quando a companhia passou por lá. Tem mais dois irmãos, todos trabalhando em circo, mais primos e tios espalhados por diferentes picadeiros. Foi parar no Circo dos Dinossauros fazendo contato pela internet e, depois, mandando o currículo – como qualquer trabalhador. 

“Quando veio a pandemia, a gente ficou um tempo parado numa cidade só. Artista de circo é acostumado com a rotina de ver o povo, subir no palco, fazer todo mundo rir. Sem isso, é como se tirassem a alma da gente”.

Casado desde os 16 anos com uma moça que conheceu quando o circo passou por Coelho Neto, no Maranhão, Lwann hoje vê os filhos de 8 e 3 anos falarem no que vão ser quando forem grandes, como todas as crianças. Só que os meninos dele fazem planos de rodar no Globo da Morte, voar no trapézio, fazer mágicas. É a sétima geração da família chegando. 

O calor do público até sem público

Durante os meses em que o Circo dos Dinossauros ficou em Jaguarão, a população contribuiu com cestas básicas, fraldas e remédios para os artistas. Na abertura ensaiada na metade de 2020, a companhia levantou acampamento e foi se apresentar, no formato drive in, em Pelotas e em algumas praias do litoral gaúcho. Mal haviam se estabelecido na Juca Batista, em Porto Alegre, para uma longa temporada que pretendia botar as contas em dia, quando a cidade fechou por causa da segunda onda da covid 19.

Aí bateu o desânimo. Quem pode, foi embora. Os argentinos Sebastian e Aylen deram um jeito de voltar para Buenos Aires. Lwann alugou uma casa e foi trabalhar como eletricista, instalador de antena, pintor e o que mais aparecesse. Sempre com a sensação de estar sem alma. Dimitri, que abre os espetáculos com maquiagens exuberantes que levam até quatro horas para serem concluídas, decidiu passar um tempo com a mãe, em São Paulo. Os que tinham carro, viraram Uber. Os caminhões deixaram os equipamentos e as luzes de lado para fazer fretes e mudanças. 

Enquanto cada artista tomava seu rumo, Celina, 41 anos que parecem 30, dois filhos pequenos, casada com o sonoplasta e técnico da elétrica do circo, decidiu ficar em Porto Alegre. No terreno onde o picadeiro não foi montado, resistiu com a companhia da família do motorista, enquanto o marido saía para vender molas pelo país. Ela, que faz um número com tecidos e chega no alto da lona, deixando o respeitável público com frio na barriga, é hoje a artista que está há mais tempo no circo, espécie de conselheira de todos. 

E os Tiranossauros Rex comprados por um dinheiro alto na esperança de boas plateias? Durante todo o isolamento, os dois ficaram dentro de um caminhão só deles, conservados com todo o cuidado, como se a qualquer momento pudessem voltar à vida.

E voltaram.

[Continua...]

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