Folhetim

Duas Vanusas – Capítulo 1: A galinha

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Duas Vanusas – Capítulo 1: A galinha

O nome dela bem que podia ser Vanusa. Eu gosto de Vanusa.

Tá doida? Vanusa não, que a tia não vai gostar.

Por que, mano?

Porque é o nome dela.

Mas não existe só uma Vanusa no mundo.

Claro que não.

Olha aí.

Mas ela não vai gostar de dar o nome dela assim.

Mas o nome não é dela.

Claro que é, se ela se chama Vanusa o nome é de quem?!

Mas ela tem uma carinha tão de Vanusa.

Como ela pode ter uma cara de Vanusa? É uma galinha.

Não sei. Eu olho pra ela e só penso nisso.

Não. Vou escolher outro!

Mas eu gosto mais desse.

Mas eu nem falei nada ainda…

Eu sei que vou gostar mais desse igual.

Alice. Alice é um nome bom pra ela.

Alice não. Ela não parece Alice.

Por quê?

Olha pra ela.

Alice é melhor que Vanusa.

Vanusa é a cara dela.

Não dá. Se a tia fica sabendo…

Por favor, mano, deixa. Se a tia descobre ela não vai zangar.

Como você sabe?

Ué… todo mundo gosta de galinha.

[Continua...]

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O nome dela bem que podia ser Vanusa. Eu gosto de Vanusa.

Tá doida? Vanusa não, que a tia não vai gostar.

Por que, mano?

Porque é o nome dela.

Mas não existe só uma Vanusa no mundo.

Claro que não.

Olha aí.

Mas ela não vai gostar de dar o nome dela assim.

Mas o nome não é dela.

Claro que é, se ela se chama Vanusa o nome é de quem?!

Mas ela tem uma carinha tão de Vanusa.

Como ela pode ter uma cara de Vanusa? É uma galinha.

Não sei. Eu olho pra ela e só penso nisso.

Não. Vou escolher outro!

Mas eu gosto mais desse.

Mas eu nem falei nada ainda…

Eu sei que vou gostar mais desse igual.

Alice. Alice é um nome bom pra ela.

Alice não. Ela não parece Alice.

Por quê?

Olha pra ela.

Alice é melhor que Vanusa.

Vanusa é a cara dela.

Não dá. Se a tia fica sabendo…

Por favor, mano, deixa. Se a tia descobre ela não vai zangar.

Como você sabe?

Ué… todo mundo gosta de galinha.

Talvez Verônica tivesse razão. Todo mundo gosta de galinha. As duas crianças não sabiam de onde ela tinha surgido. Porém, isso parecia não incomodar. Criança é assim, apesar de pensar na origem das coisas, elas não se importam muito se foi deus ou uma explosão. A única coisa que importava naquele momento era a galinha. Vanusa, como foi enfim batizada, por insistência de Verônica e generosidade de Pedro, chegou no meio da madrugada. Enquanto eles dormiam, inocentes da semana que teriam pela frente, ela deve ter pulado alguns muros, peregrinando pelos quintais da Lopo Gonçalves na Cidade Baixa. Já viu uma galinha voar? É um acontecimento meio bizarro, mistura de algo natural por ser ave, mas desesperado por lhe faltar aerodinâmica. Um animal realmente criado para ser comida, onde lhe faltam asas sobram-lhe peitos, coxas e miúdos. Seja como for, por acaso ou destino – dependendo apenas da fé de cada um –, Vanusa fugiu e ali naquela manhã fria de agosto era mais uma vez adotada.

O acontecimento não poderia ter vindo num dia mais inoportuno. Já se preparavam pra um sábado inteiro de espera pro almoço de domingo com a tia, quando ainda durante o café da manhã a mãe avisou:

A tia de vocês vem hoje.

Hoje?

Isso. Eu vou precisar viajar uns dias e ela vem pra cuidar de vocês.

Você vai viajar, mãe?

Vou. Tenho que ir.

Pra onde? Vai encontrar o pai?

Vou.

A gente pode ir junto?

Não. Preciso ir ver o pai de vocês sozinha.

Por quê? Por que a gente não pode ir também?

Agora não pode. Assim que der todo mundo se encontra, tá?

Mas eu tô com saudade. Eu também tô com saudade do pai.

Ele também está com saudades de vocês, mas agora não dá e vocês vão ficar com a tia Vanusa e vão se comportar direitinho, tão me ouvindo?

Antes da pandemia tia Vanusa almoçava todo domingo com eles. No início da quarentena eles ficaram cinco meses sem se ver. Cinco meses na cabeça de um adulto é um período fragmentado em semanas, compromissos mensais, tentativas para dar ordem àquilo que nunca se organiza: a vida. Cinco meses na cabeça de uma criança é um tempão. É eterno, já que não se lembram onde começa e nem sabem onde termina. A primeira visita foi há duas semanas. Apesar da tia ter passado e repassado o protocolo de afastamento por vídeo-chamada algumas vezes, incluindo na véspera, não teve jeito. Rolou abraço, beijo, chororô de saudade, colinho, história antes de dormir, café da manhã com bolinho de chuva e pipoca no fim da tarde. Um fim de semana que aqueceu o coração para aguentar mais um período.

Quando a tia se despediu não imaginava que voltaria tão cedo. Tantos meses separados e agora quinze dias depois um novo encontro. Apesar da vontade, preferiu não perguntar nada pra irmã. Se ela precisava que ela ficasse com as crianças, ela ficaria. As explicações só são necessárias em relacionamentos voluntários. A vida delas sempre foi mais entrelaçada do que fosse possível imaginar. Amar sua irmã, sua família, para Vanusa não era uma escolha. O amor de tia foi uma das três maiores experiências de sua vida. Quando viu Pedro pela primeira vez na maternidade, ela foi tomada por uma sensação de completude misturada com uma angústia tão grande, jamais sentida. Chorou compulsivamente. Uma extensão de si mesma. Ele havia saído de dentro de sua irmã. Uma parte de si alheia à sua existência. Nunca havia imaginado amar alguém assim, antes mesmo de conhecê-lo. Antes de saber quais seriam suas qualidades, opiniões, queixas, valores. Pedro ainda seria, e ela já o amava. Só foi além com o nascimento de Verônica, cujo nome ela mesma escolheu. Madrinha.

Agora, com sete e quatro anos de idade, lá estavam as duas crianças, acocoradas no pátio, ele abraçando os joelhos, ela com um graveto na mão, ambos encarando a galinha sem saber o que fazer com a visita de duas Vanusas no mesmo dia.


Nathallia Protazio é pernambucana, farmacêutica vacinadora, e depois de ter morado em muitos lugares, incluindo São Paulo e Lausanne, Suíça, hoje vive em Porto Alegre. Lançou “Aqui dentro” pela editora Venas Abiertas. Disponível pelo Instagram da própria autora: @nathalliaprotazio.escritora

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