Porto Alegre: uma biografia musical

Capítulo LIII – Túlio Piva – terceira parte

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Capítulo LIII – Túlio Piva – terceira parte Uma das duas edições do LP do Festival. A outra não tem os gaúchos.

Os vencedores dos primeiros lugares do Festival Sul-Brasileiro da Canção Popular ganhavam o direito de participar do III Festival Nacional de MPB da TV Excelsior, apelidado O Brasil Canta no Rio. Lá, em pleno 1968 pré-AI-5, tentariam a sorte no meio dos cobrões da geração dos festivais. Além do vencedor Túlio, embarcaram nessa os jovens César Dorfmann– com Sonho  – e Raul Ellwanger – com O Gaúcho. A expectativa era grande, e as esperanças, maiores ainda. O grupo que acompanhava o veterano sambista era da pesada e incluía o conjunto Tempo 6 – que tinha, entre outros, o crooner galã Edgar Pozzer e a cantora Anamaria Bolzoni.

Só que aí, na hora H, à frente das 23 mil pessoas que lotavam o Maracanãzinho, o som pifou. E nomeio da música. Apesar de todos os protestos, não deixaram repetir nem começar de novo. Jamais saberemos se em função disso ou não, o fato é que Pandeiro de Prata não levou prêmio nenhum. Até hoje há quem aposte em sabotagem e garanta que a música era uma das preferidas. Quem acabou vencendo foi Modinha, de Sérgio Bittencourt, com Taiguara acompanhado do pai de Sérgio, ninguém menos que Jacob do Bandolim. Frustradíssimo, Túlio abraçou-se no consolo da solidariedade de muitos concorrentes que acharam tudo uma sacanagem – até uma comissão da Mangueira pediu desculpas em nome do povo carioca. Só restou o prêmio de consolação de ouvir Pandeiro de Prata num dos dois LPs do festival, cantado por um esfuziante Jair Rodrigues acompanhado por, entre outros, a melhor dupla de violões do samba: Dino e Meira.

Baixadas as tempestades musicais dos anos 1960, em 1975 o samba e o choro tinham voltado com tudo. E Túlio vive para ver o que Lupicínio, por exemplo, não viu: a volta do gênero ao gosto de quase todas as classes sociais e apetites intelectuais. O samba, que resistira por uma década basicamente entre coroas boêmios e saudosos, voltava a ser assunto.

Túlio até chega a disputar (e perder) uma vaga de vereador pelo PMDB. Mas decide que agora é a hora virar 100% sambista – afinal tinha fechado a Drogaria Piva em 1973.

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Artistas como Cartola, Guilherme de Brito, Adoniran Barbosa, Nelson Cavaquinho, Nelson Sargento e Clementina de Jesus estavam estreando em LP, todos com mais de 55 anos. Nessa onda, a mesma Continental que estava lançando com sucesso os jovens gaúchos Os Almôndegas resolve apostar no coroa de 61, que grava então seu primeiro LP, chamado simplesmente Túlio Piva

O álbum é registrado em São Paulo, com músicos de lá e num estúdio de primeira. Túlio só pediu pra levar junto os dois músicos que estão com ele na foto da capa: Lúcio do Cavaquinho e o violonista Fabrício Rodrigues. 

O primeiro e caprichado LP: puta som, boa capa, texto de contracapa do Hamilton Chaves…

Na sequência, seu espírito empreendedor finalmente muda de ramo e ele seria sócio de dois bares-restaurantes que marcariam a noite de Porto Alegre pelos próximos 10 anos. O primeiro se chama Pandeiro de Prata, abre em janeiro de 1975, mas não dura. Aí, com o inseparável amigo e comparsa Lúcio do Cavaquinho (e mais tarde em trio com a cantora Eneida Martins), em outubro do mesmo ano inaugura na avenida João Pessoa o Gente da Noite.

Desta vez, muito sucesso. A casa se transforma num dos santuários da boemia porto-alegrense, recebendo artistas de fora e mantendo na folha de pagamento alguns dos melhores instrumentistas de samba da capital.

Só que dinheiro que é bom… nada. Os donos ou ficavam compondo no escritório ou estavam cantando e tocando no palco, enquanto o pessoal da administração cuidava do caixa. Não precisa dizer no que deu.

Túlio tinha seu próprio bar, mas fazia bonito dos outros redutos boêmios da cidade, como o Chão de Estrelas, da mítica Adelaide (na foto, entre Túlio e Demósthenez Gonzales, recebendo um carinho do Lúcio do Cavaquinho, sob o olhar do genro de Túlio, Jayme).

Mas eles nem tavam nem aí. Afinal, as alegrias eram diárias: foi no Gente da Noite que Túlio, se redescobrindo aos 60 anos, compôs a maior parte dos seus 500 sambas.

E a coisa engrena: em 1977, pela Chantecler, vem o segundo disco: Gente da Noite, com Túlio acompanhado por Plauto Cruz, a cantora Eneida Martins e o Triunvirato do Samba (Lúcio do Cavaquinho, Fabrício e Cabeça, a banda da casa do Pandeiro de Prata).

O segundo disco, em dupla com Eneida Martins

Em 1978, é contratado para uma temporada de duas semanas no Teatro Jogral de São Paulo (onde sempre foi muitíssimo mais conhecido do que no Rio). Vai tão bem que acaba ficando um mês. Em 1979, o terceiro LPPandeiro de Prata. Nesse ano, Porto Alegre já tem, novamente, uma gravadora, a Isaec. E o trabalho agora sai por ela, que começava a montar seu cast.

1979 também é o ano em que, no Gente da Noite, estreiam os netos, filhos da filha única, Vera. Rodrigo Piva(Porto Alegre, 15/03/1964) tinha então 15 anos, e se tornaria compositor e cantor, com quatro discos lançados. Rogério Piva(Porto Alegre, 2/4/1967) tinha 12, e é hoje um virtuose do bandolim, cavaquinho, violão, violão de sete cordas e guitarra, com três álbuns instrumentais lançados. Pra fechar o time, um “neto adotivo”: Giovane Gonçalves Bertini (Porto Alegre, 30/1/1967), que começou no surdo, também aos 12, passou para o pandeiro, mudou o nome para Giovanni Bertie hoje é um dos percussionistas mais requisitados do Rio Grande do Sul – talvez o músico gaúcho que mais tenha gravado em discos.

Em ação no Gente da Noite, 1980: Rogerinho no cavaco, Giovanni no Tantã

Rodrigo, o mais velho da turma, é quem melhor lembra dessa época: 

Arrisco a dizer que essa foi a fase mais feliz da vida do Túlio. Cada noite uma composição nova. Ele ia no escritório, compunha, passava no camarim, ensaiava e no próximo bloco já tava mostrando a música nova. Cansei de ver ele fazendo isso.


Já que falamos nele duas vezes, é o caso de focar um pouco em Lúcio do Cavaquinho.

Nascido dia 18 de outubro de 1936 em Rio Pardo – 137 quilômetros a oeste de Porto Alegre, foi tentar a vida na capital em 1959, depois de anos de trabalho na profissão menos chorona possível: peão e capataz de estância. Ainda assim, chegou na capital já formado em teoria e solfejo pelo conservatório de Rio Pardo. Antes de passar pro cavaco, era violinista. Mas levou, como Túlio, muito tempo pra virar músico profissional.

O ano era 1975, ele tinha já 37 primaveras quando teve coragem de pedir demissão do cargo de chefe do Setor Central de Desenho do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS. A partir daí, se tornou um dos nomes mais importantes do choro em Porto Alegre, trabalhando na noite pelos 15 anos seguintes, e como diretor artístico de casas como Chão de Estrelas, Candelabro e o Clube da Saudade, além do já citado Gente da Noite, onde liderava o Triunvirato do Samba.

Gente da Noite, o bar: Túlio acompanhado do Triunvirato do Samba. Lúcio decidiu que todos usariam óculos, pra dar unidade. Mesmo quem não precisasse.

A partir daí, grava muito e acompanha em discos e shows gente como Nelson Gonçalves, Altamiro Carrilho, Jamelão, Beth Carvalho, Ademilde Fonseca, Déo Rian, Carlos Poyares, Moreira da Silva e por aí vai. Monta a dupla Recital de Cordas com o grande violonista Jessé Silva, seu amigo inseparável. E, por longo tempo, dirige o regional Lamento

Primeiro convidado do projeto O Choro é Livre, do Theatro São Pedro, o Lamento tinha, além dele, Plauto Cruz na flauta, Mário Schimia no violão, Valtinho no pandeiro e Runi no surdo. Também integrou por uma década o Conjunto Vibrações – cuja segunda formação teria Lúcio e Jessé, mais Giovanni Berti, Rodrigo e Rogério Piva.

Túlio, alguém não identificado, Professor Darcy e Lúcio do Cavaquinho. Que turma!
Túlio e Jessé Silva, outra dupla inseparável.

Todo seu talento de compositor, instrumentista e bandleader está registrado num CD independente lançado em 1997, só com músicas suas, bancado pelo Fumproarte, da Prefeitura Municipal de Porto Alegre. 

Talvez um pouco tarde, já que não conseguiu reverter a sensação que lhe abateu no começo do novo milênio: uma certa revolta com o pouco reconhecimento de seus serviços prestados à música de Porto Alegre. 

De saco cheio, voltou para Rio Pardo, chegou a abrir um bar com música ao vivo, chamado Jardim do Lúcio, mas morreu pouco depois, dia 9 de fevereiro de 2004.


Arthur de Faria nasceu no ano que não terminou, é compositor de profissão (15 discos, meia centena de trilhas) e doutorando em literatura brasileira na UFRGS por puro amor desinteressado. Publicou Elis, uma biografia musical (Arquipélago, 2015).

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