Arthur de Faria, Porto Alegre: uma biografia musical

Capítulo LX – Um milhão de melódicos melodiosos – ou: os anos de transição (Parte 6)

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Capítulo LX – Um milhão de melódicos melodiosos – ou: os anos de transição (Parte 6) Conjunto Norberto Baldaulf já septeto, ainda com Baraldo

A gente tinha parado quando o Conjunto Norberto Baldauf queria mais do que tudo o instrumento que era o sonho dourado de todo mundo dos melódicos: um vibrafone.

É aí que aparece um rapaz chamado Hélio Santos, paulista de Assis (nascido em 18/9/1938), que morava em Maringá, interior do Paraná. Lá, ele era músico contratado de uma casa noturna. Uma noite, um grupo de fãs gaúchos de Baldauf passara pela casa – suspeita, diga-se –, apaixonaram-se pelo vibrafone e o vibrafonista e resolveram fazer o casamento. Um deles tinha o telefone de Norberto, passou para Hélio, e o cara foi à luta.

Pois é. Vibrafone. Maringá tinha um vibrafonista. E em Porto Alegre, a capital dos melódicos, só tinha um outro: o do Conjunto Flamingo! 

Para Hélio, o novo emprego era o paraíso. Afinal, morando no interior, ele tinha de se virar com o que pintasse: já tinha atacado até de acordeonista e ator na trupe circense do Mazzaropi. Imaginem isso para um fã devoto de Lionel Hampton, Milt Jackson e Art Van Damme.

Ficou quatro anos no grupo, só na alegria, mas aí a saudade bateu e ele voltou pra Maringá. Mas depois de incorporar um vibrafone à sua sonoridade os Baldaufs não queriam abrir mão daquele som mágico de jeito nenhum. Daí as vantagens de ser o grupo mais prestigiado e com mais trabalho. Só quem tem vibrafone é o Flamingo? Pois a gente chama então o cara do Flamingo. Claro que ele, que se chamava Heitor Barbosa (Rio Grande, 19/03/1938), veio. Não só veio, como seguiria no grupo pelos 26 anos seguintes ‒ e a partir de 1968, quando o vibrafone sai de moda, exercendo basicamente a função de organista.

O problema agora era outro. O mundo estava mudando, e o som do mundo, idem. Vocês lembram que os caras esperaram um tempão até o grande Wilson Baraldo se dignar a assumir o posto de baterista do grupo. 

Só que agora, em 1961, eles bem que tentaram argumentar com o Baraldo que a batida da bossa nova tinha se tornado indispensável. Mas o baixinho foi irredutível. Com ele, o lance era “cruzar os paus”: aquele padrão de condução na bateria, com vassoura na caixa na mão direita e frases nos tambores com a baqueta na mão esquerda, que era a batida do samba até então. Não adiantou insistir. Aí, o mesmo grupo que esperara por ele meses a fio, oito anos antes, o demite por consenso. E consciente ou inconscientemente, o fato é que, a partir daí, o multi-instrumentista Wilson passa a trabalhar cada vez mais como pianista, cada vez menos como baterista.

No seu lugar, entra um porto-alegrense (01/11/1935 – 17/04/1977) criado no Rio de Janeiro, e que naquele momento estava no moderníssimo grupo de Manfredo Fest: o baterista Léo Belloni. Um craque justamente do que eles precisavam: bateria bossa nova.

Isso, em si, já é um mérito pros sócios-fundadores (alguns deles já perto dos 40 anos): saberem adaptar-se a uma profunda mudança. Pois se você ouve a versão do grupo para Wave (Tom Jobim), jura que é um bando de garotos paridos nas ondas da bossa nova.

Mas voltemos um pouco no tempo. Em 1962, a gravadora Philips estava se instalando no Brasil, e resolveu que ia contratar todos os melhores. Seus dois primeiros produtores, por exemplo, foram Aloysio de Oliveira e André Midani. Conhecidos de longa data do grupo, eles imediatamente contratam os Baldaufs. Como grupo e também, eventualmente, como instrumentistas avulsos: são tocados por Touguinha, por exemplo, os bongôs da gravação original de Influência do Jazz, clássico de Carlinhos Lyra). 

O primeiro disco na nova casa se chama Baldauf Retorna.

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O disco da “volta”

Como assim “retorna”? 

É que eles tinham ficado três anos sem gravar. E três anos em que a música brasileira havia mudado muito em função do surgimento da bossa nova.

O disco faz muito sucesso local, e marca a estreia da nova formação: um octeto com Edgar Pozzer na voz, Helio no vibrafone, Raul Lima na guitarra, Canella no acordeom, Norberto no piano, Leo no baixo, Leo Belloni na bateria e Touguinha na percussão. 

Assumidamente influenciados naquele momento pelo conjunto de Breno Sauer – de quem logo falaremos -, o disco tem um som bastante diferente dos seus antecessores. E muito mais “moderno”. 

Os oito estão num grande momento, com direito a programa semanal nas noites de terça na TV Piratini, chamado simplesmente Norberto Baldauf & Seu Conjunto.


O grupo sempre levou o nome de seu pianista. Nome que surgiu meio ao acaso, batizados que foram pelos estudantes de arquitetura que promoveram seu primeiro show, em 1953. Mas, apesar do nome, o Conjunto Norberto Baldauf sempre foi uma cooperativa. Léo Velloso, por exemplo, além de contrabaixista, era o gerente. Quem escolhia a maior parte do repertório, eram ele e o acordeonista Canella ‒ ainda que nos discos fossem os produtores das gravadoras que definiam dois terços do repertório.

Não era por acaso que o grupo era o mais popular dos tantos que pipocaram a partir deles. Popularidade conferida ano a ano.

Entre 1961 e 1968, o jornalista Walter Galvani, que mantinha a coluna Preto no Branco na Folha da Tarde, organizou o Festival de Conjuntos. Uma dezena de grupos do gênero, vindos de todo o Estado, davam o melhor de si frente a um corpo de jurados. No clima “amador” da época, a grana arrecadada não ia para o vencedor, mas sim para entidades assistenciais. Só que uma vitória garantia muitos bailes a mais, além da publicidade grátis.

O festival começara como uma brincadeira: um dia, Galvani sugeriu aos leitores que mandassem cartas apontando os melhores e piores melódicos do momento. Quando viu, parecia cena de filme: tinha 46.277 envelopes sobre a sua mesa.

Abertos, davam vitória ‒ apertada ‒ a Baldauf: 8.372 votos, contra 8.262 do Renato & Seu Sexteto e 8.080 do Conjunto Flamingo. Daí veio a ideia do festival, onde os grupos seriam julgados por um time de especialistas que incluía quatro maestros.

Na primeira edição, Baldauf ganha ‒ seguido por, na ordem, Flamboyant, Flamingo e Renato e Seu Sexteto. Falaremos de todos: o tempo os confirmaria como os quatro grandes nomes dessa cena.

Na segunda edição deu Baldauf de novo.

Na terceira…

…são impedidos de participar, passando (à força) para a desconfortável situação de hors-concours.

É como conta o baterista, humorista e palestrante Renato Pereira no prefácio de Week-End no Rio – Cinco Décadas (e Meia) de Conjunto Melódico Norberto Baldauf, o livro nunca por demais citado do jornalista Marcello Campos:

Mais que ouvi-los, ter os elepês ou comentar com amigos que já havia adquirido ‘o último, que acabou de chegar’ era prova de gosto elitizado. A Rádio Guaíba contava com o programador e disc-jóquei Osmar Meletti, que rodava o bolachão antes de o produto chegar às lojas. As músicas, esperadas com ansiedade, eram responsáveis por reuniões dançantes caseiras e motivavam até episódios de cleptomania, quando o ladrão de boa família surrupiava o LP da anfitriã, escondido sob a jaqueta.

A sacanagem é que estávamos à beira de um precipício. 

Em 1963 entra em cena o videotape. 

Dia 10 de janeiro Baldauf e seus amigos são demitidos da TV Piratini e, por tabela, também da rádio Farroupilha, dos mesmos donos, onde também tinham contrato. A partir daí, o foco dessa geração passa a ser os bailes, que ainda levariam décadas para serem assumidos pelos DJs.

As mudanças na cena também se refletem na discografia do grupo. Depois de Baldauf Retorna…, de 1962, só voltariam a gravar no tropicalista ano de 1968.

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Ele Gravou Parole até Segunda-Feira. Isso é que é título tropicalista!

Mas esse é um de seus melhores discos, a começar pelo título esquisitíssimo: Ele gravou Parole Até Segunda-Feira. A explicação – bizarra – é que o repertório ia da italiana Parole até a novíssima Até Segunda-Feira, de Chico Buarque. E ainda tem Tom Jobim, Roberto Carlos, Luiz Eça, Beatles, Francis Lai, Johnny Alf, Myriam Makeba e até um jovem compositor gaúcho: Luiz Mauro. Sua canção Marcha para um Novo Amor havia ficado em terceiro lugar no 1º Festival Sul-brasileiro da Canção Popular. Parole, a canção, parece ser a única que realmente envelheceu no disco.

Mais uma vez soavam diferentes, como a guitarra de Raul à vontade até nas levadas iê-iê-iê, e belas misturas de timbres de órgão e vibrafone casados com o acordeom. Isso que já eram quase velhinhos transviados (“velhinhos” quarentões, num mundo então tomado pela juventude).


Arthur de Faria nasceu no ano que não terminou, é compositor de profissão (15 discos, meia centena de trilhas) e doutorando em literatura brasileira na UFRGS por puro amor desinteressado. Publicou Elis, uma biografia musical (Arquipélago, 2015).

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