Porto Alegre: uma biografia musical

Capítulo LIX – Um milhão de melódicos melodiosos – ou: os anos de transição (Parte 5)

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Capítulo LIX – Um milhão de melódicos melodiosos – ou: os anos de transição (Parte 5) Conjunto Melódico de Norberto Baldauf (Revista do Globo nro 705)

Luiz Octávio, o Alemão, tinha sido convidado a assumir o posto de crooner do Conjunto Melódico de Norberto Baldauf depois de arrasar numa canja que dera num baile no Clube Caixeiral de Santa Maria. O cara era galã total e ainda tinha aquela voz que misturava Dick Farney e Lúcio Alves com Nat King Cole e Frank Sinatra. Morava em Porto Alegre, mas deu sorte de estar ali, naquela noite, a quase 300 km de distância da Capital. Era um representante comercial de uma multinacional em viagem de negócios.

Com sua entrada, o agora septeto sedimenta sua fama. A data definitiva é 13 de dezembro de 1957: quando acontece o primeiro dos míticos Bailes da Reitoria da UFRGS. Pelos anos seguintes, o amor seria como um laço para os 800 jovens que, a cada semana, sonhavam em amarrar-se ao som de um bolero (dali a pouco, de uma bossa).

Cuba libre na mão, dando coragem aos rapazes para enfrentar os olhares vigilantes de mães, irmãos mais velhos, primos ou mesmo algum tio acompanhante das moçoilas casadoiras. 

E tudo espalhado por três ambientes: salão, boate ou restaurante, todos sonorizados por dois ou três dos melhores melódicos disponíveis.

O sucesso é tanto que os rapazes ganham seis páginas da prestigiosa Revista do Globo. Pudera: num tempo em que a imensa maioria dos músicos locais só entrava em festas pela porta dos fundos, eles davam até autógrafo! Sem falar que, em paraísos da elite local como o Clube do Comércio, na Praça da Alfândega, eram tratados melhor que sócio remido.



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O livro do Marcello: fundamental e divertidíssimo

A matéria só não falava, obviamente, era das façanhas amorosas dos rapazes. Histórias como a da origem de um dos instrumentos mais famosos de Touguinha: a frigideira (ganha da dona de um puteiro do interior que sempre os recebia de, digamos, braços abertos). 

Marcello Campos, autor do fundamental Week-End no Rio, irretocável biografia do grupo, conta outra:

Essa o “Toga” me contou, se mijando de rir… Certa vez o grupo distribuiu “santinhos” de divulgação durante um baile no Interior. Um rufião que batia o pezinho ao som dos uníssonos pegou os panfletos e levou para a zona, onde os pendurou em uma corda como se fossem bandeirolas de São João, indicando a entrada do puteiro… para o próprio Conjunto. Na noite seguinte, após o baile, até o comportadíssimo Canella sacou o acordeom, e o pessoal, reforçado por outros gaiatos e gaiteiros, animou a festa madrugada adentro.

Depois dos dois Ritmos na Madrugada, inauguram uma nova série de discos: Week-End no Rio. O primeiro com esse nome é lançado em 1957, seguido de nada menos que outros três LPs em 58 – o ano da Bossa Nova: Week-End no Rio nº 2, Ritmos da Madrugada Nº 3 A Hora de Dançar. A eles se seguiria Encontro Dançante, gravado em 1959 e lançado em 1960. 

Trabalhos que os mantêm na Odeon, mas não mais com a mesma popularidade. A relação se desgasta de vez quando são obrigados pela gravadora a gravar o insólito Rock on Big Hits – Melodias Famosas em Ritmo de “Rock” (1959). Versões pseudo-roqueiras para canções como Only You e Estúpido Cupido

Duas ironias marcam esse disco:

A primeira é que o LP está etiquetado na série definida pela Odeon como Humor-Musical dançante.

A segunda é que esse é nada menos do que o primeiro disco do rock gaúcho.


Esses LPs vão abrindo o leque do grupo em direção a qualquer música que seja feita para dançar. Daquela elegante pré-Bossa dos Ritmos da Madrugada para qualquer coisa que estivesse fazendo sucesso (como se viu, até rock). Mas ainda se pescam pérolas que brilham quase 70 anos depois, como o arranjo que deixa quase irreconhecível Tu (Ary Barroso), abrindo o pot-pourri que ocupa todo o lado A de Week-End no Rio Nº 2. E é bom lembrar que os boleros, mambos e cha-cha-chás eram a delícia pop de então.

Falando em Ary Barroso, graças a ele temos uma prova do impressionante savoir-faire do grupo. Em 1959, o produtor Aloysio de Oliveira tem uma ideia de gênio. Juntar num mesmo disco dois dos maiores compositores pré-Bossa em atividade: Ary e Caymmi. Ary tocando as canções de Dorival Caymmi ao piano, Caymmi cantando e tocando as canções de Ary (o disco é apenas sublime, e está em todas as plataformas digitais).

Pois sabe quem é a cozinha rítmica, não creditada no disco e só trazida à tona no livro Week-End no Rio?

Léo Velloso no contrabaixo – com direito a solo já na primeira faixa -, Wilson Baraldo na bateria e Touguinha na percussão.

Sim, gravado na terra dos melhores músicos de samba do mundo, a cozinha do disco é 100% gaúcha.

Mas ainda tem o melhor!

Quem os chamou para gravar Ary Caymmi & Dorival Barroso?

Aloysio? Não.

O próprio Ary, fã declarado das versões de temas seus feitas pelo grupo – em especial… Faceira.

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Sequestre a mãe de alguém por este disco

*                                *                                      *

Tudo ia às mil maravilhas quando Luiz Octávio abandona o barco. Segundo as boas línguas, pra ser comissário de bordo da Real Aerovias em linhas como Los Angeles-Tóquio (imagina o glamour disso em 1959). Segundo as más, para fugir de uma fã mais afoita.

No auge da sua popularidade, era uma das maiores estrelas do star system local. Uma cena basicamente radiofônica, mas coberta por nada menos que quatro revistas especializadas.

Mais uma vez, assume um interino: o paranaense Renê Martins (São Mateus do Sul, PR, 16/02/1925, Ponta Grossa, PR, 19/09/1994). Logo em seguida, caído do céu, aparece Edgar Pozzer – tão ou mais galã que Luiz Octávio, e bem jovenzinho. Tinha 21 anos recém-feitos, e havia nascido (24/07/1938) em Galópolis, interior do interior da região serrano/italiana do Rio Grande do Sul.

E nem é exatamente do céu que ele caiu. Edgar ostentava então, um tanto constrangido, o apelido de Diabo Loiro – que lhe fora dado pelo radialista Salimen Jr. e dizia muito sobre o efeito que o rapaz causava no coração normalista das mulheres de todas as idades. Tinha recém ganho o segundo lugar no concurso nacional A Voz de Ouro ABC, das Emissoras Associadas – e eleito cantor-revelação pela revista O Rouxinol. O prêmio da Rouxinol era um contrato com a Rádio Farroupilha, e é só por isso que ele permanece na cidade em vez de ir embora para São Paulo. Logo se torna uma estrela local, garoto-propaganda dos mais requisitados, atração semanal em dois programas fixos na Rádio e quatro na TV Piratini. Além de campeão de cartas da emissora.

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O cara era galã de capa de revista, tá entendendo?

Mesmo com todo esse currículo, teve de fazer um teste pra entrar pro grupo.

Claro que passou.

Em tempos de televisão, a cara e a pinta de Pozzer iriam valorizar muito o conjunto entre a audiência feminina. E, ainda que apenas meia década mais novo, ele era, com relação a Octavio, de outra geração musical. Se o primeiro “alemão” tinha bem a escola anos 50 pré-Bossa, Pozzer já é um cantor ligado no pop daquele momento – que era, basicamente, baladas americanas, francesas e italianas, cantada a plenos pulmões. Tanto que, ouvidas hoje, as gravações de Octavio soam mais atemporais que as de seu sucessor.

Só que não estamos hoje. Estamos ontem. 

E com as canções românticas italianas explodindo pulmões mundo afora, Pozzer era o cara perfeito. Tanto que acabou especialista no gênero, seguindo depois como cantor romântico especializado em canzoni, lançando uma dezena de discos com esse repertório, fazendo shows e dirigindo, a partir de 1970, seu bar, o Girasole.

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Volaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaareeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee…

A gente só não disse é como se conheceram Pozzer e os Baldaufs.

É que a contratação do conjunto tinha sido o grande presente de Natal da Farroupilha para seus ouvintes.

Estávamos em 1959 e, na nova emissora, iriam ombrear com outro melódico da pesada, o Flamboyant. Por sua vez, substituiriam o recém-desfeito Primo & Seu Melódico em programas top de audiência. Como o Ritmos da Panair ‒ que, nas noites de sexta, levava os ouvintes para viajar aos quatro cantos do planeta através de músicas da França, Itália, Japão…

É nesse momento que a rede de emissoras associadas de Assis Chateaubriand estreia a Piratini, primeira TV local. O conjunto de Baldauf e o Flamboyant estavam nessa transmissão inaugural, e recebendo o mesmo cachê das atrações nacionais que eles acompanhavam. Atrações que, por sua vez, seguiriam acompanhadas por eles em tournées pelo Estado. Imagina o que era pra esses rapazes passar uma semana ao lado da estonteante Dóris Monteiro e ainda receber pra isso!?

Na Piratini, teriam ainda um programa semanal de meia hora, com direito a esquetes teatrais comandados pelo baixista Léo, e seriam as estrelas do principal programa da emissora: o domingueiro e noturno Grande Show Wallig.

Só faltava uma coisa: um vibrafone. 

Instrumento inventado nos Estados Unidos nos anos de 1920 e logo adotado pelo jazz, ele era peça chave dos grupos de George Shearing e Art Van Damme. Em Porto Alegre, já brilhava no Conjunto Flamingo, o primeiro da cidade a conseguir aquele espetáculo de instrumento, que matava todos de inveja.

Pois aí o telefone toca.


Arthur de Faria nasceu no ano que não terminou, é compositor de profissão (15 discos, meia centena de trilhas) e doutorando em literatura brasileira na UFRGS por puro amor desinteressado. Publicou Elis, uma biografia musical (Arquipélago, 2015).

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