Porto Alegre: uma biografia musical

Capítulo XCIX – Os Anos 70: Ascensão & Queda do Rock do IAPI

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Capítulo XCIX – Os Anos 70: Ascensão & Queda do Rock do IAPI

Já compararam o IAPI com o Greenwich Village, mas não tem nada a ver. Se é pra comparar com algum lugar mítico, compare-se com os bairros do sul de Londres, onde nasceram – do rancor proletário, da rebeldia com causas econômicas, do inconformismo punk – o Clash e os Sex Pistols, que incendiaram a fornalha do rock-contestação nos anos 70.

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Eduardo ‘Peninha’ Bueno, jornalista e escritor

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Vila do IAPI. 

Meio afastada do centro, ela fora planejada e construída nos anos Vargas como bairro-padrão para industriários: praças, campo de futebol, prédios pequenos e sólidos com pátios e horta, tudo cercado de muitas árvores. 

Exatos 10 anos depois de sua inauguração, muitos dos filhos dos primeiros moradores do bairro estavam passando por um perigoso formigamento conhecido como adolescência. Não deu outra: em pouco tempo, o negócio virou, pra usar um termo da época, um melting pot de cultura semi-proletária: artistas plásticos, atores, uns poucos universitários e muitos – MUITOS – músicos. A estrelinha local Elis Regina, por exemplo, ainda morava ali e, naquele momento, aos 18 anos, gravava seu quarto disco – os dois primeiros eram cheios de roquinhos, e estes já estavam totalmente alheios ao gênero. 

1963: a juventude interessada em novidades da cidade estava embriagada pelo rock’n’roll em sua variante instrumental-guitarrística. Lembram? As bandas de guitarra

Pois começava a embrionar ali a lenda que lançaria o IAPI no fabulário roqueiro nacional dos anos 1970. Duas das melhores e mais importantes bandas gaúchas de todos os tempos teriam grande parte de sua mítica vinculada à vida meio interiorana do bairro onde cresceram todos os seus integrantes: Fughetti Luz, Pecos Pássaro, os irmãos Mimi e Marcos Lessa e o primo Edinho Espíndola. Se você não conhece o Bixo da Seda ou o Liverpool, não sabe do que foi capaz o rock gaúcho.


A The Best era, como o nome dizia, a melhor banda de guitarra… da quadra. Tinha como grande atração os irmãos Lessa: Marcos no baixo, Mimi na guitarra. 

Um belo dia, um certo Carruíra, morador do distante Jardim Itú e baixista de uma banda desconhecida e iniciante – quem não era desconhecido e iniciante então? – convidou Mimi pra tocar com eles. E os carinhas se inspiravam num grupo inglês ainda obscuro no Brasil. Sim: os Beatles. Nome da banda? Liverpool. Homenagem à cidade natal dos Fab Four – que ainda não tinham nenhum disco lançado aqui, mas cujos albuns eram ouvidos em sessões de culto, trazidos diretamente da Argentina. 

Fughetti Luz, cujo maior sonho era ser vocalista numa época de bandas instrumentais, lembrou, num longo depoimento em 1989:

O Mimi disse que ia levar um cantor junto. Era eu! Só que ninguém sabia que eu era cantor, só eu! Eu e o Mimi. A gente se criou junto, tocando em tudo que era roda de samba do bairro. O Mimi no cavaquinho e eu na garrafa com abridor. (…) A gente morava próximo, um do ladinho do outro no IAPI, só que cada um era de uma turma diferente. O Mimi andava de botinha, Beatles e tal, e eu sempre na minha porta, tocando violão. O Mimi só me sacava… 

Acabou que pegaram o ônibus pro Jardim Itu Mimi, Fughetti… e o Marcos, que na hora resolveu ir junto. Aí, aprovadas as contratações, o Liverpool fica sendo Fughetti na voz – a tal novidade trazida pelos Beatles -, Mimi na guitarra-solo, Carruíra no baixo, Rochinha e Marcos nas guitarras-base e Vinícius, primo de Mimi, no glorioso cargo de bicão/roadie. Na bateria é que a coisa não engrenava: Alemão Roy, o Robertinho dos Minis… E, por fim, o já respeitado Vico – que nos anos de 1970 seria um sultão do suíngue do samba-rock local. Só que, segundo o pessoal, era viciado em faltar show. Aí não deu. Nesse meio tempo, o próprio Carruíra voara para fora da banda que criara, mas Mimi e Fughetti estavam tão felizes de tocar juntos que decidiram manter o trabalho, com o mesmo nome, e completando a formação com a sua turma. 

Marcos assume o baixo e, pra bateria, chamam o primo Edinho Espíndola. Pouco importava o detalhe de que, além de ser pouco mais que uma criança – tinha 14 anos! -, Edinho nunca tinha chegado nem perto do instrumento. Mas vivia batucando com cabides em tudo o que via pela frente, logo…

Pronto: a banda virara uma instituição 100% cento IAPI. E na forma de quarteto rocker brazuca clássico: voz, guitarra, baixo e bateria Pingüim. 

Mas faltava uma coisa. Essa coisa chegou logo, se chamava Pekus, ou Pepeco, ou Pássaro, e era um dos maiores malucos-beleza do bairro, espécie de hippie avant la lettre, que o futuro mitificaria como o Syd Barret do IAPI. Marcos passa pra guitarra-base, Pekus assume o baixo. O ano era 1967 e eles estavam prontos para enfrentar o Brasil. Só não sabiam ainda.


Mimi:

O Liver começou leve e foi pesando. Em todos os sentidos. A gente era uma garotada ingênua que, de repente, foi parar no Rio de Janeiro, no meio de artistas plásticos, intelectuais, músicos famosos, um pessoal muito louco. Aí, desbundamos.

Mas antes disso teve muita coisa. 

Tudo o que se tinha direito naquela cena roqueira porto-alegrense de final dos anos 1960, começando pelo bailes – até três por noite. Foi ali que começaram a se diferenciar por dois detalhes. O primeiro: ensaiavam à exaustão. Coisa de oito horas por dia, cinco dias por semana – nos outros dois, sexta e sábado, trabalhavam: era quando iam tocar pro povo dançar. Essa disciplina só era possível por causa de uma empresa num bairro próximo, a Zivi Hércules. Durante a semana, a firma emprestava o clube dos funcionários pros rapazes, que o transformaram na sede/estúdio da banda. 

Fughetti, épico:

Os operários saiam do IAPI de manhã cedinho pra trabalhar e a gente saía junto, pra ensaiar. Éramos operários da música

O outro diferencial era o quê ensaiavam. Segue Fughetti:

a gente tocava Beatles, Rolling Stones, tudo. Pensei: tá errado. Todo mundo cantava o mesmo. Foi então que a gente começou a tocar The Birds, quatro vozes, cada um na sua. Ficava o dia inteiro tirando a voz e a pronúncia, e eu não entendo nada de inglês. (…) Comecei a mudar o Liverpool. Quando a gente tocou no Sindicato dos Metalúrgicos pela primeira vez, vendi o show por vinte pila, quando o cachê na época era 100. Na outra semana, quando terminamos o show, ainda em cima do impacto, fomos contratados de novo, só que o valor já era 100 pila. Moral da história: em um mês, a banda tava valendo 120 pila, e as outras não passavam de 100. Entrou música brasileira na roda, a gente divulgava Gilberto Gil, Caetano. Gravava direto da televisão. 

Nesse quesito, nossos rapazes criaram um método parecido à turma do Stardust, 10 anos antes, revezando-se no cinema para aprender as músicas de Bill Haley. 

Em tempos em que já não havia partituras de todos os sucessos mas tampouco revistinhas com letras e acordes (muito menos www.cifraclub.com), eles montaram um birô de transcrição televisivo, que se instalava a cada possível aparição da nova turma de jovens compositores que surgia então. E aí interessava tanto os tropicalistas quanto nomes que nada tinham a ver com rock, como Edu Lobo. Em tempos em que gravadores eram um luxo de poucos, lá ficavam eles: lápis, papel e violões na mão, atentíssimos. Quando entrava a próxima atração, um anotava a letra, outro decorava a melodia, um terceiro tentava acompanhar a harmonia. No baile seguinte estreavam ao vivo em Porto Alegre, em primeiríssima mão, Alegria, Alegria, Domingo no Parque e até a edulobiana Memórias de Marta Saré, que virou um dos seus maiores sucessos daqueles tempos.

Isso se explica também porque ninguém ali era sectariamente rocker. Mimi tinha começado na música tocando pífano na banda do Colégio Parobé e cavaquinho na Escola de Samba Praiana. Fughetti era ligado em samba e Bossa Nova e, sempre tentando aprimorar-se como cantor, enfrentara até a famigerada canção italiana dos anos 60:

participei do primeiro festival de música do Rio Grande do Sul, na Reitoria da UFRGS (Festival de Novos Compositores, 1963). Botei uma banda melódica. (…) Na TV Piratini tinha um concurso que premiava três cantores. Me metia para saber como tava, e tirava o segundo lugar. Me sentia melhor, do tipo já-não-estou-cantando-tão-ruim. Cantava música italiana e metia bronca. (…) Desde os doze anos eu ia para o Rio de Janeiro. Tenho uma tia que, nas férias, sempre me levava para lá. Ia para Praça Onze fazer partituras com os coroa. Não queria que roubassem minhas músicas, compunha um monte e fazia as partituras. 

Empolgados que os diferenciais começavam a dar pé, tomam a decisão que os afastaria definitivamente da centena de bandas de então: iriam compor seu próprio material. Nessa época, no rock, só quem fazia isso eram os já vistos Os Satânicos e os desconhecidos The Bachfools (banda do adolescente Claudio Levitan). Com exceção de Lupicínio Rodrigues e uns poucos jovens autores que Elis Regina tinha gravado recentemente, há quase meio século não havia compositores conhecidos no Estado (até mesmo o sambista Túlio Piva estava esquecido nesse momento). Mas foda-se. O momento era de efervescência, motivado pelos festivais que explodiram no Rio Grande do Sul a partir desse de 1963 de que o Fughetti fala.Agora já estamos em 1968.

Com as primeiras músicas próprias ensaiadas e um punhado de colaborações de amigos, caem nas graças do polivalente Glênio Reis. Um dos melhores amigos de Elis Regina, fora ele um dos maiores incentivadores para que a mocinha fosse embora de Porto Alegre. Havia feito o mesmo com o excepcional baterista Nenê, que trabalhava na banda do seu programa e, a partir de São Paulo, tornou-se um dos maiores instrumentistas brasileiros. Agora seu foco era: esses guris são bons demais para murcharem e morrerem aqui.

Vinte anos depois ele lembrava com paternal ternura:

O Liverpool tinha uma coisa que me agradava muito… Eles faziam um rock que era puramente tupiniquim, brasileiro, tropical. Mas, ao mesmo tempo, estavam em sintonia com o que havia de mais moderno no mundo – apesar de toda a precariedade de condições que eles encontravam. Aquilo que o Jimi Hendrix fazia com uma guitarra de primeira qualidade, o Mimi fazia com um instrumento desgraçado, que às vezes berrava e apagava. Além disso, eram tão guris que o Edinho tinha de pedir autorização para os pais quando eles viajavam

A banda assina contrato com a TV Gaúcha e ganha até um empresário importante: Jorge Além – o popular Gordo Salim. Organizada por Glênio, a caravana do GR Show lotava clubes por todo o Estado, numa iniciativa pioneira para o rock gaúcho. Já não havia a banda GR-Show (lembram?, aquela com Claudio Vera Cruz e Hermes Aquino). No seu lugar iam, em duas kombis: um conjunto melódico que se encarregava do baile; nossos rapazes para fazer o show. Para um bando de moleques proletários do IAPI, era uma Magical Mistery Tour. Fughetti:

O pessoal parava de dançar para observar nossa arte: Bah!, os neguinho quebravam o compasso no meio do salão!” Viramo banda de show, não de baile. Fizemos o Rio Grande pelo menos duas vezes, em tudo que é cidade. (…) Outro detalhe importante é que toda sexta-feira a gente sempre apresentava uma música nova. As pessoas já ficavam esperando, sabiam que vinha chumbo. 


O empurrão que faltava vem em 1969. Dividindo o palco com Carlinhos Hartlieb, eles participam do II Festival Universitário da Música Popular, promovido pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). 

Apresentam duas canções de Carlinhos: Olhai os Lírios do Campo e a esfuziante Por Favor, Sucesso. Um verdadeiro labirinto rítmico, cheio de andamentos diferentes, mas que nunca perde um sentimento de urgência que tem tudo a ver com o arranjo nervoso, cheio de compassos e andamentos alterados – ausentes no original de Carlinhos – e letra totalmente tropicalista, muitíssimo mais sofisticada do que qualquer coisa que algum compositor da cidade ligado ao rock já tivesse composto:  

Procurei você pelo mapa da cidade, perguntei seu nome

Procurei você pelo mapa da cidade, perguntei seu nome

E quilômetros depois eu te perdi

E quilômetros depois eu te perdi

E… e… quilômetros depois eu te perdi

Por favor, estou muito assustado com você!

Ouça, menina:

Essa nova música 

Música

Música, ah…

Que será sucesso durante um mês

Que será sucesso durante um mês

Que será sucesso durante um mês

Por favor, estou apaixonado por você!

Veja, menina: 

Enquanto a chaleira esfria

E fria, ria,

Que estaremos certos durante um mês

Que estaremos certos durante um mês

Que estaremos certos durante um mês

Por favor, não estou mais preparado que você!

Esqueça, menina:

Mastigando sem parar, 

Como fará

Se parar?

Menos três minutos durante um mês

Temos três minutos durante um mês

Menos três minutos durante um mês

Que será sucesso durante um mês 

Menos três minutos durante um mês 

Estaremos certos durante um mês

Que será sucesso durante um mês

Resultado: ganham o festival. Com a vitória, estavam automaticamente escalados para a final do IV FIC, o Festival Internacional da Canção da TV Globo, no Rio. Em uma semana – estamos em setembro -, lá subiam os rapazes no palco do Maracanãzinho, sendo chamados de Liverpool Sound e disputando pau a pau com os mesmos caras que, pouco antes, assistiam embasbacados na TV: Jorge Ben, Os Mutantes, MPB-4, Marcos Valle e até Maysa…


Tomam aquela vaia. E não se classificam pra final. 

Mas também, queriam o quê?!? Para que se tenha uma ideia, quem ganhou o Festival foi a melodiosa e melosa Cantiga por Luciana. Dois anos depois da explosão tropicalista, às vésperas da prisão e exílio de Caetano e Gil, o clima – ao menos no festival da Globo – não estava para experimentalismos. Mesmo destino do Liverpool tiveram os outros – ousados – concorrentes gaúchos, que haviam se classificado na eliminatória paulista: Hermes Aquino e Laís Marques, acompanhados pel´Os Cleans.

Mas é fato que a cena roqueira/tropicalista gaúcha ali presente impressionou e surpreendeu algumas pessoas, como os executivos da RGE que contrataram Hermes, e o pessoal do selo carioca Equipe, que assinou com o quinteto gaúcho. 

Sim! Um LP! 

Sabe o que é isso? Tirando Elis, Teixeirinha, Gildo de Freitas, José Mendes e uns poucos conjuntos melódicos, gaúcho gravando LP era um feito raro. No rock, então, antes deles, só o disco aquele do Baldauf e o LP dos Brasas, de 1968.

Lá se vão de novo para o Rio, rumo à feitura do terceiro álbum do rock gaúcho (com as já tradicionais cartas de autorização dos pais de Edinho e Marcos na bagagem, já que ambos seguiam de menor).

O disco se chama Por Favor, Sucesso, é lançado na virada de 1969 pra 1970, tem texto de contracapa assinado pelo Glênio Reis e é, segundo muitos, a melhor coisa já feita por um artista de rock em terras sulistas. Que o diga, por exemplo, o jornalista Fernando Rosa, o Senhor F, autoridade maior em rock brasileiro dos anos 1960 e 70: 

Eles produziram uma obra que aproximou-se da genialidade dos Mutantes. (…) o disco reúne um conjunto de ótimas composições, com instrumental acima da média e letras inteligentes e expressivas do cotidiano da juventude da época (…) com um impressionante trabalho de guitarra – com distorção no talo e harmonias rebuscadas. (…) Passados mais de trinta anos, a música de Por Favor, Sucesso não soa datada, cobrando com suas elaboradas composições e refino instrumental o reconhecimento que faltou no seu devido tempo.

Além da canção-título e da insólita mistura psicodélica de MPB com Jimi Hendrix chamada Olhai os Lírios dos Campos, há ainda mais duas canções de Carlinhos, ambas em parceria com Hermes Aquino: Água Branca e Cabelos Varridos – cuja letra é cantada duas vezes. Na primeira, os instrumentos e a melodia vão juntos. Já na segunda, os instrumentos seguem e a melodia é cantada como se a música acontecesse na metade do seu andamento. Deu pra entender? Pois é. Melhor ouvir. Tem no YouTube e nos players digitais.

Hermes comparece com mais três canções: a pop Blue Hawaii, que disfarça bem outra encrenca polirritmica como a de Por Favor, Sucesso; Voando, uma festa psicodélica (relançada na virada do milênio na coletânea inglesa Love, Peace & Poetry – Brazilian Psychodelic Music); e uma pérola perdida do pop-rock nacional: Você Gosta?, simpaticíssima parceria dele com ninguém menos que Tom Zé: 

Eu sei que você adora passear de pé no chão

Eu sei que no seu sossego sossega meu coração

Eu sei que você não gosta de me ver sem me arranhar 

Por isso vou lhe perguntar, me responda sem demora: 

– Você gosta de me abraçar? 

Gosta? 

Então me abrace toda hora!

Eu sei que você não gosta de magoar seu coração 

Mas quando eu estou em casa derrama leite no fogão 

E quando bota o açúcar faz o café derramar 

Por isso vou lhe perguntar, me responda sem demora: 

– Você gosta de derramar? 

Gosta?

Então derrame toda hora!

A injustamente esquecida Laís Marques, compositora num tempo onde raras compositoras gravadas havia, comparece também com três canções: a marcha-rancho em tempo ternário (invenção rítmica de Caetano, vide Baby e É Proibido Proibir) Planador; Impressões Digitais, queacumula distorções e feedbacks de guitarras; e Tão Longe de Mim, espécie de sambalanço suingadíssimo, muito envenenado pelas guitarras de Mimi em cima da percussão virtuosa de Edinho. 

Pra fechar, três canções da própria banda: o boogie-pop meiogago Que Mania!, de Pepeco, Mimi e um tal Marquinho; a angustiada Décimo-Terceiro Andar, de Marcos – onde o próprio mostra que poderia ser um bom lead vocal; e a hippie e totalmente tropicalista Paz e Amor – de Marcos e, de novo, o tal Marquinho: 

Sem lutas vou seguindo em frente 

De braços com o meu amor 

E na igreja o sino toca 

Saudando Deus Nosso Senhor: 

Viva o avião! 

Viva o Rei Pelé! 

Viva a cabeleira do Zezé!   

O forte do trabalho é a complexidade das suas divisões rítmicas, que alternam compassos de sete, cinco e nove tempos com uma naturalidade que faz com que a complicação passe batido por quem não souber como ou quiser perder seu tempo contando compassos. Tudo é muito orgânico, vivo e efervescente, em melodias por vezes ousadas, arranjos muito elaborados e rica instrumentação – que mistura uma cozinha poderosa de baixo e bateria com órgãos, pianos, percussões e camadas e mais camadas de guitarras. Além, é claro, de Fughetti Luz, que ao vivo já era uma figura absolutamente carismática, pulando pelo palco sem se importar com a paralisia infantil que lhe deixara uma perna mais curta, e que no disco brilha com uma voz clara e sutil que em nada lembra o vocal rouco e roqueiro que desenvolveria nas décadas seguintes.

Pirateado a torto e a direito, o álbum original vale pequenas fortunas em sites especializados pelo mundo todo (no Brasil, em média 300 dólares). Rendeu um compacto duplo com algumas de suas músicas, mas só foi relançado, em CD e vinil, na Alemanha, em 2009. Numa enquete entre 50 músicos, jornalistas especializados e produtores feita pela revista gaúcha Aplauso em 2007, ficou em segundo lugar entre os melhores discos do rock gaúcho (só perdeu para A Sétima Efervescência, de Jupiter Maçã). 

Sua originalidade e criatividade foram pouquíssimas vezes alcançadas pelo rock brasileiro, em qualquer época. Gerou respeito e renome. Mas por conta do que, no tempo, acabou considerado seu maior mérito – a invenção -,o sucesso pedido ficou no título.

De qualquer forma, era um LP, e por um selo nacional. 

Foi graças a ele que nossos rapazes conseguiram estabelecer-se no Rio de Janeiro do comecinho de 1970. Rio que lhes traz três grandes novidades: contrato de um ano com a TV Tupi, sucesso cult e… drogas. Sim. Até então, nem maconha fumavam. A partir daí, o LSD, em particular, teria seus efeitos – devastadores em Pepeco. 

Sob o impacto dessas cinco coisas (ué, não são três?!? É que elas piscam taaaanto…), voltam a gravar pela Polydor, em 1971. O compacto com Hei, Menina é produzido por Nelson Motta e assinado com o nome que passam a usar: Liverpool Sound. Em seguida, outro compacto, só que duplo, com a trilha do filme teen praieiro Marcelo Zona Sul, estrelado por um muito jovem Stepan Nercessian e cujo maior mérito era a música – a trilha em si, de Geny Marcondes e Denoy de Oliveira, e as canções (que não eram lá grande coisa), compostas quase todas pelo diretor Xavier de Oliveira e apenas executadas pelo Liverpool. 

Mais uma excelente boa-nova: assinam um contrato de um ano com o programa Som Livre Exportação, da TV Globo. Vão viajar muito entre 1971 e 72 com o programa, que, semanal, a cada tanto era gravado ao vivo em gigantescos shows por diversas cidades brasileiras. Estavam novamente lado a lado com ídolos de pouco tempo antes: Caetano, Bethânia, Os Mutantes. Completando o time, Simonal e talentosos novatos saídos do MAU – Movimento Artístico Universitário (como Gonzaguinha e Ivan Lins). Tudo capitaneado pela grande estrela apresentadora da atração: a ex-vizinha de bairro Elis Regina.

Também faziam shows pelos subúrbios cariocas, impressionando o pessoal com o nível de elaboração musical e o peso quase inédito daqueles gaúchos. Num cenário dominado por bandas como The Bubbles – o futuro A Bolha – e Os Famks – futuro Roupa Nova -, eles aparecem elevando a discussão.

O prestígio ia crescendo. Milton Nascimento chega a abrir um show do Liverpool. Em 1972, são, com Milton, Lô Borges, Sá & Guarabyra, Som Imaginário e O Terço, das principais atrações do “Dia da Criação”, que muitos apontam como o primeiro festival hippie do Brasil, em Caxias, no Rio. No mesmo ano, Som Livre Exportação mais do que especial: no Auditório Araújo Vianna, em Porto Alegre, com sua lotação de seis mil pessoas esgotada. O programa vinha pela primeira vez ao Estado e com o Liverpool. Foi das melhores performances da banda. Quem viu, lembra. Representantes da Som Livre e da Philips viram. E manifestaram, ambas, interesse pelo passe da banda então sem gravadora.

Só que, fora do palco, as coisas não iam bem. Fughetti conta sua versão: 

Era tudo de mentira! Esse lance de ficar trabalhando na Globo e mangueando em Copacabana… Só se jogava conversa fora, papo de praia, sem ir nas profundezas, na essência do ser… 

Ele começa a dizer nãos: 

E só eu que dizia não

E teve mais, como contou em longa entrevista para o jornalista Juarez Fonseca, em agosto de 2015:

E na Globo eles queriam arrumar os meus dentes, porque desde criança eu tenho os dentes separados. E eu disse: então o seguinte, feito, vocês arrumam os meus dentes, mas com uma condição, que é arrumar minha perna! Vocês conseguem arrumar minha perna? Cara, eu sou assim desde pequeno, a perna é um presente que eu ganhei para atravessar o planeta, minha caminhada no mundo. A pessoa é o que ela é. Então deixem os meus dentes, e me filmem assim, vai dar tudo certo. 

Eu comprava essas paradas…

Mimi completa:

Então, Arthur: a nossa educação no RG do Sul é muito severa. Acho que quando o cara vai morar numa cidade maior, saindo de Poa, a pessoa desbunda! Para nós, provincianos do IAPI, foi muito legal vir logo para o cosmopolita Rio de Janeiro. Dá uma quebrada com swing. Acostumados a fazer o que tínhamos na cabeça, isso provocou uma profunda mudança no peso de nosso som. 

(Mas foi na Porto Alegre que fizemos o curso de todos aprendizados para o mundo. Principalmente no IAPI, onde conheci Jimi Hendrix, Eric Clapton, Allan Holdsworth, Clapton na época do Bluesbreakers. Ainda no quartinho da Vila tirei memoráveis solos de LittleGirlHideaway. Mas Hendrix foi o que mais influiu.)

Nós éramos garotos inocentes, buscando novos caminhos. Queríamos tocar guitarra, gritar nos vocais, suar a camiseta. Era essa a nossa onda. 

Cazuza decidiu ser músico depois de assistir uma apresentação do Liver na praça Nossa Senhora da Paz, coração de Ipanema, em 1972. Na época eu despertava alguma curiosidade pelo som que tirava do instrumento. Muitos vinham trocar uma ideia.

Na verdade o Liverpool conseguiu uma boa comunicação com a indústria do entretenimento. Mesmo os nacionalistas nos considerando sem conteúdo, não éramos subservientes. Quebra de tabus, drogas, morte do Hendrix, da Joplin, enfim um desbunde geral, acontecendo tipo uma revolução cultural, a patrulha nacionalista nos julgando alienados.

Justo o Liverpool, a honrosa exceção de banda minimamente politizada no cenário do rock gaúcho que, mesmo em tempos de AI-5, era totalmente avesso a qualquer interesse político, de esquerda ou de direita – ao contrário do pessoal da MPB e da tropicália gaúcha. No que, sem espanto, repetiam o cenário nacional, onde os roqueiros da Jovem Guarda e até Os Mutantes e outras bandas não ligadas à estética JG estavam tão distantes quando desinteressados dos rumos da política nacional, mesmo com a ditadura fazendo suas vítimas.  

Mimi, lembrando da primeira experiência traumática na área, ainda em Porto Alegre:

A Arte por si só é essencialmente política. O que as bandas de rock anos 90 e atuais não sabem é que tocar rock na ditadura foi uma prova de fogo. 

Era permitido arrancar as pessoas de suas casas. 

Uma vez, saindo de uma reunião, a gente tava na escadaria do prédio quando, de assalto, dois caras: calças jeans, jaqueta, armados. Nos renderam.  Pediram para o Fughetti abrir a porta. Ele argumentou que eles não tinham mandado. Levou logo uma coronhada e abriu rapidinho. Começaram a procurar flagrantes quando, de repente, surge dona Leonita, mãe do Fughetti, suplicando a eles que não prejudicassem os meninos. Aqueles caras que se diziam policiais eram realmente da polícia. Mesmo sem nada encontrar, nos levaram. Já na delegacia tivemos que ouvir de um repórter que iam nos colocar com fotos nas páginas policiais. O delegado dizendo que ainda ia botar em cana esse tal de Hermes Aquino. Coitado do Hermes.

Essa foi moleza.

Na segunda, a barra pesou. Pecus se meteu num rolo com drogas, a polícia começou a marcar de cima e a pressão foi demais para sua cabeça. De maluco-beleza, o garoto cheio de vida passou a maluco de carteirinha. Mimi: 

Terminavam as músicas e ele continuava tocando… O público até gostava, achava genial, mas não era arranjo nem nada. Era loucura mesmo.

E aí a terceira, ao amanhecer de mais uma noite em que Pecus passara insone e infernizando a todos com seu violão de 12 cordas. No meio de um acorde, ele sai porta afora. A banda morava todos juntos, num sítio no interior do Rio, naquele clima hippie-comunitário também adotado pelos Mutantes e os Novos Baianos nesses anos. Ensaiavam dia e noite um show novo e tomavam variadas porcarias. 

Quando se deram conta de ir atrás de Pepeco, ele já não estava à vista. Os minutos viraram horas, que viraram dias. E ele não voltou. No lugar do amigo, quem pinta é a sujeira: a polícia invade o local de surpresa e, pra piorar um cenário já suficiente bandeiroso, o tal sítio tinha sido emprestado por “subversivos inimigos do regime”. 

Foram longos meses até receberem notícias de que Pepeco fora localizado. No Maranhão. E que tinha ido até lá pedindo carona improvisando repentes ao violão. 

Mas aí o Liverpool não existia mais. 

E pior: tinha amargado uma cana braba. Cana braba em 1972, época mais terrível da ditadura militar. Imaginem Edinho, com cara de garoto imberbe e cabelos pela cintura, passando por uma galeria central ovacionado aos gritos de “Oba, carne nova!”. A sorte é que, menor de 21, foi quase imediatamente liberado, enquanto os outros se apressavam em conseguir instrumentos musicais pra animar a galera da forma mais saudável possível – já que as outras opções não eram das melhores. 

Logo quem os prendeu descobriu que o lance daquele bando era música mesmo, e não guerrilha. Escapar do pior, escaparam. Mas já soltos, verão de 1972 pra 73, acabam com a banda, e Fughetti e sua mulher Zefa se mandam pra Europa. Morria ali o primeiro sonho roqueiro gaúcho de conquista do cenário nacional. 


Diáspora. 

Logo que sai de cana, Mimi volta pro IAPI, onde, veja só, reencontra Pepeco – que tinha voltado do Maranhão aparentemente mais calmo. Marcos e Edinho resolvem seguir tentando a vida no Rio. Fughetti, sem falar nada além de português, se manda com sua Zefa pra rodar pela Europa.

Mas era ainda 1973 quando o guitarrista gaúcho Zé Vicente Brizola procura seu ídolo Mimi com uma proposta. O filho do homem que era o exilado mais famoso de então lhe pergunta: “vamo fazer uma banda?” 

Para seu espanto de fã do Liverpool, Mimi não só topou como chamou Edinho e Marcos. Resolvem incrementar o som com um tecladista e o escalado é nosso velho conhecido Cláudio Vera Cruz (ainda passariam pelo posto o gaúcho Paulo Casarin e o carioca Renato Ladeira). Completando o time, revezando baixo e violões com Marcos, mais uma chance para Pecus. Que já chegou batizando a banda: quem mais poderia, enrolando um, ter a ideia? 

BichodaSeda!, grita Pepeco. – Melhor: Bixo com ‘x’, que ‘ch’ não funciona!

O Bixo da Seda estreia no palco do Clube de Cultura, num show lotado, quente… e tenso. Pecus repetiu o número de não notar que o espetáculo terminara e seguiu tocando seu inevitável 12 cordas noite a dentro. O público bixo-grilo deliciado. A banda, puta. Tanto que, quando chegou do Rio de Janeiro o convite para que eles fossem uma das atrações de um festival de rock, o baixo foi definitivamente assumido por Marcos e Pepeco, o Pássaro, convidado a voar pra fora do ninho (o que era inevitável, mas, segundo alguns, foi decisivo pra que o Bixo não tivesse a mesma febril loucura do Liverpool). 

Nem um ano havia passado e eles já estavam convidados para voltar pro Rio – menos Vera Cruz, que preferiu ficar. O Rio de Janeiro continuava lindo. E um tanto inóspito praquela gurizada ainda um pouco suburbana. Zé Vicente logo se mandou pro Uruguai para encontrar o pai Leonel Brizola. Mas, em compensação, quem tinha reaparecido cheio de histórias pra contar?

Fughetti. 

Tudo que ouvia no meu quarto no IAPI pude ouvir ao vivo na Europa. Tinha um pub na esquina da minha casa, e lá vi o Yes, The Who. Na Holanda, fiquei três dias no Museu do Van Gogh. Musicalmente, descolei trabalho, trabalhei para isso. Mas não estava lá para aprender o idioma deles, estava somente dando uma banda, não sabia onde ir. Comprei uma kombi-house e viajei de Londres para França, Holanda, Bélgica

A aventura durara um ano e dois meses, no meio dos quais nasce sua única filha, batizada Shanti Luz. Ia tudo bem até que um problema com a imigração o manda de volta para seu País de origem. A mulher e a filha vão de avião, Fughetti é embarcado num navio. Só que, pra pagar sua passagem, teria de trabalhar, fazendo alguma coisa. Não teve dúvida: 

Podexá que eu cuido da farmácia.

A princípio, ele não queria se juntar à troupe. No curto espaço de tempo desde seu retorno da Europa, ele tinha montado uma banda chamada Laranja Mecânica, composto o repertório de outra, batizada de Trilha do Sol e assumido os vocais numa terceira, o Bobo da Corte (que tinha bons músicos como o baixista Flávio Chaminé e a baterista Gatinha). Sem falar no livro de poesia que bancou do próprio bolso e distribuiu pela cidade atirando o dito cujo pelas janelas dos ônibus! 

Mas a cada tanto, rolava um clima. Os três amigos saudosos ficavam convidando, convidando… 

Até que um dia.

Um dia o Bobo da Corte abriu um show pro Bixo, Fughetti deu uma canja e pronto: the song remains the same. Saldo final: Bobosem vocalista e o Bixo da Seda, agora um quarteto, novamente como produto 100 % IAPI. 

O que sempre fora motivo de grande orgulho. Os cinco – Pepeco incluído – sempre tiveram (até hoje tem) um curioso bairrismo, de guri criado jogando pelada num campo de futebol de dimensões oficiais vaidosamente chamado de Estádio Alim Pedro (que sediou jogos históricos como Bixo-da-Seda x Gilberto Gil & banda). De turma tocando em rodas de samba pelas ruas quase interioranas, cadeiras na calçada, chimarrão no fim da tarde e Beatles no violão vagabundo. De uma gente humilde, trabalhadora e, em alguns casos, ansiosa por ebulição. Edinho: 

Pra nós, a Vila nunca deixou de ser o máximo. Tinha tudo o que a gente sonhasse ter. Nos tempos do Liver, então, o Menino Deus (bairro mais central da cidade) já era o fim-do-mundo… Sempre que a gente pôde, voltou pra Vila

São Paulo dá café, Minas dá leite e a Vila do IAPI… dá rock.

Bora pro Rio.


A tal estreia nacional foi no Festival da Praia do Leste, um dos primeiros só de rock no Brasil. E não podia ter sido melhor. O público, nada flower power, premiava com areia o desempenho das bandas participantes. O Terço, O Som Nosso de Cada Dia e Rita Lee & Tutti Fruti tinham sido praticamente soterrados. Aí os guris subiram ao palco – vamos no termo exato – cagados. Quinze minutos do show e a rapêize do bêise tinha se acalmado. A noite tava ganha e os cômoros de areia preservados.

O segredo do Bixo era simples: ao invés do rock tropicalista e elaborado que faziam no Liverpool, agora o lance era inequivocamente rock’n’roll stoniano – ainda que com eventuais vôos progressivos bem ao gosto das bandas inglesas da época. Tudo incendiado pela guitarra de Mimi, cozinhado por Marcos e Edinho e com um espetacular performer: Fughetti Luz, que sabia aproveitar a imagem de fauno que os longos cabelos e a barba considerável já lhe davam. E pulava ensandecido pelo palco. 

Só que, se a música estava mais simples, a vida estava complexa. Ninguém mais ali era criança – nem Edinho. Já havia famílias e casa pra sustentar. Só ficar no Rio já era um esforço que precisava valer a pena. Além disso, nenhuma banda de rock estava se dando muito bem na época. Até pros Mutantes (agora só com Sérgio Dias) estava ruim – e eles também tinham feito um caminho parecido, saindo da invenção tropicalista pra semi-clonagem do rock progressivo inglês da época. O público roqueiro de meados dos anos 1970 era fiel, mas pequeno – e composto basicamente de malucos movidos à chá de cogumelo sonhando com Woodstock e com pouco ou nenhum dinheiro. 

Para uma banda que, com outro nome, havia sido contratada da TV Globo, o contraste era complexo. 

Aí foi aquilo: fizeram seu nome nos festivais de rock – como o de Saquarema. Arrasaram em Porto Alegre, na abertura das Rodas de Som organizadas pelo velho chapa Carlinhos Hartlieb em 1975. E dividiram palcos nacionais com os maiores artistas do gênero de então – de Raul Seixas e Rita Lee a O Terço e Made in Brazil. Mas seguiam, como a imensa maioria do rock da época, a quilômetros de distância do efetivo showbizz. E olha que tentaram. Apelaram até pro banho de butique, clima Glam Rock que havia ajudado o Tutti Frutti – e quem conhece os rapazes começa a rir só de imaginar. 

Mas veio um disco, e com uma certa moral de investimento da gravadora Continental – que fez, por exemplo, Renato Ladeira deixar sua banda A Bolha para entrar como tecladista efetivo.

Só que o resultado deixou muito a desejar.

Para seus contemporâneos, o álbum Estação Elétrica, lançado em 1976 com luxo e capa dupla e reeditado algumas vezes em LP e CD, é uma pálida imagem do que era o Bixo ao vivo. Entre os membros da banda, nenhum deles gosta do resultado. E apontam como um dos maiores problemas o técnico: um americano importado pela gravadora que não falava uma palavra de português – os rapazes tampouco falavam inglês – e cuja única credencial era “trabalhou em Woodstock”. A piada era: fazendo o quê, ninguém sabia.

De qualquer forma, para quem não tem como comparar, é um disco feito por músicos sofisticados, com suas já características quebras de ritmo e andamento, e aquelas harmonias de quem sabia tocar Bossa Nova. Houve quem adorasse o disco, e há até hoje. Afinal, ele tem instrumentais viajandões com aqueles compassos quebrados tão ao gosto dos rapazes – como Vênus e Sete de Ouro (parcerias com o baterista e compositor Vinícius Cantuária). Também tem rocks básicos 70´s assinados por toda a banda, como a própria Bixo da Seda ou Um Abraço em Brian Jones. E parcerias de Mimi e Fughetti – que, nessa época, assinava Fuguett -, como as totalmente fughettianas Já Brilhou e Trem, com aquelas letras hippies repletas de mística rocker que vão ter uma penca de herdeiros no rock gaúcho dos anos 1980.  

Lançam o disco, que vende pouco – como vendiam pouco todos os discos de rock que não fossem de Rita Lee ou Raul Seixas. E seguem com shows em Porto Alegre e no Rio, mas que não são suficientes pra manter as contas em dia. Mesmo indo dos bailes blacks dos subúrbios cariocas ao gaúcho Teatro Leopoldina, para garantir o leitinho das crianças tinham de fazer uns bicos como banda de apoio e chegam até a gravar uns jingles. 

Mas aí foi demais pra Fughetti, que se bandeia de volta para sua terrinha. 

Mimi:

Saindo das limitações da vila, que era nosso universo de futebol, música, namoros, para o mundo da competição, conhecendo outros tipos de artes, caminho fácil para se chegar aos desbundes e pirações, no meio do sucesso ele foi capaz de recusar o que ninguém recusaria, tipo gravar um jingle pra coca-cola ou não gravar uma música do Caetano para abrir uma novela. Ele era subestimado pelos nacionalistas e desprezado pelos direitistas, uma bandeira inquieta e solitária. Sou testemunha do grande artista que ele é, uma referência.

Deviam ter acabado ali, mas não o fizeram. 

E duraram mais do que deveriam. Em 1979, quando as garçonetes da discoteca do Nelson Motta estouram em todo o país como As Frenéticas, quem reparasse bem – mas bota reparar nisso – podia notar que, fantasiada de astros disco, a banda de apoio era um trio que antigamente se chamava… Bixo da Seda. Aqueles mesmos rapazes lá do Liverpool, que haviam sido produzidos pelo mesmo Nelson Motta poucos anos antes… 

O sonho, definitivamente, tinha acabado.

Em 1981, também como banda de apoio, fazem uma brilhante participação no disco de estreia do cantautor gaúcho Bebeto Alves. Uma última tentativa de retomada ainda é feita entre 1984 e 1985, animada pela explosão do novo rock brasileiro. Nela estão Mimi, Marcos e Edinho, mais o maior guitarrista gaúcho da geração seguinte a eles: Zé Flávio, que vinha de tocar com os Almôndegas e Kleiton & Kledir. Nos vocais, primeiro tentam um sujeito chamado Vidigal, depois chamam um iniciante porto-alegrense discípulo de Fughetti: Alemão Ronaldo, já então líder da nascente Bandaliera, assumidamente inspirada no Bixo. 

Não deu em nada.


Mas a partir dos anos 1990, a cada tanto o pessoal se junta – como no épico show de reabertura do Auditório Araújo Vianna, em 1996, com Fughetti e a Banda Marcial do Colégio São João.

Ou em outros tantos com algum vocalista convidado, geralmente Marcelo Guimarães. 

E sempre fazem bonito. Afinal, até hoje o som peculiar construído pelos cinco carinhas do IAPI tem fãs espalhados pelo mundo. 

Renato Ladeira lembra: 

Os caras tocavam ritmos completamente quebrados com uma naturalidade de quem estava no compasso mais banal do mundo. Isso e as harmonias do Mimi espantavam muito o pessoal do rock.

João Baptista, ex-baixista dos Almôndegas: 

A época era de Mutantes e o Liver estava muito à frente deles em termos de harmonia. 

Foram o melhor grupo que o estado já teve.    

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