Porto Alegre: uma biografia musical

Capítulo C – Os Anos 70: Almôndegas (parte 5)

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Capítulo C – Os Anos 70: Almôndegas (parte 5) Kledir, Gilnei, João Baptista, de pé; Kleiton e Zé Flávio agachados

O segundo disco, lançado em novembro numa temporada de quatro dias e cinco shows no Teatro Leopoldina (dois no domingo, incluindo um matiné pra crianças), impulsiona o crescente sucesso local do quinteto. Show mais trabalhado que o anterior, com direção musical de Celso Loureiro Chaves e cênica de Luiz Arthur Nunes.

Poucos dias antes, comprovando a quão inclassificável era seu som, tinham participado do festival Banana Progressiva, em São Paulo, dividindo a noite com o inequívoco rock dos também gaúchos do Bixo da Seda. 

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Serão também, invariavelmente, a atração principal de todos os concertos Vivendo a Vida de Lee de que participam. Tanto em Porto Alegre (estão no primeiro e no último) quanto em Caxias do Sul ou Curitiba.

Aumenta a tentação de sair da província e estabelecer-se no centro do País.

Tentação que fica coçando enquanto fazem esses e mais muitos outros shows durante todo o ano de 1976. Um deles, histórico:  ao lado da Orquestra de Câmara da OSPA, numa iniciativa então pioneira no Estado (juntar um artista popular e uma orquestra num mesmo palco, ideia que se tornaria muito comum em Porto Alegre vinte anos depois). Incluídos ali arranjos escritos pelos estudantes de composição e regência Kleiton e Kledir Ramil.

Pra ajudar, a Gravadora Continental lança um compacto duplo para aproveitar o sucesso de Canção da Meia-Noite na novela Saramandaia, que estreou na Rede Globo em maio com absoluto sucesso. No disquinho estão, além de Canção da Meia-Noite: Elevador, Haragana e Amor Caipira e Trouxa das Minas Gerais. De brinde, estrearam um clipe da canção no Fantástico com direito a Kledir vestido de inquisidor medieval e Kleiton de soldado romano…

Chega 1977 e, novamente graças a Roberto Santana, finalmente se materializa o contrato com a Phonogram. Era uma gravadora maior e muito melhor estruturada do que a Continental. Por exemplo: ofereciam pagar o aluguel e vale-alimentação se os rapazes fossem embora pro Rio. 

Era a hora.

Naquele momento, afora Elis e Teixeirinha, eram os maiores artistas do Rio Grande do Sul (seguidos pela explosão de Hermes Aquino, que havia estourado nacionalmente com Nuvem Passageira também graças a uma novela da Globo: O Casarão).

Mas não era bem assim mudar-se, de mala e cuia, deixando tudo pra trás num salto no escuro. Quico, hoje professor aposentado e ex-reitor da Universidade Federal de Pelotas, a UFPEL, teve de tomar uma decisão. O depoimento é de 2002:

Chegamos à mesma conclusão que todos os artistas da época… O sucesso nacional só poderia ser consolidado se o grupo fosse viver no centro do universo musical brasileiro, onde tudo acontecia: o eixo Rio-São Paulo. 

Nossa gravadora resolveu bancar a aventura: ofereceu um ano de Rio de Janeiro com apartamento e comida, o que era uma proposta irrecusável.

Ou quase. 

Ao menos pra ele: 

Faltava u-m-a disciplina pra me formar em Engenharia Eletrônica na UFRGS… 

Aí, depois de pesar os prós e os contras, e com muita dor na alma, optei por sair. Quem ocupou meu lugar, com maior brilhantismo e muito mais competência, foi o Zé Flávio, contando inclusive com meu próprio voto. E é verdade que em minha decisão pesou, tanto ou mais, uma grande paixão em Pelotas e que perdura até hoje, 25 anos depois…

O último show de Quico no grupo também seria, ironicamente, o último Vivendo a Vida de Lee, em dezembro, no tão conhecido deles Teatro Leopoldina.

Enquanto isso, Zé Flávio:

Nestas épocas pré-diluvianas eu era apenas um jovem maconheirinho que curtia Hendrix e afins, (…) era de outra turma. 

Zé Flávio, Kleiton, Kledir, João Baptista, Gilnei: a segunda formação.

Modéstia à parte, depois de todos os hits que tinha dado à banda, Zé (um dos compositores mais influentes da nossa geração, segundo Quico) era mesmo a opção óbvia. 

Kledir:

Zé Flávio – músico genial -, foi a escolha natural: além de amigo, era o compositor de sucessos da banda. Não tínhamos tanta intimidade no início, mas ela veio rapidamente, pois entramos numa Kombi e viemos morar todos juntos, em um apartamento de dois quartos, no Rio de Janeiro.

A vinda pro Rio mexeu com todos nós, mas acredito que mais especialmente com o Zé. Era a primeira vez que ele saía de casa. Ganhou muita experiência e perdeu outras coisas. O que eu mais lamento é que foi deixando de compor com a genialidade que tinha quando estava quieto em Porto Alegre. Ele escrevia super bem. Acabou se dedicando mais ao instrumento, muito incentivado pelo Baptista, cujo objetivo era mais esse.

Zé começou na banda tocando violão, mas sua paixão sempre foi a guitarra, como a gente sabe. Aos poucos ela também foi sendo incorporada, o que transformou Almôndegas numa puta banda com baixo, batera, guitarra… mas com um vocal sem tanto brilho. Coisas da vida. Perdas e ganhos, como diria Lya Luft.

Essa trajetória, o rumo que as coisas foram tomando, não foi apenas contribuição e responsabilidade do Zé e do João. Na verdade nossa maior inspiração sempre foram os Beatles, e a vontade, desde criança, era ter uma banda como a deles. Quando guri, eu tocava violão porque não tinha guitarra. Almôndegas começou com percussão porque ninguém tinha bateria.

Sem Quico nem Pery, a dupla Kleiton e Kledir tem de assumir todos os vocais principais – ainda que auxiliados por João Baptista e Zé Flávio, mas nenhum dos dois era efetivamente “cantor”. Acabaram centralizando a liderança do grupo.

Kledir, em 2002 (Quico ainda não tinha se aposentado):

O Quico ficava sempre com as melhores mulheres. A concorrência era desleal, um cara com olhos cor de ardósia e aquela voz de baixo profundo cantando Leticiá, em francês… Quando ele resolveu sair, nossa vida melhorou sob esse aspecto. Em compensação, sob todos os outros foi um baque muito grande. Toda a força das vozes, dos vocais estaria comprometida dali pra frente. E o seu toque original da viola de 12 cordas (que, aliás, foi uma ideia dele), virou marca registrada da banda e deu grandes alegrias para o departamento de vendas das fábricas Giannini e Del Vecchio.

Quico tinha potencial para se transformar em um dos maiores compositores da nossa geração. Por isso, imagino que não deve ter sido fácil pra ele tomar a decisão de sair, provocada pela mudança da banda pro Rio de Janeiro. Largar tudo e ir morar no Rio era um passo no escuro, um daqueles momentos da vida em que a gente para e pensa: o que é que eu tô fazendo? Quico não quis entrar na aventura que seria nossa vida dali pra frente. O coração também pesou. Ele se formou, casou com a Soninha, foi ser professor da faculdade em Pelotas e me parece um cara realizado e tranquilo com sua decisão.

Para Vitor Ramil, que tinha 13 anos em 1975, foi uma tristeza:

O Quico é um cara sensacional, sempre foi. Lembro dele cantando If, no pátio da casa onde vivo hoje, sob o varal. Era meu ídolo.

Gilnei, Polaca, Quico (com a guitarra) e, loirinho, seu groupie Vitor, mais Pery, atrás.

Quico:

Antes que os guris comecem a contar sua aventura carioca, da qual não participei (mas da qual sei muuuuuuuita coisa) é preciso que saibas que durante muito tempo juntamos dinheiro para comprar equipamento de som, instrumentos melhores etc. 

Quando saí da banda, cavalheiro que sou, deixei minha parte da grana com meus amigos, que compraram uma Kombi tri-legal, o fino do equipamento de som, violão de dois braços, patrocinaram orgias (…).

Outro dia andei fazendo umas contas. Assim, por cima, Kleiton, Kledir, João B., Gilnei e Zé Flávio me devem mais ou menos US$ 1.207.438,00. É um preço muito barato por meu silêncio.

Kledir, Gilnei, João Baptista, de pé; Kleiton e Zé Flávio agachados

Ensaio fotográfico chique, com o badalado artista gráfico e fotógrafo de Hong-Kong  Basil Pao, então colaborador frequente dos ingleses do Monty Phyton

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