Porto Alegre: uma biografia musical

Capítulo LXXXIV – Anos 60: Os Arquisambas

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Capítulo LXXXIV – Anos 60: Os Arquisambas

Foi na ressaca do golpe civil-militar de 1964 que o Brasil entrou na Era dos Festivais. Como vimos, eles já aconteciam em Porto Alegre desde 1963, mas só explodiram pelo País a partir do sucesso do I Festival Nacional de Música Popular Brasileira da TV Excelsior. Vencido, dia seis de abril de 1965, pela até então desconhecida Elis Regina, cantando “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes. Desconhecida fora do Rio Grande do Sul, é claro. Porque em seu estado já era uma estrela.

Explode aí no Festival de MPB da Record a moderna música popular brasileira que será batizada de… MPB (e um dos motes da sigla é justamente este festival). 

Também por causa da ditadura (mas não só), com apenas cinco anos de vida a ensolarada bossa nova rapidamente se tornara uma música do passado em seu País. Ao mesmo tempo, começava a ganhar mundo, lançada num concerto no Carnegie Hall de Nova York e tornando-se uma música mundial a partir do álbum Getz-Gilberto, do jazzista Stan Getz em parceria com o inventor da porra toda, João Gilberto (LP puxado pelo extraordinário sucesso de “Girl of Ipanema” cantando por Astrud Gilberto).

Em Porto Alegre, apenas dois meses depois da final do I Festival de MPB, acontece o Arquisamba, organizado pelo pessoal do DAFA, o efervescente Diretório Acadêmico da Faculdade de Arquitetura da UFRGS. Estamos em junho de 1965.

Curioso é que batizaram de “samba” um festival integrado por alguns dos maiores nomes nacionais da bossa e da nascente MPB, misturados com alguns gaúchos do mesmo time. Tudo gente de classe média, quase todos brancos. Ainda não estávamos no momento da redescoberta do samba dos pretos e pobres, o que só aconteceria uns poucos anos mais tarde. Ninguém pensou, por exemplo, em convidar Lupicínio Rodrigues, Johnson ou Rubens Santos, Lourdes Rodrigues ou Zilah Machado, todos pretos, todos sambistas (os homens há três décadas, as mulheres há pelo menos uma) para um festival que tinha samba no nome. 

Seriam cinco edições até 1968. Começando com este, realizado no Salão de Atos da Reitoria da então URGS (ainda não UFRGS). Nos anos seguintes o público cresceu tanto que os Arquisambas deslocaram-se para o gigantesco Cinema Cacique, na rua da Praia. 

Mas foquemos no primeiro: sua viabilização, em tempos de ditadura, teve de usar uma artimanha curiosa, numa universidade federal: a proposta foi apresentada como uma “palestra musicada de Aloísio de Oliveira”.

Aloísio, você lembra, era o líder do Bando da Lua, que foi com Carmen Miranda para os Estados Unidos em 1939, para 20 anos depois tornar-se uma figura-chave na bossa nova. Tanto como dono da gravadora Elenco quanto na função de produtor de alguns dos discos mais icônicos da BN, como Chega de Saudade, o primeiro LP de João Gilberto.

O show – digo, a “palestra musicada” – teve como apresentador o animadíssimo DJ e comunicador Glênio Reis. Na abertura, apresentações curtas do trio Zé Gomes, Ivaldo Roque e Vladimir Latuada, Geraldo Flach e Malú Pederneiras, as “Irmãs Marques” (Laís e Sílvia) e o Aldo Astaf Quarteto. Seguiu-se a palestra de Aloísio e então as atrações nacionais: Silvinha Telles, Baden Powell, Rosinha de Valença, Edu Lobo e o Tamba Trio, de Luiz Eça. 

Antes de 1965 terminar, ainda estreia, da seis de novembro, o show Mais Que Nunca é Preciso Cantar, que será um imenso sucesso de público, primeiro no Parque de Exposições do Menino Deus e seguindo para uma temporada no antigo Teatro de Equipe, desde 1965 rebatizado de Teatro Experimental Álvaro Moreyra. O espetáculo era, evidentemente, de protesto à ditadura, tirando seu título da Marcha da Quarta-Feira de Cinzas, de Carlinhos Lyra e Vinícius. O elenco, misturando atores e músicos, tinha, tocando, nossos já conhecidos João Palmeiro, Mutinho, Ivaldo Roque e Zequinha Guimarães (o ex-Zequinha Guanabara). Cantando e atuando, Marlene Rupperti, Vinicius Salvatori e Carlos Augusto Chagas, sob direção de Armando Piazza Filho.

No seu já várias vezes citado aqui texto sobre os anos 1960 na música de Porto Alegre o jornalista Juarez Fonseca conta:

Nesse show Zequinha Guimarães fez uma das últimas apresentações com a turma. No início do ano seguinte, dizendo aos amigos que iria continuar seus estudos de Medicina com um curso de pós-graduação na Bahia, ele passa à clandestinidade. Na verdade, fora para Cuba fazer um curso de guerrilha, preparar-se para a luta armada contra a ditadura.

Os festivais de Rio e São Paulo são o assunto do momento, e levam as audiências televisivas às alturas. Pois dia 6 de maio de 1966, no Teatro da Reitoria da URGS, acontece a segunda das cinco eliminatórias do II Festival Nacional de MPB da TV Excelsior. Foi a primeira aparição para o grande público de um jovem cantor mineiro chamado Milton Nascimento, então com 23 anos, e prestes a estrear em disco graças a sua amiga Elis Regina, que gravaria Canção do Sal no seu LP Elis, deste ano. Já o festival não tinha Elis, mas contava com sua quase rival, a então muito jovem cantora Cláudia, que botou todo mundo de pé na eliminatória gaúcha, pedindo bis.

A produção do festival da Excelsior revezava cidades nas eliminatórias, numa busca de maior abrangência nacional. E também incluía não só compositores, mas também intérpretes vindos de várias cidades brasileiras. E aí um punhado de cantoras e cantores gaúchos desconhecidos fora da sua cidade se espalhou pelo Brasil nas eliminatórias: Fernando Colares (Porto Alegre), Érica Norimar e Roberto Gianoni (Recife), Edgar Pozzer (Rio). Pozzer e Érika chegaram à final, ainda não tenham ganho nada. Na verdade, esse não foi um grande festival. O mais importante nele foi ter revelado Milton como intérprete (cantando Cidade Vazia, de Baden Powell e Lula Freire, quarto lugar) e Caetano Veloso como compositor (com Boa Palavra, interpretada por Maria Odete, que ficou em quinto e também seria gravada por Elis no seu LP daquele ano).

Voltando ao Arquisamba, agora no Cine Cacique, acontece em 17 de outubro de 1966 a sua segunda edição. Essa tem como grande atração as estrelas do mega-sucesso A Banda: Chico Buarque de Hollanda e Nara Leão. Que, apenas sete dias antes, haviam vencido o II Festival de MPB da Record, empatados com a Disparada de Geraldo Vandré e Theo de Barros. E não só: a noite se completava com as jovens do Quarteto em Cy, o já veterano bossanovista Oscar Castro Neves e o Bossa Jazz Trio.

Antes de seguir adiante, vale citar a escalação dos Arquisambas seguintes.

Em 1967, Arquisamba III: de novo Oscar Castro Neves e o Quarteto em Cy, desta vez trazendo junto seu grupo vocal espelho, o MPB-4. Mais Sidney Miller e ninguém menos que Vinícius de Moraes. Na abertura, o Adão Pinheiro Trio.

Em abril de 1968, pela terceira vez Oscar Castro Neves e o Quarteto em Cy, pela segunda Sidney Miller, Baden Powell e Edu Lobo (estes dois últimos agora consagradíssimos), mais Gracinha Leporace e, falando, o jornalista/personagem Stanislaw Ponte Preta.

A última edição, já em 1969, ignora de vez o “samba” do nome. É o Arquisamba Tropicalista, produzido pela Signovo, produtora de Cláudio Ferlauto (irmão do futuro pianista e compositor Léo Ferlauto), Pedro Mohr e Antonio Aiello. E que traz um timaço: Os Mutantes, Gal Costa, Tom Zé e Os Brasões. Ou seja: todos os tropicalistas disponíveis, já que Caetano e Gil estavam no exílio.

Mas aí pulamos uns anos poucos mas intensos, e já estamos na Porto Alegre tropicalista.

Voltemos um tanto. 

Cartaz do derradeiro Arquisamba

Guitarra em punho, atenta e forte, Gal no Arquisamba tropicalista.

Abaixo, fotos dos Mutantes que seriam utilizadas no cartaz e nas divulgações, tiradas já no aeroporto pelo jovem Ivan Pinheiro Machado, para o jornal Pato Macho.


Arthur de Faria nasceu no ano que não terminou, é compositor de profissão (20 álbuns e EPs) e doutor em Lupicínio pelas Letras da Ufrgs. Publicou Elis, uma biografia musical (arquipélago, 2015) e tá no prelo Porto Alegre, uma biografia musical, Volume 1, reunindo as primeiras colunas publicadas aqui.

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