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“O Homem do Norte” revela o Hamlet viking

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“O Homem do Norte” revela o Hamlet viking Universal/Divulgação

Considerado um dos renovadores do terror contemporâneo ao lado de realizadores como Ari Aster e Jordan Peele, o diretor Robert Eggers lançou seu olhar enviesado para a mitologia nórdica e suas sagas. Inspirado na lenda viking de Amleth e na tragédia shakespeariana de Hamlet, O Homem do Norte (2022) é a nova incursão ao passado do realizador dos impressionantes filmes também de época A Bruxa (2015) e O Farol (2019). O drama de aventura entra em cartaz no Brasil nesta quinta-feira (12/5).

A ação de O Homem do Norte se passa no final do século 10, na região da Escandinávia, na Islândia e na Europa Oriental. O príncipe Amleth está prestes a atingir a maioridade e ocupar o lugar do pai, o rei Aurvandil (Ethan Hawke), quando o monarca acaba sendo brutalmente assassinado pelo próprio irmão e companheiro de armas. Além de usurpar o trono, o regicida Fjölnir (Claes Bang) sequestra a rainha Gudrún (Nicole Kidman) – porém não consegue matar o jovem sobrinho, que acaba escapando.

Vinte anos depois, Amleth (Alexander Skarsgård) transformou-se em um guerreiro impiedoso, integrante de um bando que saqueia aldeias em busca de pessoas para vender como escravos. Em um desses ataques a uma comunidade eslava, o ex-príncipe encanta-se pela jovem Olga (Anya Taylor-Joy) e encontra uma feiticeira – interpretada pela cantora islandesa Björk – que lhe avisa que chegou a hora de cumprir sua promessa feita há muito tempo: vingar o pai, salvar a mãe e matar o tio. Amleth parte, então, para uma odisseia de sangrenta vingança.

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O roteiro escrito por Robert Eggers e Sjón – autor islandês que assina também a história do ótimo Lamb (2021), filme premiado no Festival de Cannes – esmera-se em ecoar fielmente as referências históricas, antropológicas e religiosas da civilização viking pré-cristã de fins da Alta Idade Média. Da mesma forma, a direção de arte e a ambientação geral reproduzem o mais precisamente possível a época e os lugares onde se passa a trama – rodado na Islândia e na Irlanda, O Homem do Norte talvez seja o filme sobre vikings mais autêntico já produzido.

Chamam especial atenção a profusão de sequências mostrando rituais e cerimônias religiosas e iniciáticas, que destacam a ligação visceral e mesmo primitiva desses povos nórdicos ancestrais com as forças da natureza e os elementos divinos. Para além de encenar o caráter xamânico e, do ponto de vista contemporâneo, bárbaro desses cultos que invocam divindades e manifestações de animais em volta de fogueiras à noite, no meio de florestas ou em sombrias cavernas, essas imagens conectam O Homem do Norte com o fascínio pelo oculto recorrente nos filmes de Eggers – remetendo muitas vezes, por exemplo, ao sabá de A Bruxa ou à malfazeja presença dos pássaros em O Farol.

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Mas Amleth não é Hamlet: mais próximo em sua caracterização do “rei das selvas” que encarnou em A Lenda de Tarzan (2016) do que do príncipe dinamarquês atormentado por dúvidas de William Shakespeare, o ator sueco Alexander Skarsgård dá vida em O Homem do Norte a uma figura de determinação férrea, cujas únicas hesitações são causadas por circunstâncias externas, não por conflitos de consciência interior. Não há muito lugar para questionamentos no filme: boa parte dos personagens persegue tão somente poder e ambição, enquanto o protagonista é movido por inarredáveis ódio e vingança – e algum amor, na parte final. Inclusive, por conta da violência de muitas cenas, o longa recebeu a classificação indicativa não recomendável para menores de 17 anos nos Estados Unidos e de 18 no Brasil.

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Um dos momentos mais intensos dramaticamente de O Homem do Norte, aliás, remete justo à clássica peça do bardo inglês – mas com o toque demoníaco peculiar do cineasta estadunidense: no confronto face a face entre filho e mãe nos aposentos da rainha, cena central em Hamlet, Gudrún lembra mais Lady Macbeth do que Gertrudes. Insistindo na comparação com a obra de Shakespeare, pode-se afirmar ainda que o filme de Eggers aproxima-se mais do espírito diabólico de Macbeth do que o filosófico de Hamlet – o místico atropela a metafísica em O Homem do Norte.

Certamente a autonomia de Robert Eggers como autor é um dos méritos maiores de O Homem do Norte: criador ainda novato, mas já com uma assinatura singular estabelecida, o cineasta desvia da sombra virtualmente incontornável de Shakespeare e ousa apresentar uma versão cruel, mitológica, satânica e muito particular de uma história que vem moldando o imaginário ocidental há séculos.

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O Homem do Norte: * * * *  

COTAÇÕES

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Assista ao trailer de O Homem do Norte:

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