Fotografia, Reportagens

Fotógrafas abordam confinamento e memória no FestFoto POA

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Fotógrafas abordam confinamento e memória no FestFoto POA Foto: Márcia Charnizon

Após o encerramento dos painéis da edição deste ano, o Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre segue exibindo as videoexposições dos trabalhos selecionados pela convocatória Fotograma Livre 2021. Entre os principais eixos temáticos da mostra online, destacam-se experiências de confinamento durante a pandemia e reflexões em torno da memória, temas abordados pelas fotógrafas Ana Sabiá, Márcia Charnizon, Marina Guitti, Renata Saad e Sonia do Couto Corrêa.

A segunda parte da série em torno das obras apresentadas no FestFoto POA 2021 – relembre a primeira – conta detalhes das produções dessas cinco autoras.

Ana Sabiá – Olhar surrealista em Jogo de Paciência

Foto: Ana Sabiá

Paulistana radicada em Florianópolis, Ana Sabiá transformou as limitações impostas pela pandemia em possibilidades de criação. A série Jogo de Paciência reúne mais de 260 fotografias nas quais, diante de lençóis, a artista exibe objetos e coloca o próprio corpo em cena. “Inventei um novo mundo dentro daquele antigo, a partir de um cenário feito de lençóis brancos, um corpo performático e variados objetos simbólicos presentes no meu cotidiano”, explica a autora.

“As dicotomias espaço-tempo, corpóreo-imaterial, branco-preto, realidade-ficção, concretude-fantasia, fixidez-evanescência são embaralhadas para abarcar as complexas nuances e compreensões entre um polo e outro. Os limiares entre realidade e ficção são sempre tensionados nos meus trabalhos e, neste caso, era crucial potencializar a invencionice para dar conta de compreender e elaborar as angústias e novidades inerentes ao contexto”, completa.

Foto: Ana Sabiá

A estética das imagens é fruto do interesse da fotógrafa pelo surrealismo e pela atenção que o movimento artístico dedicou ao inconsciente e às emoções: “O surrealismo utiliza-se do humor para desmascarar os horrores, transita nos limiares da loucura como resgate da alegria, da igualdade de direitos e do amor. Convoca os acasos, as fragilidades e as incoerências que formam o estofo da vida, mas que a sociedade nega e pune. Aponta alternativas viáveis para a construção de um pensamento livre e crítico”.

Renata Saad – Diálogo com arquivos fotográficos em Mulheres em Rosa e Azul

Foto: Renata Saad

A série que a fotógrafa paulistana Renata Saad apresenta no FestFoto POA propõe um diálogo entre fotografias da autora, obtidas a partir de 1980, com imagens que pertenciam a seu pai. “A ideia desse projeto surgiu após o falecimento do meu pai e o pedido da minha mãe para eu organizar o material fotográfico que ele havia deixado, já que o amor pela fotografia nos unia. Chegada a pandemia e pude me dedicar a isso”, conta a artista.

“Descobri milhares de slides, negativos e filmes guardados há décadas. Grande parte das fotos eu nunca havia visto. Montei um planejamento, comprei um projetor de slides e uma caixa de luz. Foram muitas sessões vendo, classificando e fotografando o que mais me cativava”, relembra Saad. As fotos da série farão parte de um livro que reúne registros da cidade de São Paulo entre os anos 1950 e 1970, capturados pelo pai da fotógrafa, e o olhar dele às pessoas de seu convívio, sobretudo, mulheres.

Foto: Renata Saad

O processo de imersão rendeu novas compreensões a respeito das trajetórias dos pais: “Acho que uma das maiores descobertas foi ver a vida deles de solteiros. A do meu pai, vendo a casa em que ele morava com os pais antes de se casar, os grupos de amigos, a viagem para os EUA em 1958 que transformou a vida dele, a vida em família com a irmã e os pais”.

“Descobri mais coisas sobre a minha mãe por ver fotos dela dançando, nadando, mais alegre e extrovertida do que eu percebia no papel dela de mãe. Isso me fez pensar muito sobre as transformações que nós nos impomos por coisas que vão acontecendo em nossas vidas, principalmente para uma mulher que casou e teve filhos naquela época”, completa. 

Marina Guitti – Ressignificações de lembranças em Emergir

Foto: Marina Guitti

A fotógrafa mineira Marina Guitti participa do FestFoto POA com o vídeo Emergir. A partir de álbuns de família, ela e a mãe selecionaram fotos associadas a eventos traumáticos de suas vidas. “Ao mergulhar as fotografias em um líquido espumoso (composto por reagentes químicos e resíduos orgânicos), as imagens são gradativamente deterioradas e, enquanto perdem informações visuais, outros elementos vão se amalgamando ao papel fotográfico, adicionando novas camadas de sentido”, conta a autora do vídeo.

Foto: Marina Guitti

“Após emergirem, as fotografias recebem novas vestes: uma camada de tinta, flores e sal grosso”, descreve Giutti, que então cria uma composição cênica para fotografar o que restou do material, como um “funeral de imagens”.

Sonia do Couto Corrêa (Brasil) – A Dor da Pandemia

Foto: Sonia Corrêa

Por meio de dípticos e trípticos, a fotógrafa Sonia do Couto Corrêa apresenta registros de seu cotidiano em 2020: “Utilizei autorretratos, fotografias das pessoas em isolamento comigo, objetos diversos, notícias veiculadas nos jornais e a fita crepe simbolizando o curativo nas feridas abertas em nós”.

Foto: Sonia Corrêa

Realizada em São Luís (MA), a série lança um olhar para “a dor da perda e do luto, os distanciamentos sofridos, os isolamentos exigidos, as aglomerações das ignorâncias e os posicionamentos negacionistas”.

Márcia Charnizon – Caça às palavras de ódio e preconceito

Foto: Márcia Charnizon

Em Caça às Palavras, a mineira Márcia Charnizon reflete sobre a violência contra as mulheres na pandemia. “Esse trabalho procura romper o silêncio, reunindo mulheres que, como protagonistas de suas histórias, se despem, cada uma a seu modo, e mostram suas marcas a partir de frases violentas que fizeram parte de suas trajetórias. Como sob a luz vermelha de um laboratório fotográfico, em que as imagens latentes se revelam, o que não se vê a olho nu, aparece nos corpos nus, nesse jogo de caça-palavras”, explica a autora da série.

“Cada uma das fotografias é o capítulo de uma história, em muitas das quais outras mulheres se reconhecem, com discursos machistas, racistas e misóginos, que são gatilhos da violência (sequer reconhecidos como tal), no nosso convívio. Como falar de humanidade, de futuro e das relações tecidas sobre nosso planeta, sem abordar a violência contra a mulher?”, questiona Charnizon.

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