Fotografia, Reportagens

Da câmera escura ao vídeo no FestFoto POA

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Da câmera escura ao vídeo no FestFoto POA "Nenhum Dia Será Igual ao Outro". Foto: Igor Cavalcante

O Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre conclui hoje (29/4) uma série de painéis que discutem temas como a pandemia na América Latina, processos criativos compartilhados e a fotografia modernista brasileira. As videoexposições do FestFoto POA, no entanto, seguem online no site do festival, apresentando um panorama da produção fotográfica no fatídico ano de 2020.

Ao longo de quatro matérias, abordaremos alguns dos trabalhos exibidos no festival, começando pelas imagens de Bruno Alencastro, Igor Cavalcante Moura, Helena Siemsen Giestas e Madame Pagu, com experimentações que vão do uso do vídeo a um mergulho nas técnicas elementares da fotografia.

Madame Pagu – Reflexões sobre a violência contra as mulheres em 3×4

“3×4”. Reprodução: Madame Pagu

Vencedora da convocatória Fotograma Livre 2021 na categoria Multimídia, a paulistana radicada na Itália Madame Pagu apresenta o vídeo 3×4, que nasce de reflexões sobre a violência contra as mulheres, incluindo feminicídios, durante a pandemia de Covid-19. “É inacreditável o número de casais que vivem sob o mesmo teto e não conhecem um ao outro. É trágica a descoberta destas inconstâncias e incongruências quando a parte mais frágil não tem alternativa de outro lugar para ir – e mais trágico ainda quando familiares têm que suportar a dor da perda de uma mulher que foi morta em decorrência de uma relação ‘afetiva’”, analisa Pagu.

Bordados em um livro têxtil, os retratos de mulheres que compõem 3×4 são fruto do interesse da artista por imagens de arquivo e fotografias encontradas. “Gosto muito da atemporalidade que esse tipo de imagem traz para cada trabalho. Nos últimos tempos tenho comprado muitos arquivos impressos em antiquários, feiras de antiguidades e sites. O upcycling (reuso criativo) também é algo que me agrada muito e sempre está presente na minha obra”, explica a autora.

“Diante das inquietações que me atravessavam com o tema da violência contra as mulheres, escolhi trabalhar através da linguagem mais antiga cultivada entre nós: o têxtil. A montagem do livro têxtil coopera para que o conceito trabalhado seja muito tátil. A costura das imagens nos reporta às tantas suturas sofridas pelas vítimas. O bordado das palavras nos recorda a perspectiva de protesto, desde sempre usado pelas mulheres, quando suas vozes não podiam ser ouvidas, deixando de ser somente um adorno, para se transformar em grito de socorro”, completa Pagu.

Igor Cavalcante Moura – Observação atenta e passagem do tempo em Nenhum Dia Será Igual ao Outro

“Nenhum Dia Será Igual ao Outro”. Reprodução: Igor Cavalcante Moura

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Quem também apresenta um trabalho multimídia no FestFoto POA é o fotógrafo cearense Igor Cavalcante Moura. Se em 3×4 Madame Pagu aborda uma das cruéis consequências da pandemia, Moura debruça-se sobre questões mais abstratas relacionadas ao período de isolamento. “Independente de rotina, inação ou vontade de permanecer, as sutilezas do tempo e das repetições tratam de nos mostrar que as coisas seguem em movimento”, reflete o fotógrafo, que apresenta o vídeo Nenhum Dia Será Igual ao Outro no festival.

As imagens surgem da rotina diária de tomar café na varanda de casa olhando ruas vazias nos períodos de maior isolamento em Fortaleza. “Essa série estimula a observação minuciosa das diferenças entre uma imagem e outra. Tenho me interessado por esse jogo com o espectador e pelo efeito do passar do tempo entre um clique e outro”, comenta Moura.

“Como fotógrafo por profissão, tenho fotografado muito menos na pandemia. Por outro lado, isso tem me dado mais tempo para pensar a fotografia em um contexto mais geral, desenvolver projetos fotográficos, e produzir ações e eventos relacionados à fotografia, mas sinto saudade de sair para fotografar”, reflete.

Helena Siemsen Giestas – Explorando técnicas e paisagens em Quebrada

“Quebrada”. Reprodução: Helena Siemsen Giestas

Com imagens captadas em 2019 – em uma residência artística em Quebrada de Huichaira, na Argentina, e em Ubatuba (SP) – e editadas e processadas em 2020, a fotógrafa paulista Helena Siemsen Giestas apresenta o vídeo Quebrada no FestFoto POA. “Ao iniciar as fotografias na residência artística do Museo en los Cerros, não imaginei a relação com outras imagens. Mas a memória geológica nas camadas sedimentares da terra árida e de salinas da região andina é muito presente, e as relacionei à memória das montanhas da Mata Atlântica no litoral paulista, de onde venho. Era uma memória de água de um lugar que um dia já foi marítimo”, explica Giestas.

Quebrada integra uma pesquisa que tem outros desdobramentos, como o livro de artista Rio sem Discurso, um dos resultados do interesse da artista pelas origens das imagens – nos assuntos explorados e nas técnicas fotográficas: “Venho trabalhando há algum tempo com conceitos da própria fotografia de negativo e positivo, luz e sombra, frente e verso, superfícies do papel impresso e seus avessos, memórias, movimentos e tempo. Sobretudo, me interesso pela relação de imagem e imaginário (ou o que entendemos como realidade e ficção) e isso vem mapeando meus percursos e trabalhos.” 

Bruno Alencastro – Princípios da fotografia durante o confinamento em obs-cu-ra

“obs-cur-ra”. Foto: Bruno Alencastro

O projeto colaborativo obs-cu-ra, concebido por Bruno Alencastro, fotógrafo porto-alegrense radicado no Rio de Janeiro, transforma a necessidade de isolamento durante a pandemia em suporte para a produção de imagens. Influenciado por uma série do fotógrafo cubano Abelardo Morell, Alencastro utilizou seu apartamento na capital fluminense para criar uma câmera escura  em latim, camera obscura, termo que inspira o título da iniciativa.

O procedimento consiste em criar um espaço sem iluminação interior  uma caixa, por exemplo, ou uma sala, no caso do projeto  e fazer um pequeno furo em uma das superfícies laterais. A luz do exterior entra pelo orifício e projeta uma imagem invertida no lado oposto. O processo, experimentado desde a Antiguidade – incluindo mais tarde Leonardo da Vinci como adepto –, deu origem, no século 19, às primeiras câmeras fotográficas.

“Quando consegui produzir essa projeção de um mundo de cabeça para baixo nas paredes da minha casa, me dei conta da força e do simbolismo desse trabalho, ressignificado no contexto atual”, contou Alencastro ao Matinal em maio de 2020. “Quando essa projeção invade a casa e imprime nas paredes e na nossa pele o que o campo de visão permite enxergar, problematizamos as escolhas que fizemos e que nos trouxeram até esse lugar, isolados e confinados, reclusos dentro de uma caixa, onde o que nos sobra é um horizonte que pode ser panorâmico, arborizado e arejado, mas também escuro, invasivo e sufocante.”

Quase um ano depois da entrevista, Alencastro conta que o projeto participou até agora de mais de 60 publicações em 16 países e 20 festivais internacionais, além de ter sido exibido no Internacional Center of Photography, de Nova York, uma das mais renomadas instituições dedicadas à fotografia.

“Iniciei o projeto pensando em dialogar apenas com fotógrafos e fotógrafas, por serem mais familiarizados com as especificidades da linguagem fotográfica, mas tive a grata surpresa de contar com a participação de ‘não fotógrafos’ ao longo do processo. Mães e pais que construíram câmeras de grande formato com seus filhos para tentar explicar a eles o que está(va) acontecendo com o mundo, de forma lúdica e poética, através da arte,” conta Alencastro.

O fotógrafo também destaca a positiva surpresa dessas colaborações: “Para mim, um dos grandes ensinamentos e aprendizados com o projeto foi a força desses laços coletivos. Comecei acreditando que dependeria de mim dar o tom e a unidade, mas, com o tempo, me dei conta da potência e relevância que conseguiria se deixasse justamente as pessoas se apropriarem dele, empregando as suas percepções e interpretações dentro dessa câmera obscura. E o resultado foi fascinante”.

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