Literatura, Reportagens

A poesia amefricana em cena

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A poesia amefricana em cena Silvia Duarte. Foto: Matheus Piccini

Neste sábado (18/9), dois projetos contemplados pela Lei Aldir Blanc celebram a poesia escrita por mulheres negras. Às 19h, o selo Orisun Oro, voltado à produção de autoria afrodiaspórica, lança suas três primeiras publicações impressas. Às 20h, o espetáculo online Preta Poesia Feminina, da atriz Silvia Duarte, com direção de Silvana Rodrigues, coloca em cena a palavra de cinco poetas negras do Rio Grande do Sul.

Do iorubá “fonte da palavra”, o selo Orisun Oro – vinculado à editora da Escola de Poesia, com sede em Porto Alegre – é coordenado pela poeta Eliane Marques e pela professora de literatura Michele Zgiet.  “Começamos em plena pandemia e nos fazíamos as seguintes perguntas: o que as mulheres negras da Améfrica estão escrevendo? Sabemos, em tese, que compartilhamos histórias em comum, mas essas histórias estarão nos livros, especialmente os de poemas?”, recorda Marques.

“Como poeta e mulher amefricana nascida no Brasil, fico envergonhada de conhecer tão pouco das minhas conterrâneas, que são grandes inovadoras na língua espanhola”, desabafa Marques, aludindo aos processos de invisibilização sofridos pela produção artística negra – sobretudo de autoras mulheres na poesia – e aos obstáculos para mais trocas culturais entre os países do continente.

Foto: Orisun Oro

A partir do conceito de amefricanidade, cunhado pela intelectual mineira Lélia Gonzalez, a iniciativa tem como foco dar visibilidade à produção poética de autoras afrodiaspóricas da América Latina e do Caribe. “A categoria amefricanidade, ancorada em modelos como o akan (Jamaica); iorubá, banto e ewe-fon (Brasil); e nos diversos modos indígenas anteriores às invasões, permite romper com as fronteiras de caráter territorial, linguístico e ideológico, incluindo as Américas do Sul, Central, Insular e do Norte em um arcabouço comum de resistência, reinterpretação e criação de novas formas de existir”, define Eliane Marques, vencedora do Prêmio Açorianos de Literatura em 2016 com e se alguém o pano e autora de o poço das marianas, seu mais recente livro, ambos lançados pela editora Escola de Poesia.

O selo Orisun Oro foi contemplado pelo edital Criação e Formação – Diversidade das Culturas, operado pela Fundação Marcopolo com recursos da Lei Aldir Blanc, com a proposta de publicar três livros, em edições bilíngues e tiragem de 300 exemplares cada: Cabeças de Ifé, de Georgina Herrera (Cuba), traduzido por Eliane Marques; Zambeze, de Graciela González Paz (Argentina), com tradução de Katherine Castrillo; e Conjuro da Guiné, de Mayra Santos-Febres (Porto Rico), traduzido por Mariangela Andrade. A arte das obras é assinada por Iléa Ferraz, Aline Gonçalves e Mitti Mendonça.

Conjuro da Guiné, de Santos-Febres, e Zambeze, de Paz, foram publicados em espanhol em 1991 e 2015, respectivamente – o primeiro, com o título original Anamú y Manigua. Já Cabeças de Ifé, da cubana Georgina Herrera é uma seleção de 40 poemas da autora selecionados pelo selo Orisun Oro, aos quais se somam três poemas inéditos.

A equipe responsável pelas publicações é formada totalmente por mulheres, majoritariamente negras. “Quase todas as envolvidas estavam acostumadas a trabalhar em lugares onde são a única mulher negra – aquela que nunca pode descansar, que morre de medo de errar e ser expulsa”, conta Michele Zgiet, ressaltando a intenção do Orisun Oro de criar um espaço saudável e potente para a atuação de mulheres negras.

“Passamos boa parte do tempo procurando a nossa turma, achando que tem alguma coisa errada. E não tem nada errado. Durante muito tempo, não aparecer é sobrevivência, mas chegamos num ponto em que ter visibilidade é cura. Não estar sozinha é revolucionário, gera transformações psíquicas”, completa Zgiet.

O processo de tradução das obras publicadas pelo selo encontrou desafios como as especificidades da língua espanhola falada na Argentina, em Cuba e em Porto Rico. As tradutoras também buscaram soluções para contemplar as diferenças e semelhanças entre aspectos desses países e do Brasil.

Marques cita, por exemplo, os versos em que a cubana Georgina Herrera menciona a palavra palenque, um dos nomes dados a agrupamentos de negros emancipados da escravidão, análogo aos quilombos – palavra escolhida para a versão em português. Em outros casos, optou-se por manter uma proximidade maior com o texto original – como nas menções de Mayra Santos-Febres a Eleguá, nome menos popular no Brasil, embora conhecido, e associado aos orixás Exu e Bará.

O projeto será lançado em live no canal de YouTube da Casa das Rosas – espaço cultural de São Paulo dedicado à poesia –, neste sábado (18/9), às 19h. Os livros estarão à venda em livrarias parceiras e na loja virtual do selo.

Poetas negras no RS

Silvia Duarte. Foto: Matheus Piccini

Ainda no sábado, às 20h, o espetáculo online Preta Poesia Femininafaz sua estreia. Com direção de Silvana Rodrigues, a atriz Silvia Duarte apresenta versos de cinco poetas negras gaúchas: Ana dos Santos, Delma Gonçalves, Isabete Fagundes Almeida, Fátima Farias e Lilian Rocha. “Construímos uma trajetória de luta, sofrimento, solidão, mas também de felicidade e realizações das mulheres negras”, conta Duarte que, além de atriz, é produtora cultural.

A atriz recorda que escrevia poemas na adolescência, hábito que acabou deixando de lado por não sentir sua produção acolhida. O processo de redescoberta da poesia se deu na vida adulta. “Com o passar dos anos, em minhas leituras, percebi que não havia escritoras e poetisas negras. Em busca de saber se elas existiam, de conhecer seus poemas e suas narrativas e na tentativa de me identificar, não apenas na temática do feminismo, mas na condição de mulher negra, conheci Elisa Lucinda. Foi uma paixão”, recorda a atriz, que além de mergulhar na obra de Lucinda, também se aproximou da produção de Conceição Evaristo e Carolina Maria de Jesus.

Por sugestão da irmã, Silvia Duarte passou a frequentar o Sarau Sopapo Poético, promovido em Porto Alegre pela Associação Negra de Cultura. “Encontrei um grupo de homens e mulheres lendo poesias, algumas autorais e de autorias de diversos poetas e poetisas, todos negros”, conta a atriz. Nos saraus, Duarte entrou em contato os versos das autoras interpretadas por ela no espetáculo Preta Poesia Feminina.

De modo semelhante ao relatado por Eliane Marques e Michele Zgiet em relação aos trabalhos do Orisun Oro, Silvia Duarte conta que a construção da peça foi marcada por um envolvimento emocional intenso. “Chorei muitas vezes. No dia do ensaio, disse para a Silvana: não vou conseguir fazer nada”, lembra-se a atriz.

“Em muitos poemas vemos a nossa luta. Então dói mexer em tudo isso, lembrar do genocídio da juventude negra, mas tem também a emoção de falar de ancestralidade, de mulheres maravilhosas e suas conquistas”, afirma Duarte, mencionando as perdas recentes de sua mãe e da rapper e ativista porto-alegrense Malu Viana, vitimada por um infarto aos 47 anos. “Enquanto Oxalá me dar forças, estaremos aqui para trazer à tona a cultura negra”, completa a atriz.

Com acessibilidade em libras, Preta Poesia Feminina tem produção-executiva de Tulio Quevedo e trilha sonora de Alessandra Souza. O projeto nasceu de uma live viabilizada pelo FAC Digital e foi transformado em espetáculo a partir do edital Criação e Formação – Diversidade das Culturas, operado pela Fundação Marcopolo com recursos da Lei Aldir Blanc.

Além da transmissão no dia 18 de setembro, às 20h, no canal de Silvia Duarte no YouTube, o vídeo do espetáculo terá sessões em asilos públicos de idosos em Pelotas, Caçapava do Sul e Caxias do Sul, conforme o projeto aprovado no edital.

Leia uma seleção de poemas publicados nos livros do selo Orisun Oro e no espetáculo Preta Poesia Feminina.

[Continua...]

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