Literatura | Reportagens

A poesia purpurinada de Fernanda Bastos

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A poesia purpurinada de Fernanda Bastos Foto: Gustavo Schossler

Mais recente livro da escritora Fernanda Bastos, Selfie-purpurina reúne poemas que têm o carnaval como fio condutor de versos, ritmos, imagens e memórias familiares. A publicação integra a coleção Biblioteca Madrinha Lua, da editora Peirópolis, que homenageia a poeta mineira Henriqueta Lisboa (1901-1985) e é voltada à poesia contemporânea escrita por mulheres.

“Fernanda Bastos veio em festa, com purpurina e as questões de agora, ressaca de festa, ponto cego, ponto crítico, palavras que coçam e espetam, em vez de só acariciar”, define a escritora Ana Elisa Ribeiro, editora da coleção, que já tem seis obras lançadas – confira a entrevista com Bastos e poemas das demais autoras, a seguir.

Selfie-purpurina começa com sábado de carnaval, em que Bastos narra a presença do avô na avenida, enquanto ela está na barriga da mãe, prestes a nascer – “do carnaval me tornei cria”. Páginas depois, a voz do meu vô – parte I apresenta a folia como ambiente de conexão com a ancestralidade:

No tempo em que nasci
Se aprendia mais de África
Na quadra
Do que no curso normal
que eu concluí

A série em seis partes termina com a voz do vô lembrando: “Na vez que não chegaram seus calçados/ Os passistas saíram descalços”. Para a escritora Cidinha da Silva, que assina o prefácio da obra, “esse poema materializa a invenção de um lugar de existência para as pessoas negras, acostumadas a não poder fazer história das formas mais convencionais e previsíveis, habituadas à insurgência e à inventividade”.

Personagens da existência carnavalesca são elencados no poema freela, em que Bastos lembra que “para pagar as fantasias/ o mestre-sala é porteiro/ a tia Ana das baianas cozinheira da escola/ o passista Joãozinho joga bola/ Luís é entregador/ mestre-sala também já foi/ motorista e vendedor”.

Em meio a imagens e recordações, a leitura de Selfie-purpurina é embalada pela musicalidade dos versos de Bastos, como em rei negro:

Majestade que se preze
tem de ter samba no pé
rei da Etiópia se
autoproclamou seu Lelé

carregado por quatro amigos
fez sua coroação

de papelão sua coroa
do povo seu coração

“Para produzir esse livro, pensei muito em mim quando criança e adolescente. Queria fazer um livro de que pudesse gostar naquela época, então busquei alguns elementos que poderiam fazer o livro soar gostoso de ler. Por isso ele tem muita música mesmo, até para fazer jus a esse tom carnavalesco”, conta Bastos, nascida em 1988, que além de poeta é jornalista e cofundadora da Figura de Linguagem, editora pela qual lançou seus dois livros anteriores, Dessa Cor (2018) e Eu Vou Piorar (2020).

A autora integra em 2022 o coletivo curatorial da 20ª FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty que será realizada de 23 a 27 de novembro – ao lado da professora da UFBA Milena Britto e do crítico literário Pedro Meira Monteiro.

Leia a seguir a entrevista com Fernanda Bastos e versos de outras autoras da coleção Madrinha Lua, da editora Peirópolis. Relembre também a conversa da autora com a revista Parêntese.

Fernanda, antes de falarmos sobre o livro, gostaria que você comentasse a participação na FLIP 2022. Como têm sido as trocas com os demais curadores e o que você vislumbra para a 20ª edição do evento?

É muito bacana poder participar da preparação de uma edição tão esperada da FLIP como essa vigésima. Os últimos anos foram desafiadores, e a FLIP encontrou formas de permanecer conectada com o público, mesmo em meio à pandemia, por isso é enorme a expectativa de retomada do formato presencial. Nesse ano a festa vai ser em novembro, o que é outra novidade. A atmosfera de Paraty é única e o evento é reconhecido por reunir em debates memoráveis autoras e autores com o desejo de falar de livros e de ideias que circulam com os livros. Posso garantir que vai ser mais uma edição imperdível.

Gostaria que você comentasse o convite para a coleção Biblioteca Madrinha Lua e o processo de escrita dos poemas de Selfie-purpurina

Quando a curadora Ana Elisa Ribeiro me convidou para a coleção da Peirópolis fiquei com vontade de escrever um inédito. Queria pensar um livro específico para a Biblioteca Madrinha Lua, em homenagem a Henriqueta Lisboa, e quis desenvolver um volume sobre memórias de carnaval. Eu tinha poucos poemas, mas sabia que um convite como esse ia me motivar. Desenvolvi o conjunto ao longo de 2021, durante a pandemia, quando o carnaval parecia ainda distante. Isso foi bacana porque fazia ainda mais sentido pensar no papel da memória nesse cenário.

Foto: Gustavo Schossler

O livro celebra o envolvimento da tua família com o carnaval. Quais são as tuas lembranças dessa relação?

Meu avô Sergio Bastos tem um papel relevante na construção do desfile de carnaval de Porto Alegre. A atuação dele transbordou para o restante do núcleo familiar. E minha família foi bem foliã, vivia a festa, sobretudo nos anos 1980 e 1990. Era comum que alguma tia minha se referisse a alguém pela ocupação que a pessoa tinha no carnaval, como “ela era passista” ou “ele é da bateria de tal escola”. Isso fazia com que eu entendesse que o carnaval tinha uma relevância na vida das pessoas e que ele também era espaço de trabalho e de esforço individual e coletivo. Entendia que as pessoas que amavam o carnaval lutavam para fazer aquela festa, não era uma folia dada, mas conquistada.

E como é a tua relação com o carnaval, a partir desse berço?

Eu sempre fui mais observadora. O meu jeito de curtir o carnaval é observando. Amo ver as festas, não necessariamente pular junto, mas acompanhar no olhar das outras pessoas a alegria que a festa representa para elas. E, quando a festa é bonita, melhor ainda é observar.

Um dos elementos que se destaca na leitura é a musicalidade dos poemas. Foi um aspecto ao qual você dedicou atenção? Para além das onomatopeias, alguns dos poemas parecem estar prestes a serem musicados.

Para produzir esse livro, pensei muito em mim quando criança e adolescente. Queria fazer um livro de que pudesse gostar naquela época, então busquei alguns elementos que poderiam fazer o livro soar gostoso de ler. Por isso ele tem muita música mesmo, até para fazer jus a esse tom carnavalesco. Sem cantoria não tem festa de carnaval.

rosa
dizia tia Gertrude
um carnaval é um carnaval é um carnaval
planejam igual
nenhum é igual

um carnaval é um carnaval é um carnaval

Gostaria que você comentasse dois poemas: rosa, com a citação a Gertrude Stein, e o poema que intitula o livro, em que a palavra “selfie-purpurina” se repete nove vezes [assista ao videopoema aqui].

rosa é um poema que tenta captar a essência do carnaval, que é justamente ele ser efêmero e memorável, subjetivo e coletivo, baseado em farsa e em realidade, fruto de trabalho e brincadeira. selfie-purpurina nasce de uma brincadeira que Luiz Maurício Azevedo, meu marido [e cofundador da Figura de Linguagem], faz comigo. É como dizer uma palavra mágica que suspende tudo ao redor de quem diz, para que aquele momento seja vivido com alegria. É um pouco assim o espírito do carnaval: uma forma que a gente encontra de fazer uma festa bem organizada, em que se suspende a rotina para se aproveitar a diversão.

Como o livro Selfie-purpurina se situa no teu percurso como escritora?

Acho que é um livro mais maduro, voltado para um público mais amplo do que aquele a que buscava me dirigir nos outros livros. Diferentemente do Eu Vou Piorar, em que estava mais concentrada em trabalhar com colagens e recortes do Brasil com seus dilemas, em Selfie-purpurina estava mais interessada em fazer parte de um canto festivo.

Por fim, de que forma a escrita poética encontra espaço em paralelo às tuas outras atuações?

Das várias partes que me constituem, a poeta é uma delas. E é uma parte bem importante, para qual vai muita dedicação e desejo. É algo que faço em meio às outras atividades, assim como jornalismo e curadoria. Quando a gente gosta e sabe que nos constitui, a gente aplica aquele fazer quase que naturalmente, porque não pode ser de outra forma.

Poemas da coleção Biblioteca Madrinha Lua, da editora Peirópolis

Regina Azevedo (RN), em Lança Chamas

gato sem rabo
virginia woolf estava certa
uma livraria só de livros
escritos por mulheres
é aberta em são paulo
há filas na porta
todos os jornais noticiam
nos comentários homens
questionam: mas e os livros
escritos por homens?
heloisa buarque de hollanda lança
uma nova antologia, as 29 poetas
hoje, como a dos anos 70 mas
apenas com mulheres
no lançamento helô conta que
recebeu a pergunta de um leitor:
mas por que só mulheres?
virginia woolf estava certa
mulheres que escrevem são
como gatos sem rabo, por isso
é esquisito, por isso incomoda
vejam como ela chama atenção
ali ganhando prêmio, na estante
da livraria, na estante da biblioteca,
no livro furtivamente escondido
no bolso, na mochila,
debaixo do braço
sorte é que a cada dia
há mais de nós
mais gatas escrevendo
mais gatos sem rabo
cruzando o gramado

Amanda Ribeiro (MG), em Máquina de Costurar Concreto

cozinha
os farelos de bolo
a mancha de vinho

uma rota invisível
traçada a dedo – dois bairros
separados
por dezoito centímetros de trama
de algodão

Tiro ao Álvaro
impressa em batuques

os perdigotos da nossa
risada seu dna

compõem a estampa da toalha
de mesa

eu não me atrevo a limpá-la

Líria Porto (MG), em Quem Tem Pena de Passarinho É Passarinho

poente
não é noite ainda
nem dia
nesta hora aflita
ninguém interdita
o ocaso

fica mais um pouco
espera a estrela
ela não demora
hoje é domingo
ou segunda-feira?

não importa o tempo
não importa a mágoa
esse limiar
é e sempre foi
a gota d’água

a vida se esvai
esgota-nos apouca-se
salva-se o amor
alvo dos chacais
cria indefesa

Adriane Garcia (MG), em Estive no Fim do Mundo e Me Lembrei de Você

abissais
Somente os animais mais resistentes
Sobrevivem às maiores profundidades

Não é fácil ser profunda
Deve admitir que não vê direito

Depois tem que enxergar de outras formas
Desenvolver tentáculos, por exemplo

Uma antena, para viver de profundidades
Há de se conectar com a intuição

E de tanto viver no fundo, sua cor ficará metálica
Sua pele se tornará translúcida

É possível que não a vejam
Ou que a vejam como uma alienígena

Porque você será esquisita, lenta
Dedicada ao fascínio de explorar funduras

Tudo será escasso
Menos a profundidade

Sem uma gota de luz
Vai acabar inventando luz própria.

Lubi Prates (SP), em Até Aqui

quando ouvi
a frase
pela primeira vez
sequer sabia ouvir-
falar-reproduzir
o que saía da boca
deles.

depois, eu já era criança
ouvi
a frase
tantas vezes
diante das lágrimas
pelos joelhos ralados
pelo dente quebrado
pela agulha invadindo
a carne.

assim, repetiram
repetiram
a frase

incontáveis vezes
por algumas mortes
por algumas partidas

por eu estar ali
uma mulher
de coração duro e
com as mãos vazias.

se eu pudesse resgatar
aquela criança
que fui
com esta voz que tenho
responderia:
eu não quero ser forte.

e é
exatamente
nisto que mora a força.

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