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Dudu Sperb apresenta composições autorais no EP “Volume 1”

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Dudu Sperb apresenta composições autorais no EP “Volume 1” Capa de "Volume 1", de Dudu Sperb. Foto: Divulgação

O cantor porto-alegrense Dudu Sperb lança hoje o EP Volume 1, nas plataformas digitais, pelo selo Tratore. Com mais de 30 anos de trajetória, interpretando outros compositores em álbuns com músicos locais – como Vagner Cunha e Luiz Mauro Filho (Coração Sol, 2015) e Michel Dorfman (So In Love, 2016) – e de outros estados – como o carioca Guinga (Navegante, 2019) –, Sperb dá início a um projeto autoral gestado ao longo dos últimos anos.

“Minha ideia inicial era a de lançar uma primeira leva num único CD. Acontece que começamos as gravações em setembro de 2019, numa sessão em que registramos as duas canções que lanço agora”, conta o músico, acrescentando que a ida ao estúdio em intervalos acabou sendo interrompida pela pandemia. “Não tinha sentido ficar esperando ainda mais tempo”, completa Sperb, que pretende lançar uma série de volumes de suas composições.

Dudu Sperb. Foto: Andréa Avila

As duas faixas de Volume 1 contam com a participação do músico Marcel Estivalet ao violão e têm poemas como matéria-prima: Enganos tem como inspiração o poema Le Tendre et Dangereux Visage de L’amour, do francês Jacques Prévert; já os versos de Sem Nenhuma Razão Clara foram escritos pela poeta gaúcha Lolita Beretta.

Confira a entrevista.

Dudu, nos conta sobre o projeto de compilar as tuas composições. Como foi esse processo e o que te motivou a lançá-lo agora?

Apesar de compor canções desde pelo menos o começo dos anos 1990, nos anos 2000 eu tentei algumas vezes, através de editais, gravar uma parte delas. Como nunca fui contemplado em nenhuma das edições de que participei — e como se passaram vários anos —, chegou um momento em que desisti desse caminho, até porque isso dá muito trabalho e tem custos financeiros (para se fazer projetos com produtores etc.). Então, como tem acontecido com meus outros discos, agora decidi fazer tudo de forma independente, bancando as produções na medida do possível. Por isso, também demorou mais. Como tenho material para vários discos, minha ideia inicial era a de lançar uma primeira leva num único CD. Acontece que começamos as gravações em setembro de 2019, numa sessão em que registramos as duas canções que lanço agora: Enganos e Sem Nenhuma Razão Clara. A intenção era prosseguir num processo mais continuado, indo aos poucos, registrando pelo menos duas obras em cada ida ao estúdio para, em seguida, mixá-las e masterizá-las. Mas aí veio a pandemia e o projeto foi interrompido, desordenando tudo. Quando me dei conta, já havia passado um ano desde a gravação. Ou seja, não tinha sentido ficar esperando ainda mais tempo, até porque não se sabe com certeza quando poderemos nos reunir novamente em estúdio.

Por ora, a ideia é lançar as faixas em volumes, certo?

Exatamente, a solução que encontrei foi esta: ir lançando aos poucos, em EPs nomeados e numerados em volumes, para, no futuro, talvez, juntar tudo num disco só. Resolvi também não registrar nem organizar as canções em ordem cronológica. Essas duas composições que lanço agora, por exemplo, foram algumas das últimas que compus.

Nos conta um pouco sobre essas faixas, ambas poemas transformados em canções.

Enganos nasceu motivada por um poema de Jacques Prévert, chamado “Le Tendre et Dangereux Visage de L’amour (em tradução livre: “A terna e perigosa face do amor”), quando, lá em 2010, eu tinha um projeto de gravar um disco só com poemas musicados. No entanto, quando fiz contato com os herdeiros do Prévert, não obtive permissão de lançá-lo como canção. Porque eu havia gostado bastante da música, decidi eu mesmo criar uma nova letra. Aconteceu que, embora inevitavelmente influenciada pelo poema, ela acabou discorrendo mais sobre outro tipo de amor, mais doentio, digamos; sobre os efeitos danosos de uma paixão cega e da desilusão de quem se joga e aposta tudo na sua realização. Apesar da melodia não ser melancólica, eu não questionei essa mudança de foco no tema. Ao contrário, achei mesmo interessante, não apenas por me distanciar um pouco da fonte original de inspiração, mas também e sobretudo porque aprendi que as letras, assim como as melodias, por vezes se insinuam, nos abrem caminhos, nos apresentam possibilidades bastante orgânicas, interessantes. É preciso saber reconhecê-las, aceitá-las, recebê-las.

Sem Nenhuma Razão Clara foi um presente de uma jovem poeta, a Lolita Beretta, gaúcha radicada em São Paulo, que eu tenho a sorte de ter como amiga. O seu poema, embora completamente diferente daquilo que eu construí como letra para a canção Enganos, dialoga bem com ela por tratar de voos, de busca de desenvoltura e liberdade de ser e se manter como pessoa. Então, me parece que as duas, assim reunidas num mesmo volume, se complementam de alguma forma.

Recentemente você comentou nas redes sociais sobre as trocas com a Lolita. Nos fala um pouco sobre essa parceria.

A Lolita é uma amiga muito, muito querida. Além disso, é uma pessoa que possui um talento enorme e que se entrega a tudo que faz, sempre buscando uma luz. Ela escreve lindamente guiada pela necessidade de se desenvolver, de evoluir e de compartilhar isso com o mundo, de confiar aos outros um pouco do que ela tem de melhor. Em suma, é uma artista. Um dia, depois de conversarmos sobre esses processos de criação — acho que comentei sobre meu projeto das poesias musicadas —, ela ficou de me enviar alguns de seus poemas. E foi assim que aconteceu, eu simplesmente escolhi um deles, aquele que mais bateu no momento, e musiquei.

Falando em parcerias, o violonista Marcel Estivalet toca com você no EP. Qual a participação dele no projeto?

Bom, o Marcel é outro jovem bastante talentoso, um excelente violonista. E é também um amigo muito querido. Outro encontro feliz que a vida promoveu para mim. Já havia algum tempo que a gente queria trabalhar juntos, e coincidiu que, quando ele conheceu algumas de minhas canções, se interessou, achou bacana. Então, naturalmente aconteceu de ele participar desses primeiros registros. O resultado me agradou tanto, foi tão espontâneo e tranquilo, tão frutífero — e foi também, em termos de sonoridade, tão interessante —, que senti que o que se estabelecia ali, mais do que simplesmente um ótimo encontro musical que havia resultado em belos desempenhos e realizações, era um verdadeiro conceito sonoro que enriquecia ainda mais o projeto. Dava uma cara, um caráter mais original. Assim, a ideia é seguir gravando as outras canções da mesma forma, com dois violões: o meu e o dele. Eu executo um violão de base, exatamente do modo como as canções foram criadas, e ele sola em cima disso, cria novos comentários musicais a partir da sensibilidade e da competência dele.

Por fim, para além do EP, de que forma a poesia e a música se encontram no teu processo criativo?

Poesia não é letra de canção, mas pode vir a ser. Letra de canção não é poesia, mas igualmente pode acontecer de ter um forte caráter poético. Há inúmeros exemplos na canção brasileira. Eu não sou um grande leitor em geral, muito menos de poesia, mas conheço um pouco e gosto demais. Não à toa, (re)descobri e musiquei vários poemas. A canção é uma das formas mais lindas e ricas de música que existe – e o que se fez e faz no Brasil, nesse sentido, é sem igual, é de estarrecer em termos de qualidade e beleza. Mas acho importante fazer uma distinção: eu sou um cantor que compõe, e não um compositor no sentido clássico, que estuda e busca determinadas soluções, que trabalha com tonalidades, com acordes específicos, escalas etc. Eu, apesar de trabalhar e não procurar soluções fáceis, componho de forma completamente instintiva. E, sobretudo, componho porque canto. Quando escrevo uma letra de canção, que para mim é a coisa mais difícil, mais laboriosa, tento novamente chegar na música das palavras. Eu vou muito pelas sonoridades — é o canto que me guia. Tenho uma liberdade que é um pouco audaciosa, mas que sinto ser condizente comigo e com meu modo de ser. E acho que, quando leio um poema ou quando tento escrever uma letra, eu procuro, ou simplesmente ouço, sua música. Busco sempre o que é cantável. Então, talvez, no final tudo seja música para mim. E, pelo menos assim me parece, ela sempre me vem.

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